Edição 140 - Aracaju, 08 de agosto a 05 de setembro de 2010
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  ficção
Os nutricionistas
As dietas e falsas dietas de um casal

Por Romildo Guerrante*
Foto: Divulgação

No princípio era a verba, muito curta. Depois a verba melhorou. Aí é que o bicho pegou. O rapaz era esbelto, cheio de cuidados, ficava horas na frente do espelho, se olhava de frente, de lado. Olhava até o tamanho da bunda. Aliás, não sei pra que ficar olhando a bunda, ele nem usava ela direito. Direito assim tipo tempo integral, múltiplas funções. É nesse sentido.  

O rapaz tinha uma bela estampa,  não tinha nada de gordo. Mas entrou nessa mania de ficar fazendo conta de caloria, não podia comer carboidrato, parou até de jantar. Falou que jantar de noite e dormir dava pesadelo.  

Acho que o que atrapalhou ele um pouco foi essa coisa dos segredos da nutrição. Ficou lendo essas revistas de mulher que só come rúcula com limão, aí se interessou por esse negócio de alimentação, começou a “não como isso, não como aquilo”. Afrescalhou. Ficava tirando casquinha das coisas pra beliscar, em vez de botar logo no prato e mandar ver.  

De preocupação em preocupação acabou indo estudar Nutrição. Aí a coisa piorou muito. Batata frita com chope, nem pensar. Era só um tal de ispraite daite, peixe cozido sem gosto de porra nenhuma. A gente até tentou convencer ele a comer um macarrãozinho de vez em quando, mas que nada! Ele só queria aquelas porcarias. Falei pra ele: isso não dá sangue! Tem que comer feijão com arroz, cara. Você foi acostumado desde pequenininho a comer isso. Agora começou com essas frescuras. Domingo a gente mandava um leitãozinho à pururuca e ele ficava lá com duas folhinhas de alface, um canudinho de aspargo, aquele peito de frango na grelha que tem gosto de papelão. Acho que até papelão bem temperado é melhor que peito de frango, desses franguinhos branquicelas de granja. Frango tem que ciscar. Agora, não! Botam o frango dentro de uma gaiolinha pro bicho nem andar. Aí ele vai inchando de tanto farelo com hormônio e quando tá com pouco mais de um mês, catapum! E lá vai o bichinho até pro Iraque todo picadinho, arrumadinho numa caixinha de isopor. Isso é comida de gente? 

Mas a coisa não durou muito. Ele começou a namorar uma colega de faculdade que era assim do tipo cheinha. Tinha as mesmas manias dele, só comia folhinha verde. Mas eu acho que ela invadia a geladeira de madrugada. Até porque aquelas folhinhas não iam sustentar o par de ancas que ela tinha. A moça não era gorda, não, mas era um tipo assim brasileiro, que não dá pra ser modelo. Modelo brasileira tem que ser lá do Sul, porque é tudo alemão comprido, ou então do Nordeste, onde o pessoal não tem o que comer, aí fica magro mais por força da necessidade. Eu tô até preocupado com esse programa Fome Zero, porque se começar a dar comida pra esse pessoal e eles começarem a engordar, vai ser uma merda. Daqui a pouco tem que começar outro programa, de controle da obesidade, se não aqueles hospitais lá do Piauí vão ter que se adaptar pra fazer lipoaspiração. 

Mas vou voltar aqui na história que eu tava contando porque eu fiquei até meio perdido com essa de engordar nordestino. Lá no Nordeste o cara só engorda se for deputado. 

