Edição 115 - Aracaju, 06 de julho a 03 de agosto  de 2008
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  viagem
Uma Europa diferente
Associada a conflitos políticos, a região dos Bálcãs oferece riqueza histórica e belas paisagens

Texto e fotos Paulo Rogério Nunes*

Sérvia

Por causa de uma viagem de trabalho, fiquei três meses morando na península balcânica, no sudeste da Europa. Já tinha lido algumas coisas sobre a região, mas nunca imaginei morar e conhecer a fundo uma parte do mundo que, assim como o Oriente Médio e alguns países africanos, é estereotipada como lugar de constantes guerras. Escreverei um pouco sobre essa experiência para, quem sabe, encorajar os brasileiros, que são como eu apaixonados por história e viagens, a descobrir mais sobre essa distante região. Conhecer os Bálcãs é uma experiência indescritível. Tive a oportunidade de visitar nesse período a Sérvia, Bulgária, Grécia, Turquia e parcialmente a Macedônia.

Para quem quiser conhecer a fundo a região balcânica, uma sugestão é começar pela Sérvia (do original Србија). A ex-república socialista Iugoslava é, sem dúvida, a que mais guarda as complexidades de uma das regiões mais estratégicas do hemisfério norte, pela sua proximidade com a Ásia Menor, a Europa Ocidental e o norte da África.

A história dos sérvios na região dos Bálcãs remete ao tempo das invasões eslavas no século VII, quando esse povo indo-europeu se fixou na região, convertendo-se ao cristianismo ortodoxo (após o famoso cisma da Igreja Cristã) e após 1389 foi anexado ao Império Turco-Otomano, tornando-se cativo por quase 500 anos. Essa ocupação turca moldou não só a visão política da região, como também os costumes, alimentação, música e forma de ver o mundo.

O povo sérvio é fanático por futebol. Um dia resolvi ir com um colega polonês até a Bulgária. Ele tinha que comprar a passagem de volta para Varsóvia, e eu fui com ele porque queria conhecer Sofia, a desconhecida ex-capital comunista. Ao chegarmos à fronteira na parte Sérvia, como de costume, entraram vários policiais para conferir passaportes e descobrir irregularidades. Tudo estava normal até que, ao chegar a minha vez, o policial começou a falar algumas coisas em sérvio. Eu, temerosamente, pedi para meu colega polonês decifrar aquele "enigma". Uma curiosidade: as línguas eslavas são diferentes, mas possuem um pouco de similaridade. Sendo assim, se um sérvio falar pausadamente será compreendido por um polonês, um búlgaro ou um ucraniano.

O policial repetia algumas coisas e eu já estava me arrumando para descer do ônibus e telefonar para a Embaixada Brasileira, quando meu colega finalmente entendeu o contexto. O policial queria saber se eu jogava no Partizan, o principal time da Sérvia. Ele reconheceu meu passaporte brasileiro. Depois de alguns minutos, consegui esclarecer o motivo da minha viagem. Então, aconteceu a cena mais engraçada da viagem. O policial disse em alto e bom som algo como "ah, sim, pensei que você era do Partizan, eu torço pelo Redstar". Partizan e Redstar são dois clubes criados pelo estadista comunista Joseph Broz Tito para atividades desportivas na ex-Iugoslávia. São adversários, algo como Bahia e Vitória ou Corinthinas e Palmeiras, no Brasil. Assim, me safei  de ficar "preso" por algumas horas na fronteira.

Na verdade, Partizan foi o nome da guerrilha que lutou contra o nazismo na região, quando alemães e alguns croatas tentaram dominar o então reino da Iugoslávia. Na época, o jovem Tito era um dos líderes do movimento que, ao findar a Segunda Guerra Mundial, tomou o poder fundando a Republica Federativa Socialista da Iugoslávia, reunindo sérvios, croatas, bósnios, eslovenos, macedônios e proclamando Tito como chefe de estado durante quase quatro décadas. 

