Webjornal - Mensal  - Edição 91 - Aracaju,  09 de julho a 13 de agosto  de 2006
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Copa 2006

O Brasil que temos e o que queremos

Por Rodrigo Marinheiro*

Sempre falei que o jornalista esportivo é um profeta do passado. O dia em que proibirem o pitonismo nesta vertente do jornalismo, esta perderá cerca de 45% de sua graça. Antes de começar a Copa do Mundo já dizia que o Brasil não seria campeão, apostava na França pelo elenco que tem. Mas no dia 29 de junho anunciei em cadeia nacional pela Super Rede Boa Vontade de Rádio que o campeão seria o vencedor do confronto do dia 30 de junho em Berlim, entre Alemanha e Argentina, válido pelas quartas de final. No mesmo programa alertei que estava morrendo de medo da França e que não passaríamos pela seleção do meia armador Zinedine Zidane. Acertei que seríamos eliminados, mas errei em relação ao vencedor da Copa. Não foram os alemães, mas sim os italianos, que com a retranca habitual bateram os donos da casa e os franceses no último jogo. 

A final realizada em Berlim no dia de 9 de julho foi fabulosa, teve todos os ingredientes de um grande jogo. Apostava na França de Zidane, que jogou com o ombro direito machucado, assim como o alemão Franz Beckenbauer na copa de 1970. O placar de 1 a 1 foi injusto. A França jogou bem melhor e até saiu na frente com um gol de Zidane em cobrança de penalti, mas pecou ao sofrer o empate com o gol de cabeça de Marco Materazzi.

Por falar em cabeça, misteriosamente Zidane, quem diria, um craque dotado de uma técnica refinada, meteu a cabeça no peito de Materazzi após ríspida discussão, o que acarretou em uma correta, dramática e deprimente expulsão de campo já na prorrogação. A superioridade francesa acabou junto com os 120 minutos de bola rolando. Na disputa de pênaltis o centro avante David Trezeguet, que joga na italiana Juventus, chutou a bola no travessão de seu colega de equipe Gianluigi Buffon. A Itália, por sua vez, pôde comemorar o tetracampeonato após cobrança de Fabio Del Grosso, que no bom italiano significa Fabio O Grande.

O título veio em ótima hora para o futebol italiano, já que o último campeonato nacional disputado sofre com a suspeita de um grande esquema de fraude por parte de árbitros e dirigentes de clubes. A Juventus, vulga Vecchia Signora, atual campeã italiana e detentora de 8 dos 46 jogadores das seleções finalistas, é uma das principais suspeitas de comandar esse esquema. Caso o esquema seja comprovado a Juventos será rebaixada para a 3° divisão, já o Milan, Fiorentina e Lazio serão rebaixadas para a 2° divisão. Fica a expectativa de que o título mundial não abafe o escândalo nacional e que tudo não termine em pizza na Itália, que embora seja a terra da pizza, tem uma promotoria e tribunais sérios, diferentes do Brasil...

E o Brasil? O Brasil é reconhecido mundialmente como o país do futebol, no entanto o futebol não é uma coisa maior. Nosso país, a sua cidade, a política e a arte são mais importantes do que este esporte, que nada mais é que um entretenimento. O futebol é só futebol e, sinceramente, na verdade mesmo, o futebol não tem a menor importância. Mesmo assim, é a única alegria que o povo brasileiro tem, uma vez que a falta de dignidade impera em todas as outras áreas mais importantes.

Infelizmente, como se fosse por osmose, a falta de compostura migrou para nosso futebol. A falta de decência fez com que nossa Confederação Brasileira de Futebol (CBF) levasse a seleção para treinar em Weggis, na Suíça. Tinha certeza que o frígido castelo europeu não era o melhor lugar para a seleção canarinho. Ela deveria ter treinado no Brasil, sentindo o calor do povo que iria representar.

