Webjornal - Mensal  - Edição 98 - Aracaju, 04 de fevereiro a 04 de março de 2007
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Reportagem

O repórter e a revolução

Herbert Matthews subiu a Sierra Maestra com a missão de entrevistar Fidel Castro e acabou entrelaçando seu nome para sempre com a revolução cubana

Texto Paulo Lima
Fotos Divulgação

Repórteres são dados a atos heróicos, padecem do complexo de Clark Kent, o super-homem que pode resolver tudo, a todo o momento. Alguns deles, no entanto, realizam proezas, e assim são elevados aos píncaros da glória jornalística.

 

Herbert L. Matthews pode ser considerado um desses tipos. Ao subir a Sierra Maestra, em 1957, para entrevistar Fidel Castro, então um jovem revolucionário lutando para derrubar o regime de Fulgencio Batista, Matthews produziu um dos maiores furos jornalísticos do século 20.

 

Naquele tempo, Cuba fervilhava de ações terroristas contra o corrupto regime de Batista. Fidel era o líder de um grupo que planejava tomar o poder de forma violenta. Numa ação desastrada com o seu grupo de insurretos, acabou conduzindo o Granma, a pequena embarcação com a qual pretendia invadir a ilha, para um local errado. O grupo foi surpreendido pelo exército de Batista. Fidel, dado como morto, foi se esconder nas selvas de Sierra Maestra, ao sul da ilha.

 

Foi por esse tempo que Matthews, veterano correspondente do New York Times, acabou designado pelo jornal para o que parecia uma missão impossível: ver in loco a situação em Cuba. E tirar a limpo a história da morte de Fidel.

 

Não foi por acaso que o grandalhão e esguio Matthews foi incumbido para a empreitada. Ele trazia no currículo a experiência de ter sido um corajoso repórter na cobertura da Guerra Civil Espanhola. Atuou com tanta coragem que recebeu o reconhecimento de gente como Ernest Hemingway, que também andava pela Espanha naquela época. “Herbert Matthews é valente como um texugo”, disse o escritor americano. O grande ensaio de Matthews em grandes conflitos ocorreu, de fato, durante a Segunda Guerra Mundial. Porém, na Europa ele ficou numa espécie de compasso de espera, e sua grande atuação ocorreu de fato na Espanha.

 

Ao aceitar o convite do New York Times para cobrir a efervescência em Havana, Matthews tinha contra si dois fatores desfavoráveis. A idade, 57 anos, e problemas cardíacos. Mas a avidez de repórter falou mais alto. Curiosamente, sua carreira de repórter estava num ponto estacionário. No jornal, Matthews atuava como editor. Só aceitou o cargo por causa da saúde. Mas ficou sob uma condição: a de ter liberdade para continuar fazendo suas reportagens.

 

Com um visto de turista, acompanhado da sua mulher, Matthews parte para Havana. A censura em Cuba andava rigorosíssima. De tal forma que nada que saísse na imprensa americana com assuntos desfavoráveis contra Fulgencio Batista passava pela tesoura implacável dos censores. Literalmente. Jornais como o New York Times e outros chegavam às bancas com buracos onde deviam existir notícias sobre a situação cada vez mais difícil do regime.

 

Na ilha, Matthews entrou em contato com colegas do jornal e preparou uma série de entrevistas, com o intuito de saber melhor o ritmo das mudanças em Cuba. Revolucionários ligados a Fidel Castro prepararam o encontro de Matthews com o líder. A subida à Sierra Maestra aconteceu com requintes cinematográficos. Matthews, que desconhecia inteiramente Fidel, não somente o entrevistou, como também ficou impressionadíssimo com ele.

 

A história de Herbert Matthews e os bastidores desse famoso encontro é o tema do livro O homem que inventou Fidel, escrito por Anthony De Palma, também repórter do New York Times.  Em sua aventura cubana, Matthews ajudou a criar um mito, o de Fidel, e, sem querer, a derrubar outro: ele próprio.

 

Nas três reportagens que Matthews escreveu tão logo retornou da Sierra Maestra, Fidel Castro é pintado com tintas heróicas. Matthews jamais deixou de torcer pelos fracos e oprimidos, e nas poucas horas em que esteve com Fidel, em seu esconderijo na selva, se deu conta do potencial da revolução. Não foram poucas as vezes em que o viés das reportagens de Matthews incomodou seus editores no New York Times. Com ele, a questão da objetividade jornalística era posta à prova sempre.

 

Em Havana, Matthews conseguiu o furo de sua vida, mas, por ironia, essa conquista significou também sua ruína como jornalista. O sucesso de suas reportagens, inicialmente questionadas pelo regime cubano, trouxe-o de volta ao proscênio. Mas foi a partir dali que a vida de Matthews passou a vivenciar um longo e doloroso turning point, uma reviravolta que o perseguiu até sua morte.

 

Durante o resto de sua vida Matthews tentou provar que não era comunista e que não esteve servindo à revolução castrista. “Ele tornou-se objeto do interesse dos senadores que devotaram suas carreiras a expurgar dos Estados Unidos qualquer rumor ou sinal de simpatia pelo comunismo. E chamou a atenção dos olhares suspeitos de J. Edgar Hoover e do FBI”, escreveu Anthony DePalma

 

Até morrer, em 1977, Matthews tentou se livrar da pecha de simpatizante da revolução cubana, sem jamais conseguir. A visão do grande repórter, porém tendencioso, é o que prevalece ainda hoje, se levarmos em conta opiniões como as de Jonathan Alter, editor sênior da revista Newsweek, em comentário ao livro de Anthony De Palma: “Os críticos de Matthews, porém, estavam mais certos do que equivocados. Sua carreira é uma lição para qualquer um com aspirações a se tornar um repórter de talento. A paixão por fontes e causas pode torná-lo famoso, mas freqüentemente o empurrarão para a oscilante trilha da verdade”.

 

                            

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