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Edição 121 - Aracaju, 11 de janeiro a 15 de fevereiro de 2009
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  meio ambiente
Um paraíso condenado
O Ninhal das Garças, uma das ilhas situadas num trecho do Rio Paraíba do Sul, pode desaparecer por causa da construção de duas hidrelétricas

Por Romildo Guerrante*
Fotos Rafael Wallace

Garças em bando voando no fim da tarde rumo aos seus dormitórios. Água correndo meio serena, meio encachoeirada, rumo ao oceano. Ilhas carregadas de frutos, pesca artesanal, mata densa caindo sobre as águas, alimentando o rio com sementes, flores e frutos, alimentos naturais da fauna rica de uma região privilegiada. Bonito cenário, pois não? É, mas condenado à morte por duas hidrelétricas que, se sobreviverem à reação obstinada das ONGs ambientalistas, vão afogar quase 700 ilhas em um trecho de 200 km do Rio Paraíba do Sul, deixando desempregados 600 pescadores. No meio desse cenário, vai desaparecer o Ninhal das Garças, onde todo dia milhares dessas aves se alimentam, se reproduzem, fazem trocas com o meio ambiente e fogem dos predadores aninhando-se na copa mais alta das árvores frondosas. Sem falar na composição de natureza de que fazem parte desde que o mundo é mundo.

Somem também da paisagem do mais vasto arquipélago do Paraíba do Sul, além do Ninhal das Garças, os dourados, as piabanhas, os caximbaus, também chamados de cascudos, e todos os crustáceos, principalmente as lagostas fluviais do Paraíba do Sul, exemplares únicos de uma biota escolhida para desaparecer no holocausto das usinas hidrelétricas de Barra do Pomba, de 80 megawats – cujo barramento previsto passa exatamente sobre a área de concentração das garças – e Cambuci, para 50 megawats, 20 quilômetros rio abaixo. 

A partir daí, o Paraíba do Sul, que já tinha cinco barramentos e um em construção, será transformado em uma seqüência de sistemas lacustres, submetidos a outros regimes hídricos. E sua fauna estará condenada, garante o biólogo Guilherme de Souza, presidente da mais ativa ONG da região, o Projeto Piabanha, que lidera uma campanha candente, com apoio de outra entidade ambientalista, a SOS Mata Atlântica, contra os projetos. “As barragens cortam a comunicação entre as diversas espécies de peixes, enfraquecendo toda a cadeia biológica da ictiofauna”, explica Guilherme. Em outras palavras, os diferentes peixes que vão habitar cada sistema lacustre criado pelas comportas serão empobrecidos geneticamente. 

O biólogo, que passou mais de 15 anos fazendo o repeixamento do Paraíba para permitir a volta da piabanha, um peixe apreciado na região e quase desaparecido há décadas, já experimentou dois reveses sérios em sua campanha: o derramamento de toneladas de soda cáustica de um depósito de rejeitos da Cataguazes, no afluente Pomba, em Minas Gerais, e agora recentemente, com o despejo acidental do inseticida Endosulfan no afluente Pirapetinga, também em Minas. 

Na audiência pública pedida pelo órgão estadual do meio ambiente, os donos dos projetos – a Santa Gisele – admitiram os danos ambientais irreversíveis e prometeram ações compensatórias. Acenaram também com o aumento de oferta da energia e a revitalização econômica da região. Propostas alternativas de termelétricas morreram no nascedouro: queimar gás de Macaé, cuja tubulação passa a menos de 100km dali, compromete os esforços de limpeza da atmosfera terrestre. Plantar árvores da Mata Atlântica nos morros pelados para compensar a emissão de gases? Não dá, a região quase toda já se comprometeu com a Aracruz Celulose para o plantio de eucaliptos. Os donos das terras vão cruzar os braços, desaparece a minúscula pecuária e somem também as lavouras de subsistência. O aluguel das terras é mais interessante. 

Winer Vieira Alves, o Nino, tem 37 anos. Nasceu na Ilha Capixete, no município de Itaocara, onde até hoje vive com a mulher e o filho, a menos de 1km da área de concentração das garças. Pescador desde menino, teve oferta compensatória da Santa Gisele de um terreno à margem da grande represa que irá se formar. “Não é a mesma coisa. Se essa ilha acabar, é como acabar com minha vida”, lamenta Nino, enquanto abre uma cerveja para os frequentadores do botequim improvisado da ilha, onde se reúnem todos os amigos e conhecidos, alguns deles pescadores, para discutir ao fim do dia os assuntos de uma pauta que tem sido monocórdia nos últimos tempos, repisando o tema das barragens e das mudanças na vida dos ribeirinhos. O bar seria o embrião de uma estrutura de turismo modesta, projeto que começa a fazer água. Literalmente. 

Nino, que é uma espécie de faz-tudo, construiu o barco que o leva da ilha ao continente e também às pescarias na madrugada, capazes de render de 80 a 100 quilos de peixes por semana. Se a represa for construída, os peixes vão sumir, garante Nino. “Aqui tem muito peixe porque tem corredeira nas cabeceiras e muita vegetação. O peixe aqui come o que cai dessas árvores, as folhas, as sementes, os frutos. Se cobrir a vegetação, acabam os peixes”, lamenta-se. A renda da pesca na região, Nino garante, é superior aos royalties que o empreendedor das usinas vai pagar à prefeitura. 

Mas pior que inundar tudo é gerar eutrofização, processo de proliferação de microorganismos nos lagos das barragens. Esses micro-organismos, como explica o biólogo Guilherme de Souza, alimentam algas nocivas que consomem oxigênio da água. E as escadas de peixes que prometeram para permitir que os peixes de piracema – que sobem o rio para desovar – consigam chegar aos pontos de desova? Guilherme balança a cabeça desolado. “Aqui perto, em Além Paraíba, fizeram escada pra peixe. Só as espécies exóticas conseguem subir”, lamenta-se. Espécies exóticas são, entre outras, os bagres africanos, praga que apareceu no Paraíba ninguém sabe vinda de onde, e já vem fazendo um trabalho prévio de devastação na fauna local antes do hecatombe final do represamento. 

A fauna, aliás, já sofreu duros golpes. Boa parte da população ribeirinha desconhecia a existência de lontras no Paraíba. Elas apareceram mortas, boiando, no derrame de soda cáustica da Cataguazes. As remanescentes devem ter sido liquidadas pelos organoclorados da Servatis despejados em novembro do ano passado. Algumas cobras, inimigas das garças e dos preás, ainda são vistas por ali. Estão todos esses bichos que sobreviveram até agora – inclusive os homens – aguardando o desfecho das ações judiciais para entregar a alma a Deus. Ou para comemorar em grande estilo.

*Jornalista. E-mail: romildo.guerrante@gmail.com