Webjornal - Mensal  - Edição 97 - Aracaju, 07 de janeiro a 04 de fevereiro de 2007
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Reportagem

Viver dos livros

De como um chileno apostou tudo na literatura e deixou o seu país para
conhecer outras culturas e chegar no Brasil 

Texto e foto Paulo Lima

Juan Andueza está à minha espera no portão da sua casa. Sorri e estende a mão. Peço-lhe desculpas por estar invadindo a sua tarde de sábado. Juan está usando uma camiseta azul e uma calça florida à altura do tornozelo. Nos pés, um par de sandálias de borracha, igualmente azuis. Naquele momento o aspecto de Juan é de quem acabara de se recompor de um cochilo.  Dois ou três dias atrás eu tomara conhecimento de que um escritor chileno estava vendendo livros de mão em mão nos bares da Atalaia. Minha fonte teve a iniciativa de comprar um exemplar, que recebi com uma dedicatória do autor.

 

A pequena casa na qual mora Juan, no bairro Coroa do Meio, é guardada por um cachorro que mal se dá ao trabalho de conferir o visitante que chega. Continua por ali mesmo, enquanto eu e Juan entramos e atravessamos uma sala ocupada por um sofá e um aparelho de TV. No compartimento seguinte, extensão da própria sala, sentamos a uma mesa. Pergunto como foi a idéia de vir para o Brasil. Juan, bastante jovial para os seus 52 anos - salvo por uma calvície que avançou pelo alto da cabeça -, explica, carregando nos erres e esses: “Sempre quis conhecer o Brasil, uma cultura grande, um país grande”. 

 

A primeira visita ocorreu há 10 anos, e começou por Brasília, indicada como uma cidade de bom nível cultural, na qual as pessoas liam. Mas a experiência na capital foi malograda, pois era difícil executar o esquema alternativo de vendas de Juan. O acesso aos prédios públicos era proibido. De Brasília ele foi para Goiânia. A cidade não foi o eldorado esperado, e Juan desceu para Salvador, indo morar em Itaparica. Nessa primeira viagem ele permaneceu um ano no País. O Brasil era uma novidade, mas não a geografia latino-americana. Ao deixar o Chile pela primeira vez, Juan visitara a Bolívia, Equador e Argentina.

 

Pergunto a Juan se ele se auto-denomina escritor. “Sim, claro”, responde. Poderia tê-lo poupado de uma questão óbvia se, no início da nossa conversa, eu tivesse examinado os vários recortes de jornais de alguns países do continente que Juan me mostrou, com críticas à sua obra. A um deles, o El Mercúrio, de Valparaíso, Juan disse, durante uma entrevista publicada em 03/09/1993: “Viver dos livros me bastaria. Nada mais”.

 

Juan é defensor da corrente que acredita que um escritor nasce feito. Ele explicou que sempre teve facilidade para inventar histórias. Jamais cursou uma faculdade, mas não perdeu a oportunidade de, há muitos anos, freqüentar uma oficina literária ministrada pelo escritor Martin Cerda. Juan tinha 25 anos quando realizou sua primeira experiência literária. Escreveu um conto. Nessa época, trabalhava como perito em seguros, porém se mantinha firme na convicção de que gostaria de ganhar a vida como escritor.

 

Ao todo, Juan escreveu cinco livros, entre romances, novelas e contos. Por ocasião do lançamento do seu primeiro livro, o jornalista Jorge Tapia Vidal, do jornal La Nación, de Santiago, escreveu a seguinte crítica, em 21/07/1983: “Percebe-se devoção e entrega nesta obra em que  a grandeza dos seres sensíveis que a habitam ressoam a pura verdade interior”.

 

Os contos que compõem seu livro mais recente, Contos sul-americanos, revelam um conjunto de situações e personagens transgressores, eu diria que quase no limiar do fantástico, quando nada climas amorosos pouco convencionais. No conto Monólogo com o muro, um homem desfia suas desventuras para chegar ao amor de uma mulher. Em Eu, o morto, Juan narra a história de um suicida. Independente ou não da atração que seus temas exercem sobre o leitor, há que se concordar que a narrativa de Juan é fluente. Os contos são traduzidos para o português por um brasileiro de Curitiba, a quem Juan retribui fazendo traduções para o espanhol. 

 

É hora de perguntar a respeito das influências literárias desse chileno de Santiago, de gestos calmos, fala firme e olhar sereno por trás de um par de óculos. Para um escritor latino-americano, citar suas fontes literárias num continente de gigantes pode parecer uma tarefa difícil. Juan não demora para declinar suas preferências: em primero lugar vem Juan Rulfo, autor das obra-primas Pedro Páramo e Chão em Chamas, mestre dos mestres. Juan vai até o quarto e de traz um exemplar amarfanhado em espanhol desses dois livros de Rulfo, organizados numa única edição, tal como recém-lançado no Brasil pela Editora Record. O segundo escritor mencionado por Juan é Gabriel García Márquez.

 

E quanto ao Brasil? Que escritores brasileiros Juan teve a oportunidade de ler? A resposta soou um tanto desconcertante para este repórter. O primeiro livro do qual Juan tomou conhecimento foi o clássico Meu de laranja lima, de José Mauro de Vasconcellos. Depois veio a menção aos livros de Jorge Amado.

 

Chegamos num ponto delicado: a sobrevivência material do escritor. Se você não é um fenômeno editorial, nãocomo escapar do assunto. Juan assegura que consegue viver da venda dos seus livros. Seu Contos latino-americanos conseguiu esgotar uma edição de mil exemplares, impressos numa edição popular em uma gráfica de Aracaju. No momento ele trabalha com uma fornada de mais mil exemplares. E objetiva comercializar mais uma terceira edição. Ele acrescentou que reforça o orçamento com a sublocação a estrangeiros dos quartos dos fundos da casa onde mora. 

 

Juan está visitando o Brasil pela segunda vez. Essa nova temporada tem um ano e meio. Pergunto a ele se tem um novo livro em vista. “Um romance”, disse. Da experiência romanesca, não foi além de duas tentativas. “Meu primeiro romance era muito ruim”, afirmou num esgar. No novo livro, vai explorar o universo do Pantanal, no Brasil. dois amigos irão fundar uma nova cidade. Mas deixa claro que a prioridade número um é esgotar uma terceira edição do seu atual livro de contos.

 

Juan Andueza mostra seus arquivos com vários recortes de matérias a seu respeito publicadas em jornais latino-americanos, em diversas épocas. Neles vê-se Juan aos vinte e poucos anos, vasta cabeleira e uma aparência de personagem da nouvelle vague. E a mulher, e a família? A mãe os irmãos vivem no Chile.  O pai morreu. Mulher Juan teve uma, que hoje mora em Brasília. Ela tentou viver em Aracaju, mas não se adaptou.

Foi somente ao me despedir de Juan Andueza que parei para fazer um pequeno cálculo, estabelecer uma pequena cronologia. Em 1973, quando ocorreu no Chile o golpe militar que derrubou Salvador Allende, Juan tinha 19 anos. Era uma conjuntura perigosa para os idealistas. Como Juan terá vivido aquele momento? O repórter ficará sem saber a resposta, quem sabe venha a conhecê-la numa próxima oportunidade. Para todos os efeitos, Juan manteve seu propósito de viver dos livros. E segue escrevendo sua história.

Clique aqui para ler um conto de Juan Andueza.

                            

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