 

Por falar em treinos, o técnico Carlos Alberto Parreira insistiu em exercícios diários em marcha lenta, com os jogadores fora de posição em um campo pequeno, que não tinha nada a ver com qualquer situação de jogo. Sem contar aqueles amistosos contra times fracos que serviram somente para iludir a todos, inclusive nosso próprio treinador. Parreira foi o responsável pela idéia grotesca de sair do Brasil com o time já escalado de 1 a 11 e por insistir em um esquema tático falido chamado de “quadrado mágico”. Este quadrado era detentor de tanta magia que conseguiu até desaparecer! Ninguém o viu durante a copa inteira.

 

Onde não há competitividade e luta por posição, sobra comodismo. Mesmo assim os jogadores poderiam ter jogado muito melhor. A soberba de nossos atletas nos garantiu uma derrota vergonhosa.

 

Em abril deste fatídico ano para o futebol brasileiro, o meia armador francês Zidane anunciou que encerraria a carreira jogando a Copa da Alemanha pela seleção de seu país, cujas cores já haviam o consagrado campeão mundial e melhor jogador da Copa do Mundo de 1998. Em sua despedida o maestro disse: “Vou porque é o que tenho de fazer. Faz muito tempo que estou pensando e nessas horas se passa de tudo pela cabeça, mas farei o que é direito. Não quero jogar por jogar. Sempre jogo para ganhar, e quando não consigo tenho de ser realista. Tudo tem um fim”.

 

A atitude de Zidane é digna de quem tem orgulho e amor próprio. Infelizmente para nós, os jogadores brasileiros tiveram mais arrogância e cobiça pela luxúria do que orgulho e amor próprio.

 

Demonstrando uma falsa união, alguns atletas criticaram o brasileiro Edson Arantes do Nascimento, sim, o Pelé! O melhor jogador de todos os tempos havia manifestado seu mau pressentimento em relação ao jogo contra a França. Para que criticar o Rei? Logo esta que foi exatamente a previsão que Pelé acertou! Como disse certa vez o parisiense François Marie Arouet, vulgo Voltaire (sim, Voltaire também era francês), “posso discordar do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizeres”.

 

Na véspera do jogo contra a França, o técnico Carlos Alberto Parreira foi perguntado pelo jornal francês “L’Equipe” o que aconteceria se o Brasil perdesse. Resposta: “Durante o dia o Sol continuará a brilhar e as noites continuarão cheias de estrelas”. Foi com esse espírito de tanto faz como tanto fez que se viu os comandados de Parreira em campo.

 

Enquanto isso a pátria brasileira assistia a tudo de forma atônita, assim como vira-latas que anseiam por salvação! Durante o jogo a seleção pentacampeã marcou muito atrás dando liberdade para a França tocar a bola desde a defesa até nossa intermediária. Levamos um baile do verdadeiro futebol arte. Moral da história? Quem muito ganha jogando mal, um dia acaba jogando fora tudo o que ganhou imerecidamente.

 

Sei que perder faz parte do jogo, mas assim como não me alegro com vitórias feias, não me entristeço com derrotas honradas. Mas a derrota que sofremos no dia 1° de julho em Frankfurt foi indecente. Pois é, sem dignidade não conseguimos mais nem ser o país do futebol. Como certa vez escreveu Paulo Prado: “Numa terra radiosa vive um povo triste”. O eterno Zidane abriu os olhos da maior parte do povo e da imprensa brasileira para o Brasil que temos, acordando-nos do sonho daquele Brasil que gostaríamos de ter. O craque francês, aliado à empáfia dos jogadores e da comissão técnica brasileira, nos mostrou que quem tem medo de perder, perde a vontade de ganhar.

 

Feliz de quem nasceu na terra do filósofo iluminista Voltaire e cantou, no dia 1° de julho, numa Champs Elysées lotada: “Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons!”; Zizou esteja certo de que quando o envergonhado “país do futebol” olhar para você, o fará com veneração. Por isso, vive la France et merci Zidane, merci!


*Rodrigo Marinheiro é cronista e comentarista esportivo da Boa Vontade TV e da Super Rede Boa Vontade de Rádio.

                                 

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