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Reportagem O repórter e a revolução
Repórteres são dados a atos
heróicos, padecem do complexo de Clark Kent, o
super-homem que pode resolver tudo, a todo o momento. Alguns deles, no
entanto, realizam proezas, e assim são elevados aos píncaros da glória
jornalística. Herbert
L. Matthews pode ser considerado um desses tipos.
Ao subir a Sierra Maestra,
em 1957, para entrevistar Fidel Castro, então um jovem revolucionário lutando
para derrubar o regime de Fulgencio Batista, Matthews produziu um dos maiores furos jornalísticos do
século 20. Naquele
tempo, Cuba fervilhava de ações terroristas contra o corrupto regime de
Batista. Fidel era o líder de um grupo que planejava tomar o poder de forma
violenta. Numa ação desastrada com o seu grupo de insurretos, acabou
conduzindo o Granma,
a pequena embarcação com a qual pretendia invadir a ilha, para um local
errado. O grupo foi surpreendido pelo exército de Batista. Fidel, dado como
morto, foi se esconder nas selvas de Sierra Maestra, ao sul da ilha. Foi por
esse tempo que Matthews, veterano correspondente do
New York Times, acabou designado pelo
jornal para o que parecia uma missão impossível: ver in loco a situação em Cuba. E tirar a limpo a história da morte
de Fidel. Não foi
por acaso que o grandalhão e esguio Matthews foi
incumbido para a empreitada. Ele trazia no currículo a experiência de ter
sido um corajoso repórter na cobertura da Guerra Civil Espanhola. Atuou com
tanta coragem que recebeu o reconhecimento de gente como Ernest Hemingway, que também andava pela Espanha naquela época.
“Herbert Matthews é valente como um texugo”, disse
o escritor americano. O grande ensaio de Matthews
em grandes conflitos ocorreu, de fato, durante a Segunda Guerra Mundial.
Porém, na Europa ele ficou numa espécie de compasso de espera, e sua grande
atuação ocorreu de fato na Espanha. Ao
aceitar o convite do New York Times para cobrir a
efervescência em Havana, Matthews tinha contra si
dois fatores desfavoráveis. A idade, 57 anos, e problemas cardíacos. Mas a
avidez de repórter falou mais alto. Curiosamente, sua carreira de repórter
estava num ponto estacionário. No jornal, Matthews
atuava como editor. Só aceitou o cargo por causa da saúde. Mas ficou sob uma
condição: a de ter liberdade para continuar fazendo suas reportagens.
Com um
visto de turista, acompanhado da sua mulher, Matthews
parte para Havana. A censura em Cuba andava rigorosíssima.
De tal forma que nada que saísse na imprensa americana com assuntos
desfavoráveis contra Fulgencio Batista passava pela
tesoura implacável dos censores. Literalmente. Jornais como o New York Times e outros chegavam às bancas
com buracos onde deviam existir notícias sobre a situação cada vez mais
difícil do regime. Na
ilha, Matthews entrou em contato com colegas do
jornal e preparou uma série de entrevistas, com o intuito de saber melhor o
ritmo das mudanças em Cuba. Revolucionários ligados a Fidel Castro prepararam
o encontro de Matthews com o líder. A subida à Sierra Maestra aconteceu com
requintes cinematográficos. Matthews, que
desconhecia inteiramente Fidel, não somente o entrevistou, como também ficou
impressionadíssimo com ele. A
história de Herbert Matthews e os bastidores desse
famoso encontro é o tema do livro O
homem que inventou Fidel, escrito por Anthony De Palma, também repórter
do New York Times. Em sua aventura cubana, Matthews
ajudou a criar um mito, o de Fidel, e, sem querer, a derrubar outro: ele
próprio. Nas
três reportagens que Matthews escreveu tão logo
retornou da Sierra Maestra,
Fidel Castro é pintado com tintas heróicas. Matthews
jamais deixou de torcer pelos fracos e oprimidos, e nas poucas horas em que
esteve com Fidel, em seu esconderijo na selva, se deu conta do potencial da
revolução. Não foram poucas as vezes em que o viés das reportagens de Matthews incomodou seus editores no New York Times. Com ele, a questão da objetividade jornalística era
posta à prova sempre. Em
Havana, Matthews conseguiu o furo de sua vida, mas,
por ironia, essa conquista significou também sua ruína como jornalista. O
sucesso de suas reportagens, inicialmente questionadas pelo regime cubano,
trouxe-o de volta ao proscênio. Mas foi a partir
dali que a vida de Matthews passou a vivenciar um
longo e doloroso turning point, uma
reviravolta que o perseguiu até sua morte. Durante
o resto de sua vida Matthews tentou provar que não
era comunista e que não esteve servindo à revolução castrista.
“Ele tornou-se objeto do interesse dos senadores que devotaram suas carreiras
a expurgar dos Estados Unidos qualquer rumor ou sinal de simpatia pelo
comunismo. E chamou a atenção dos olhares suspeitos de J. Edgar Hoover e do FBI”, escreveu Anthony DePalma Até
morrer, em 1977, Matthews tentou se livrar da pecha
de simpatizante da revolução cubana, sem jamais conseguir. A visão do grande
repórter, porém tendencioso, é o que prevalece ainda hoje, se levarmos em
conta opiniões como as de Jonathan Alter, editor sênior
da revista Newsweek,
em comentário ao livro de Anthony De Palma: “Os críticos de Matthews, porém, estavam mais certos do que equivocados.
Sua carreira é uma lição para qualquer um com aspirações a se tornar um
repórter de talento. A paixão por fontes e causas pode torná-lo famoso, mas
freqüentemente o empurrarão para a oscilante trilha da verdade”. |
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