
Webjornal - Mensal - Edição 94 - Aracaju, 15 de outubro
a 12 de novembro de 2006
_________________________________________________________________________________________
|
|
Eleições 2006 Por Rodrigo Marinheiro* O fato do estilista Clodovil ter conquistado meio milhão de votos em São Paulo revela que o povo brasileiro ainda vota por empatia pessoal com os candidatos. Outra prova da grotesca forma do eleitor votar foi o terceiro lugar em audiência da TV Bandeirantes durante o primeiro debate do segundo turno entre os presidenciáveis. É evidente que o grosso do eleitorado não toma conhecimento dos debates e nem assiste ao horário eleitoral gratuito. Escrevi mês passado, na crônica Colloridos, fernandistas e lulistas, que nossos políticos transformaram a miséria em uma bandeira. Lula usa a seu favor a miséria popular ao afirmar que Alckmin erradicará o Bolsa Família. Por sua vez o tucano afirma que jamais fará isso, o que eu acredito. No entanto, o que me intriga é ver dois presidenciáveis discutindo o que farão com a esmola do povo! Nenhum deles propôs algo que realmente possa mudar a estrutura social do país a ponto de superar o assistencialismo barato. No debate da Band, quando Alckmin indagou veementemente o presidente Lula acerca dos escândalos na gestão do lulo-petista, a resposta foi a de sempre: “Um pai de família não sabe de tudo que acontece em casa... Se algum companheiro aloprado fez algo que não deveria, irá pagar...”. Mesma resposta que havia dado em entrevistas a William Bonner/Fátima Bernardes e, antes, a Pedro Bial, todos da TV Globo. Lula tentou minimizar a discussão sobre ética comparando seu governo com o de FHC, e assegurou ao eleitor que o oposicionista irá privatizar todas as estatais, o que foi prontamente negado pelo candidato do PSDB. Às vezes me pergunto: “Se o correio, por exemplo, fosse privatizado, teria como acomodar companheiros de partido e fazer caixa dois com o dinheiro que por lá circula?”. Vale lembrar que o caso do mensalão surgiu após um escândalo de corrupção nos correios. Vale lembrar também que o primeiro grande caso de corrupção da atual gestão foi o de Waldomiro Diniz, flagrado ao praticar extorsão contra Carlinhos Cachoeira, empresário (se é que podemos assim dizer) do ramo de jogos. Na época Diniz era o braço direito de José Dirceu, então chefe da Casa Civil e companheiro de Lula. De lá para cá não aconteceram casos isolados, ficamos perante uma espécie de "serial scandals", um encadeado no outro. Como se não bastassem as desculpas esfarrapadas dos candidatos perante a maioria das perguntas, ambos mentiram a respeito da economia. Lula disse que o país crescera em sua gestão mais do que nos últimos 20 anos, o que é falso. Alckmin afirmou que São Paulo cresceu mais que a média nacional, o que é igualmente falso. As mentiras são o de menos nesse caso, me assusto ao perceber que ambos festejam seus desempenhos econômicos, do País no caso de Lula, e do Estado no caso de Alckmin. Talvez o Brasil e o Estado de São Paulo caminhassem melhor se nenhum deles estivesse no comando. Com a política econômica desses dois estamos todos perdidos! O escritor Millôr Fernandes aconselhou para jamais dizermos uma mentira que não possamos provar, mas com esta eleição percebo que uma nova maneira de mentir foi inventada no Brasil. Embora eu já tenha trabalhado na política e há tempos escreva sobre o tema, já não consigo distinguir o que é verdade ou mentira, e nem ao menos sei se eu mesmo sou realidade ou ficção. Às vezes me pergunto se sou um pesadelo ou se existo mesmo! Sinto cada vez mais que a verdade é apenas uma mentira repetida muitas vezes, e que o povo acaba acreditando. O austríaco e ditador nazista, Adolf Hitler, morto em 1945, disse que “quanto maior a mentira, maior a chance de todos acreditarem nela”. Moral: Hitler teria chances de ser eleito no Brasil. Devida posição geográfica desta republiqueta tropical, deixei a tempos de ser auspicioso em relação ao Brasil. Afinal, uma das tragicomédias da América Latina é a previsibilidade dos acontecimentos. Certa vez a filósofa francesa Simone de Beauvoir, falecida em 1986, disse que “o mais escandaloso nos escândalos é que nos habituamos a eles”. Esse ditado soa como se fosse feito para nós brasileiros, uma vez que somos o povo mais alarido do terceiro mundo. Em 2002 a massa tupiniquim optou por uma revolução, mas a ignorância não proporcionou ao brasileiro a possibilidade da leitura de alguma obra do francês Gilbert Cesbron, falecido em 1979. Certa vez este escritor grafou que “a revolução acontece quando mudam os papéis e não apenas os autores”. No Brasil acontece o inverso... sai governo, entra governo e continua tudo igual. Diante do imenso buraco negro de alianças que se formam neste segundo turno, lembro de uma frase do estadista inglês Winston Churchill durante a Segunda Guerra Mundial: "Se o demônio for contra Hitler, eu me aliarei ao demônio". Nossos políticos não têm escrúpulos! Sinto-me néscio perante tudo isso devido minha ojeriza pela nossa política e seus espólios. Mas eu não tenho jeito, sempre escreverei sobre ela porque sou um maluco que anda por aí desbravando o óbvio. Sei quem ganhará as eleições porque a história se repete... Sei também que já citei algumas vezes Karl Marx, mas é sempre bom lembrar: “a história acontece primeiro como tragédia e depois se repete como farsa”. O que ainda não está claro para este escriba é o objetivo nacional, o que o povo realmente espera de seu eleito. Temo por isso... O debate mais próximo do dia de votação será o da Rede Globo, na sexta-feira dia 27, na antevéspera do segundo turno. Seria importante que o eleitorado prestasse atenção desta vez, mesmo porque, como alertou o filósofo jônico pré-socrático Heráclito de Éfeso: "ninguém atravessa duas vezes o mesmo rio"! *Cronista e produtor do telejornal SPTV da Rede Globo de Televisão. As opiniões expressas pelo articulista não necessariamente refletem as opiniões da empresa onde ele trabalha. |
(c) Todos os Direitos Reservados