|
|
|
|
|
crônica O jardim dos Garotinhos Homenagem eleitoreira Texto e foto: Romildo Guerrante*
O jardim em que passei boa parte de minha infância, na cidade de São Fidélis, norte-fluminense, não merecia a “homenagem” que o prefeito resolveu fazer, plantando ali, no colo do Getúlio Vargas suicida que dera nome à praça em 1954, uma estátua de dois aventureiros que, à revelia de tudo, governaram o Estado do Rio por oito anos. O pretexto era até simpático: naquele ponto o Garotinho, em desastrada tentativa de reconciliação com sua então namorada, Rosinha Matheus, arrebentou-se no chão juntamente com o cavalo que desajeitadamente conduzia para impressionar aquela que poderia escapar-lhe numa briga boba. Costela quebrada, recebeu a visita da amada no hospital, e as pazes foram feitas. Valendo-se da simpatia da população da cidade pelas figuras que fizeram sua vida política na vizinha Campos – os do interior vão refugar sempre os candidatos da cidade grande -, o prefeito e correligionário político Davi Loureiro encomendou a estátua a um artista desconhecido. Questionado sobre o custo disso para uma cidade pobre, disse na época que uma associação de moradores de um bairro proletário iria arcar com tudo. A estátua, ressalte-se a bem da verdade, não faz jus nem ao Garotinho nem à mulher dele. Estão muito feios, foram mal retratados, o artista não conseguiu captar os belos traços árabes da ex-governadora, embora tenha afinado generosamente a silhueta de seu marido. Sete câmeras de vigilância e dois guardas municipais foram destacados para tomar conta da estátua, que passou a receber visitas guiadas de alunos dos cursos fundamentais, acompanhados de suas professoras. E ali, confundindo estátua de gente viva com imagens de santos, as crianças ficavam bons momentos venerando - e às vezes beijando - as figuras dos dois líderes. Ia tudo muito bem até que o Ministério Público, apoiado em lei que proíbe homenagens desse tipo a personagens vivos, obteve na Justiça o direito de retirar a estátua. Pois, entre a decisão da Justiça e a operação de retirada, menos de um mês, a prefeitura cuidou de plantar no local um pedestal de granito em cuja parte superior, dizem uns, será cravada uma bíblia em bronze; segundo outros, uma placa em bronze para falar alguma coisa que não ofenda a lei, mas que mantenha a intenção da homenagem original aos líderes evangélicos. Um estranho monólito de 3m de altura, que sugere esfinges enigmáticas do antigo Egito, embora sem a aura dessas criações milenares. E a estátua? Vai para a siderurgia? Negativo. Dizem que está muito bem guardada e que, na hora certa, será instalada no terreno que a prefeitura doou à tal associação de moradores para construção de sua sede. Lá, a salvo da sanha dos que apreciam o respeito às leis, poderá ser admirada em toda a sua feiúra pelos que consideram esse desmonte uma injustiça com o casal. *Jornalista. E-mail: romildo.guerrante@gmail.com |