O rapaz acabou casando com a moça. E foi aí que eu acho que ele descobriu que ela comia umas coisas quando tinha gente olhando e quando tava sozinha ela comia outras coisas muito diferentes. Por exemplo: logo nos primeiros dias do casamento ela fez uma torta daquelas de chocolate que parecia até cabelo black power. E comia de se lambuzar. Ele acabou embarcando no hábito de comer torta quase toda noite, assim meio na cumplicidade com ela, pra não desagradar, no começo. Mas depois ele tomou gosto pela coisa, eles começaram a fazer jantarzinho pros amigos. E lá vinha a torta de chocolate no final. Ultimamente eles estavam tomando até licor. Pelo menos eu vi eles tomando licor e não me pareceu que tinha alguém com cara de culpa, nada disso. Tomavam na boa. 

Uns tempos depois, quando aquele fogo inicial do casamento deu uma refrescada, começaram a sair com os amigos pelas noites. E aí foi um tal de tomar caipirosca de lima da pérsia que não acabou mais. Eu tenho que ser honesto e admitir que chope eles não tomavam não! Nunca tomaram chope, pelo menos que eu saiba. 

Em pouco tempo a gente começou a notar que o rapaz tava ficando cada vez mais forte, isso apesar de estar trabalhando pra cacete, num corre-corre danado, e morando no subúrbio. E a moça foi ficando cada vez mais cadeiruda, o bumbum foi crescendo. A mãe dele falou que isso era normal, que quando a moça tem tendência pra matronar, não tem jeito. Pode fazer até jejum prolongado, porque é o casamento que engorda e faz as ancas ficarem daquele jeito.

E quanto mais cresciam as ancas da moça, mais engrossava a cintura do rapaz. Devo confessar que ele era forte pra cacete, um touro. Mas a barriguinha foi pouco a pouco aparecendo, ele andou perdendo roupa, quando a coisa incomodou ele propôs a ela tirar uns 15 dias pra fazer um SPA.  

Era uma pousada interessante, com uma cachoeira nos fundos, e nos primeiros dias eles até orientaram a cozinheira pra diminuir a carne vermelha, que era muito tóxica, essas coisas. 

Mas foi só dar uma semana lá que eles descobriram que tinha um esquema de biscoito clandestino que rolava de madrugada. O biscoito era uma merda e o cara que vendia era casado com a cozinheira. Mas de madrugada rolava a maior farra de biscoito com Coca-Cola. 

Só não podia dar gargalhada, pra não acordar acordar a gerente. Aí podia melar o esquema. E olha que segurar uma risada comendo biscoito é foda!

Mas o biscoito e o refrigerante só ajudavam a segurar um pouco a ansiedade, porque eles perderam uns quilinhos. Também, todo dia tinha caminhada no mato, morro acima, e aí não tem barriga que aguente. 

Semana passada eu fui jantar lá na casa deles. Tinham chegado do SPA, estavam corados os dois, alegres, e só um pouquinho mais magros. O jantar foi estrogonofe de camarão com arroz branco e uma espécie de farofa esquisita, meio amarela. Acho que era dendê, mas não devia ser, não, porque não combinava muito com estrogonofe.

A minha surpresa foi no final. Serviram café com biscoito antes do licor. Tomei o café e comi o biscoito, porque eu não tenho essas frescuras de não come isso, não come aquilo. Achei que os dois estavam muito alegres, rindo muito. Me contaram que foram convidados pra trabalhar na chefia da cozinha de um restaurante nordestino e que estavam pensando seriamente em aceitar o convite. 

Não comentei nada, porque eu sou discreto, mas se eles forem pra lá, eu pelo menos vou deixar de freqüentar o lugar. Eu gosto muito deles, mas tá arriscado eles mudarem o cardápio todo. É possível até que eles inventem novos pratos, tipo paçoca de carne de sol desidratada com rúcula, fécula de aipim torrada no forno, por aí.

Quando eu já ia embora ele me disse que pretende mudar a cozinha do restaurante.  

Que pensa até em trazer a cozinheira do SPA. 

-E o marido dela, aquele dos biscoitos? – perguntei.

-Ah, ele vem junto. Os dois são inseparáveis!

*Jornalista carioca, editor da Revista Bio. E-mail: romildo.guerrante@gmail.com