Sempre falei que o jornalista
esportivo é um profeta do passado. O dia em que proibirem o pitonismo
nesta vertente do jornalismo, esta perderá cerca de 45% de sua graça.
Antes de começar a Copa do Mundo já dizia que o Brasil não seria campeão,
apostava na França pelo elenco que tem. Mas no dia 29 de junho anunciei em
cadeia nacional pela Super Rede Boa Vontade de Rádio que o campeão seria o
vencedor do confronto do dia 30 de junho em Berlim, entre Alemanha e
Argentina, válido pelas quartas de final. No mesmo programa alertei que
estava morrendo de medo da França e que não passaríamos pela seleção do
meia armador Zinedine Zidane. Acertei que seríamos eliminados, mas errei
em relação ao vencedor da Copa. Não foram os alemães, mas sim os
italianos, que com a retranca habitual bateram os donos da casa e os
franceses no último jogo.
A final realizada em
Berlim no dia de 9 de julho foi fabulosa, teve todos os ingredientes de um
grande jogo. Apostava na França de Zidane, que jogou com o ombro direito
machucado, assim como o alemão Franz Beckenbauer na copa de 1970. O placar
de 1 a 1 foi injusto. A França jogou bem melhor e até saiu na frente com
um gol de Zidane em cobrança de penalti, mas pecou ao sofrer o empate com
o gol de cabeça de Marco Materazzi.
Por falar em cabeça, misteriosamente Zidane, quem diria, um craque dotado de uma técnica refinada, meteu a
cabeça no peito de Materazzi após ríspida discussão, o que acarretou em
uma correta, dramática e deprimente expulsão de campo já na prorrogação. A
superioridade francesa acabou junto com os 120 minutos de bola rolando. Na
disputa de pênaltis o centro avante David Trezeguet, que joga na italiana
Juventus, chutou a bola no travessão de seu colega de equipe Gianluigi
Buffon. A Itália, por sua vez, pôde comemorar o tetracampeonato após
cobrança de Fabio Del Grosso, que no bom italiano significa Fabio O
Grande.
O título veio em ótima hora para o futebol italiano, já que o
último campeonato nacional disputado sofre com a suspeita de um grande
esquema de fraude por parte de árbitros e dirigentes de clubes. A
Juventus, vulga Vecchia Signora, atual campeã italiana e detentora de 8
dos 46 jogadores das seleções finalistas, é uma das principais suspeitas
de comandar esse esquema. Caso o esquema seja comprovado a Juventos será
rebaixada para a 3° divisão, já o Milan, Fiorentina e Lazio serão
rebaixadas para a 2° divisão. Fica a expectativa de que o título mundial
não abafe o escândalo nacional e que tudo não termine em pizza na Itália,
que embora seja a terra da pizza, tem uma promotoria e tribunais sérios,
diferentes do Brasil...
E o Brasil? O Brasil é
reconhecido mundialmente como o país do futebol, no entanto o futebol não
é uma coisa maior. Nosso país, a sua cidade, a política e a arte são mais
importantes do que este esporte, que nada mais é que um entretenimento. O
futebol é só futebol e, sinceramente, na verdade mesmo, o futebol não tem
a menor importância. Mesmo assim, é a única alegria que o povo brasileiro
tem, uma vez que a falta de dignidade impera em todas as outras áreas mais
importantes.
Infelizmente, como se
fosse por osmose, a falta de compostura migrou para nosso futebol. A falta
de decência fez com que nossa Confederação Brasileira de Futebol (CBF)
levasse a seleção para treinar em Weggis, na Suíça. Tinha certeza que o
frígido castelo europeu não era o melhor lugar para a seleção canarinho.
Ela deveria ter treinado no Brasil, sentindo o calor do povo que iria
representar.
Por falar em treinos, o técnico Carlos Alberto Parreira
insistiu em exercícios diários em marcha lenta, com os jogadores fora de
posição em um campo pequeno, que não tinha nada a ver com qualquer
situação de jogo. Sem contar aqueles
amistosos
contra times fracos que serviram somente para iludir a todos, inclusive
nosso próprio treinador.
