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reportagem O naufrágio do Bateau Mouche Vinte anos depois, sobrevivente conta como tudo aconteceu Texto e foto: Romildo Guerrante* (Continuação de 3) As irmãs se encontraram no cais. Pura alegria em meio à tristeza geral. Todos de branco, mas em frangalhos e morrendo de frio. Nos salões do Sol & Mar rolava a animada festa de fim de ano. Caminharam pra lá, mas as portas foram fechadas na cara deles. Um segurança disse rispidamente: “Não pode atrapalhar o réveillon!” Mas os garçons perceberam o que estava acontecendo, arrancaram as toalhas das mesas e correram para envolver os náufragos, que invadiram os salões e acabaram com a festa. Diante da balbúrdia, quem estava na festa percebeu enfim o que tinha acontecido. E saiu ao encontro no cais. Uma das primeiras pessoas a abraçar Elane foi sua ginecologista, Glauce Albuquerque, que largou a comemoração para ajudar de alguma forma. E ficou intrigada ao ver as duas irmãs em frangalhos. Pensou: gente, como é que essas moças que se vestem sempre tão elegantemente estão desse jeito em pleno réveillon? Elane ri. Único riso até este momento da narrativa. Chega uma equipe da TV Manchete. Elane diz ao repórter que quer falar, que é jornalista e que viu tudo acontecer. O repórter desdenha. “Você não me interessa”. Chegam logo depois repórteres e fotógrafos dos jornais O Dia e O Globo. Elas caminham em busca de um telefone. Não havia a facilidade dos celulares. Havia só um telefone público, e uma imensa fila diante dele. Conseguiram avisar os pais e foram ao estacionamento pegar o Uno. “Cadê o tíquete?”, cobrou o guardador. Elane tinha apenas restos do que fora uma roupa linda sobre o corpo e o colar de havaiana que teimou em sobreviver a tudo. Estava descalça, como podiam imaginar que ainda tivesse guardado um maldito tíquete? Ela queria a chave do Uno pra ir embora dali o mais rápido possível. “Sem o tíquete eu não posso entregar a chave, minha senhora”, insistiu o guardador. Foi quando ela ouviu um estrondo. Um dos sobreviventes, que também queria suas chaves, arrebentou o armário a socos. Com as chaves do carro, só faltavam agora as chaves de casa, perdidas nas bolsas naufragadas. Decidiram que iriam para a casa da Heloísa, porque o apartamento era mais moderno e a porta mais frágil, mais fácil de arrombar. O apartamento antigo de Elane, onde ela já não vive mais, ficava na Conselheiro Lafaiete, em Copacabana, na divisa com Ipanema, e sua porta era uma muralha da década de 40. Arrombaram a casa da Heloísa, telefonaram para os amigos. Elane se esqueceu de alguns, não havia como se lembrar de todos. Travaram a porta com uma cadeira, tiraram o telefone do gancho e foram dormir. Amanhecia. Estavam exaustas. O jornal O Globo já estava nas ruas quando o dia clareou. O Jornal do Brasil não iria circular no dia 1º de janeiro, decisão tomada no ano anterior. Elane poderia dormir tranquila. Mas que nada! A editora de Economia, Miriam Leitão, procurava sua repórter Elane desesperadamente. No telefone dela ninguém atendia: no da irmã, sinal permanente de ocupado. Tim Lopes, colega de redação que viria a ser assassinado por traficantes do Morro do Cruzeiro há seis anos, disse que sabia onde estava Elane e que iria encontrá-la. E sabia mesmo, pois sua mulher morava em frente à casa de Heloísa. Pegou um carro e foi lá pedir a Elane que escrevesse um depoimento na primeira pessoa. Elane não tinha a menor condição para isso. Tim ouviu seu relato e escreveu a matéria. Desde então, Elane evitou o assunto. Há dois anos, um juiz federal, como parte dos processos que ainda correm, pediu uma perícia para verificar se ela tinha sofrido algum dano psicológico. “Procurar dano psicológico em mim a esta altura? Eu perdi o sono durante muitos anos e ganhei pavor de barco”. Tanto pavor que, alguns anos à frente, ao embarcar em Mangaratiba na lancha que leva à Ilha Grande, Elane foi procurar um colete salva-vidas. Risada geral no barco. Mas ela insistiu. E foi a única passageira a cruzar o canal da Ilha Grande e desembarcar na Praia do Abraão devidamente paramentada com o colete. O exemplo do norueguês do Bateau está na memória dela, mas ninguém sabe onde anda o norueguês. Nem mesmo se era norueguês. Elane chegou a ser procurada poucos dias após o acidente pelo genro de uma das senhoras que ela conheceu no barco. Ele queria a descrição dela, queria confirmar se era ela a pessoa com quem Elane havia conversado. Era a sogra dele. O pescoço dela foi partido ao ser jogada contra a amurada do barco no mesmo balanço que lançou Elane na água. O rapaz contou que a sogra, pouco antes de embarcar, dera à filha uma pulseirinha que costumava usar sempre. A filha, com o adereço no pulso, foi passar o Ano Novo na Região dos Lagos. Na passagem do ano, no meio de uma festa, a pulseirinha deu um estalo e arrebentou. Ela pegou a pulseira arrebentada e, naquele momento, teve um mau presságio. Passou a noite em claro, até vir a saber, de manhã, que a mãe havia morrido no Bateau Mouche. *Jornalista. E-mail: romildo.guerrante@gmail.com |