Do ponto de vista político, a história da Sérvia é marcada por uma instabilidade quase que constante. Após a difícil libertação do Império Otomano, o país participou das Guerras Balcânicas (1912-1913) lutando contra Montenegro, Grécia, Romênia, Turquia e Bulgária para conquistar territórios remanescentes do imenso império que acabara de se esfacelar. Participou também da Primeira Guerra Mundial (1914-18) como protagonistas do assassinato do Arquiduque Austro-Húngaro, Franz Ferdinand, que foi o estopim para a guerra. Com a queda do estado Iugoslavo, guerras recentes contra a Croácia e a Bósnia-Herzegovina voltaram a marcar a história daquele país.

Apesar de não ser rica como seus vizinhos ocidentais, a Sérvia e toda a região dos Bálcãs têm um bom padrão de vida, se comparada à América Latina, Ásia ou África. Talvez isso seja fruto de um recente passado socialista que não permitiu o surgimento de uma burguesia concentradora de riquezas. Na Sérvia, mesmo hoje em dia, o salário de um dentista e de um professor primário não são tão discrepantes, apesar da existência de muitos casos de ex-dirigentes políticos que enriqueceram no processo de privatização de empresas quando do fim do sistema socialista. Se ainda existisse o chamado “segundo mundo”, esses países continuariam nessa categoria. 

Ao andar pelas cidades sérvias ou até mesmo conversando com seus habitantes, o visitante terá constantes aulas de história, seja pelo excelente nível educacional dos sérvios (que são apaixonados por leitura), seja pela tradição bélica daquele país que faz com que qualquer cidadão saiba bem o que é comunismo, golpe de estado, Tribunal de Haia (foro internacional sobre crimes políticos) ou cédula de um bilhão - que só dava para comprar um pão e dois ovos quando a OTAN bombardeou a Sérvia em 1999. Apesar de tudo isso, pelo menos em tempos de paz, o visitante pode pensar que está no Brasil ao se deparar com tantas similaridades culturais, como o gosto pela diversão e esportes, a hospitalidade ao estrangeiro, o “fazer tudo na última hora” e a propensão a quebrar regras (o famoso “jeitinho”). Outras semelhanças estão na importância dada à família, ao companheirismo e à vida em grupo.

Infelizmente, em termos turísticos, a Sérvia ainda é um país desconhecido. Segundo dados não-oficiais, existem menos de vinte brasileiros morando no país, e até mesmo os europeus não escolhem a região como destino turístico. Isso se dá, em parte, pelo preconceito causado pelas notícias sobre os conflitos políticos na região, ou até mesmo pelo pouco investimento do governo local para atrair turistas. Quem perde é quem deixa de visitá-lo, pois é um país que tem centenas de anos de intensa história, possui belas paisagens naturais com montanhas, fontes de águas medicinais, rios, lagos e cavernas. Para completar, existem dezenas de mosteiros ortodoxos que remontam ao período bizantino e uma vida noturna que é considerada uma das melhores da Europa, recheada de Kafanas (espécie de tavernas), os tradicionais cafés e boates que pulsam ao som do melhor da música eletrônica internacional.

Assim como na Sérvia, a população negra em outros países da ex-Iugoslávia é quase zero. Esse dado já foi diferente, pois quando a Iugoslávia era umas das principais potências no mundo, disputando com a ex-URSS e EUA a hegemonia político-militar, recebia muitos estudantes africanos. Hoje é mais fácil encontrar marcianos por lá. Como estrangeiro e "estranho", pude constatar isso. Talvez por não ter negros residentes, os sérvios não dão demonstrações públicas de racismo ou discriminação como em países da Europa Ocidental. Em seu lugar, há muita curiosidade  e, claro, muitos estereótipos em relação a futebol e carnaval.  Já me confundiram com jogador de futebol, DJ, mas nunca com advogado ou cientista. Coisas do preconceito global contra os afrodescendentes.


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