Parreira foi o responsável pela idéia grotesca de sair do
Brasil com o time já escalado de 1 a 11 e por insistir em um esquema
tático falido chamado de “quadrado mágico”. Este quadrado era detentor de
tanta magia que conseguiu até desaparecer! Ninguém o viu durante a copa
inteira.
Onde não há competitividade e luta por posição, sobra
comodismo. Mesmo assim os jogadores poderiam ter jogado muito melhor. A
soberba de nossos atletas nos garantiu uma derrota vergonhosa.
Em abril deste fatídico
ano para o futebol brasileiro, o meia armador francês Zidane anunciou que
encerraria a carreira jogando a Copa da Alemanha pela seleção de seu país,
cujas cores já haviam o consagrado campeão mundial e melhor jogador da
Copa do Mundo de 1998. Em sua despedida o maestro disse: “Vou porque é o
que tenho de fazer. Faz muito tempo que estou pensando e nessas horas se
passa de tudo pela cabeça, mas farei o que é direito. Não quero jogar por
jogar. Sempre jogo para ganhar, e quando não consigo tenho de ser
realista. Tudo tem um fim”.
A atitude de Zidane é digna de quem tem
orgulho e amor próprio. Infelizmente para nós, os jogadores brasileiros
tiveram mais arrogância e cobiça pela luxúria do que orgulho e amor
próprio.
Demonstrando uma falsa união, alguns atletas criticaram o brasileiro Edson
Arantes do Nascimento, sim, o Pelé! O melhor jogador de todos os tempos
havia manifestado seu mau pressentimento em relação ao jogo contra a
França. Para que criticar o Rei? Logo esta que foi exatamente a previsão
que Pelé acertou! Como disse certa vez o parisiense François Marie Arouet,
vulgo Voltaire (sim, Voltaire também era francês), “posso discordar do que
dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizeres”.
Na véspera
do jogo contra a França, o técnico Carlos Alberto Parreira foi perguntado
pelo jornal francês “L’Equipe” o que aconteceria se o Brasil perdesse.
Resposta: “Durante o dia o Sol continuará a brilhar e as noites
continuarão cheias de estrelas”. Foi com
esse espírito de tanto
faz como tanto fez que se viu os comandados de Parreira em campo.
Enquanto
isso a pátria brasileira assistia a tudo de forma atônita,
assim como vira-latas que anseiam por salvação!
Durante o jogo a seleção pentacampeã marcou muito atrás dando liberdade
para a França tocar a bola desde a defesa até nossa intermediária. Levamos
um baile do verdadeiro futebol arte. Moral
da história? Quem muito ganha jogando mal, um dia acaba jogando fora tudo
o que ganhou imerecidamente.
Sei que
perder faz parte do jogo, mas assim como não me alegro com vitórias feias,
não me entristeço com
derrotas honradas. Mas a derrota que sofremos no dia 1° de
julho em Frankfurt foi indecente. Pois é, sem
dignidade não conseguimos mais nem ser o país do futebol.
Como certa vez escreveu Paulo Prado: “Numa terra radiosa vive um povo
triste”. O eterno Zidane abriu os olhos da maior
parte do povo e da imprensa brasileira para o Brasil que temos,
acordando-nos do sonho daquele Brasil que gostaríamos de ter. O
craque francês, aliado à empáfia dos jogadores e da comissão técnica
brasileira, nos mostrou que quem
tem medo de perder, perde a vontade de ganhar.
Feliz de quem nasceu na
terra do filósofo iluminista Voltaire e cantou, no dia 1° de julho, numa Champs Elysées lotada: “Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons!”;
Zizou
esteja certo de que quando o envergonhado “país do futebol” olhar para
você, o fará com veneração.
Por isso,
vive la France et merci Zidane, merci!
*Rodrigo Marinheiro é cronista e
comentarista esportivo da Boa Vontade TV e da Super Rede Boa Vontade de
Rádio.