Webjornal - Mensal  - Edição 95 - Aracaju, 12 de novembro a 10 de dezembro  de 2006
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Reportagem

Em nome do pai e dos tios

Filho de Chico Mário, sobrinho de Henfil e de Betinho, Marcos Souza reacende a obra da família

Por Júlia Gaspar
Fotos Álbum de família*

Marcos Souza é estudante de jornalismo da FACHA(RJ), nasceu em 1971, na cidade de São Paulo. Veio para o Rio de Janeiro em 1978, época em que a música efervescia em terras cariocas. Seu pai, o violonista Francisco Mário, mais conhecido como Chico Mário, gravou em 1979 o primeiro disco, chamado “Terra”. Ele foi um dos pioneiros do disco independente, já que as gravadoras não aceitavam seus discos.

Mas os talentos da família Souza são mais conhecidos do que os colegas da faculdade de Marcos pensam.  Herbert de Souza, sim, o Betinho, ex-exilado e inspiração da música de Chico Buarque, é tio desse rapaz. E o Henfil, o famoso cartunista, um dos criadores do Pasquim, é também tio de Marcos Souza.

Com personalidades peculiares, cresceram os três irmãos artistas, Chico Mário fazendo música instrumental; Betinho criando ONGs, porque “quem tem fome tem pressa”; e Henfil, através do humor dos seus desenhos, passando mensagens importantes e engajadas. Os três tiveram vida difícil, eram hemofílicos, doença hereditária, que acarreta várias complicações, como não poder se cortar e graves hemorragias internas. Nas necessidades de transfusões de sangue, o vírus da AIDS chegou de surpresa. Em lutas incansáveis, Betinho conseguiu fechar muitos bancos de sangue ligados a cassinos. Marcos explica que o sangue era coletado como forma de pagamento, sem controle algum.

Perdas e resgates

Em 05 de janeiro de 1988 morre Henfil. Em 14 de março do mesmo ano morre Chico Mário.  Ambos tomavam AZT, uma das primeiras drogas para o tratamento da AIDS e sofriam efeitos colaterais graves. Betinho resistiu por mais tempo tomando um coquetel de drogas. Morreu em 09 de agosto de 1997.

Com a morte de seu pai, Marcos sentiu necessidade de divulgar a obra de Chico Mário.  “Tive essa missão, eu tinha que fazer alguma coisa para ver tocar as músicas do meu pai”.  E fez. Lançou, em novembro de 2005, o livro Francisco Mário, vida e obra, organizado por ele, uma biografia escrita pela sua mãe, Nivia Souza.  Mas não parou por aí, idealizou e realizou o projeto do filme “Três irmãos de Sangue”, que estréia no próximo ano nos cinemas cariocas e já passou no Festival do Rio, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e na Mostra de Ouro Preto.

Pianista desde os 16 anos, Marcos Souza aprendeu muito com o pai. “Ele foi o meu principal professor”, afirma ao lembrar dos importantes incentivos culturais. Marcos tem histórias para contar sobre a dedicação do seu pai à cultura. “Ele chegou a vender um apartamento para gravar um disco”, lembra ao se referir ao primeiro disco do Chico Mário, “Terra”.  Depois vieram: “Revolta dos Palhaços”, “Conversa de Cordas, Couros, Palhetas e Metais”, “Pijama de Seda”, “Retratos”, “Dança do Mar”, “Suíte Brasil” e “Tempo”.  Todos independentes. Ao todo foram oito, apenas cinco em vida.

Desde os oito anos, Marcos divulga as músicas do seu pai. Ele embalava os LPs e levava para críticos como Roberto Moura. Marcos está se formando em jornalismo na FACHA, mas começou o curso há 10 anos, trancou a matrícula e voltou para a faculdade. Essas idas e vindas foram pela tentativa de viver de música.  E consegue. Marcos é músico como seu pai. Com o grupo de chorinho “Conversa de Cordas”, gravou dois discos. Hoje faz trilhas sonoras de filmes e pretende seguir os caminhos do jornalismo cultural.

*Estudante de jornalismo da FACHA/RJ

                            

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