Edição 117 - Aracaju, 07 de setembro a 05 de outubro de 2008
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  história
1968 é uma festa
Personagens comemoram 40 anos depois

Por Romildo Guerrante*
Fotos Jorge Nunes

A grande imprensa carioca ignorou a comemoração dos 40 anos de 1968, o ano da utopia no poder. Ninguém falou da festa que juntou num sábado de temperatura amena de inverno mais de mil pessoas – metade do previsto – no belo galpão da Ação da Cidadania, na Gamboa.

Não foi só a falta de divulgação que fez mingüar a freqüência, embora não tenha esfriado o ânimo. Os últimos sons desapareceram às quatro da manhã porque os músicos tinham contrato. A Lei Seca, que está fazendo estragos na boemia carioca, pode ter protagonizado também o seu papel, da mesma forma que o medo generalizado da noite na cidade cada vez mais violenta.

O velho armazém que serviu de cenário à festa é a mais antiga construção dessa natureza naquela área. Em estilo inglês, de tijolinhos aparentes, brotou ali em 1871, morrendo de inanição quando os contêineres passaram a transportar a carga porta-a-porta, matando a logística dos trapiches. Recuperado com esmero há seis anos, hoje é um dos maiores centros de formação educacional para comunidades carentes.

No dia da festa, a iluminação externa destacava a beleza da fachada. À porta, o poeta Jorge Salomão, agitador cultural e um dos organizadores do evento, juntamente com a jornalista Diana Aragão, recebia os convidados com a alegria de sempre.

Como apresentação a quem chegava, nenhum discurso, nada de palavrórios. A evocação de 1968 vinha dos sons e das imagens de uma época que permeavam todos os cantos do velho armazém. Imagens que surgiam logo no saguão de entrada, uma espécie de túnel revestido com uma colagem de fotos marcantes da década de 60, do teto ao chão, boa parte de autoria de Evandro Teixeira.

Foi Evandro (à esquerda, em foto de Dôra Silveira) que, com seus cliques de Leica, montou um livro lançado este ano em que revela a história de alguns dos muitos anônimos flagrados por ele no grande comício da Cinelândia, que antecedeu a famosa Passeata dos 100 mil, no Rio de Janeiro, junho de 1968. Ano em que a utopia pretendeu ter tomado o poder, varrendo o mundo em convulsões que iam do flower power americano à contestação das barricadas de Paris, no episódio que De Gaulle chamou pejorativamente de chienlit. O texto do folder de divulgação, que traz na capa uma colagem de fotos caleidoscópicas, ressalta que 1968, mais que uma data, “é um símbolo de liberdade, uma virada da História e um desejo de transformação”.

Passada a portaria e as boas-vindas, os festeiros entravam, curiosos, num verdadeiro túnel do tempo. Ao contrário dos condenados ao Inferno de Dante, na porta de entrada resgatava-se a esperança. Os sons que ali chegavam traziam a memória de uma época tão visionária quanto transformadora. Para entrar, contornava-se um grupo de atores em pleno exercício de uma performance tão difícil de interpretar quanto um filme de Godard nos anos 60. Era o primeiro impacto da festa para quem chegava na boca do túnel.

Nos 14 mil metros quadrados do imenso armazém de 168m de comprimento, com um mezanino construído em arcadas de rara beleza, iluminadas com luz indireta, três ambientes dividiam a atenção, como se fosse um circo de três picadeiros, daqueles de deixar crianças tontas com tantas ações simultâneas.

Diante de cada palco circulavam tribos diferentes, que se mesclavam em alguns momentos aqui e ali. Tribos de jornalistas, cineastas, atores, compositores, escritores, sambistas, modelos, estudantes, curiosos – e também políticos, afinal, estamos à véspera das eleições. Um vasto espectro, atraído pela divulgação boca-a-boca, predominantemente de cabelos brancos, à procura das emoções de 40 anos atrás.

No palco principal, a eclética banda Rio Babilônia fazia um passeio pela Jovem Guarda, que animava as jovens tardes de domingo na década de 60.

Sua apresentação foi precedida de um pout-pourri para esquentar a memória dos órfãos das passeatas. Tinha de tudo, de Chico Buarque a Milton Nascimento, passando pelos Novos Baianos e até mesmo Secos e Molhados.

Num telão, rolavam vídeos inaudíveis com depoimentos de quem viveu a época. Nos fundos, uma roda de samba, que começou pouco depois, buscava as lembranças das promovidas na década de 60 no Teatro Opinião, foco em Copacabana da arte engajada na luta contra a ditadura. Samba de boa qualidade, palco com alguns excelentes anônimos, além dos mais que louvados Nelson Sargento e Luiz Carlos da Vila. 

No mezanino, sem que os sons de uns perturbassem os sons dos outros -  mágica assegurada em parte pelo pé direito de mais de 15 metros -, entrou pouco depois a Orquestra Republicana, um aglomerado de excelentes músicos jovens que se revezam em vários grupos para tocar predominantemente na Lapa. 

À medida que a noite avançava, iam chegando alguns de seus personagens, muitos vindos de outros compromissos, como o ministro Carlos Minc, que saíra do estúdio de gravação do programa eleitoral. Mais adiante, desfilava a ex-chacrete Rita Cadillac. Em frente à banda, a cineasta Lucia Murat trocava figurinhas com a jornalista Regina Zappa, co-autora, com o também jornalista Ernesto Soto, de “1968 – Eles só queriam mudar o mundo”, história completa e ilustrada de um ano que não terminou, na expressão cunhada pelo jornalista e escritor Zuenir Ventura, uma das ausências da festa. Pois 1968, confirmando Zuenir, continuava ali na memória dos que o viveram e foram reverenciá-lo. 

Numa mesa grande, os descendentes do grande compositor Donga, tendo na cabeceira a viúva, Vó Maria, que hoje, aos 92 anos, ainda dá muitas canjas nos espetáculos de samba dos muitos amigos que vão fazendo sobreviver os sambas de uma época inesquecível.  

Quem foi pra ver gente famosa não viu tantas assim, mas se divertiu muito. Alegria natural ou tocada a poder de caipivodca e cerveja, lotando os balcões dos quiosques. No mais concorrido deles, Luizinho se esfalfava para atender a fila que parecia interminável. Uma fila que tinha muitos de seus clientes fiéis dos sábados, quando vende muita caipirinha aos que batem ponto no Choro na Feira, em Laranjeiras, à 1h da tarde, quando se esvaziam as barracas de legumes e a freguesia se transporta para a diversão.

Agora parou uma orquestra; daí a pouco parou outra, como se obedecessem ambas a um comando remoto implacável. Dá ainda pra ouvir o ruído do samba, lá no fundo do galpão. Correm para lá os que não querem que a noite morra. Mas o samba também vai chegando ao fim, e os grupos agora vão saindo pouco a pouco, meio que tocados a contragosto, querendo mais, querendo ver o dia clarear com o samba rompendo a noite.

Quatro da manhã. Hora de ir embora. Dois dos palcos já tinham sido apagados. O samba, no “picadeiro” que atraiu mais gente, fechou a noite. Saiu do ar, além dos sons e das imagens, agora até mesmo o aroma de patchuli nas lembranças da década em que o mundo mudou. Todos foram pra casa com a certeza de que a utopia continua no ar.            

*Jornalista. E-mail: romildo.guerrante@gmail.com