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entrevista Rosa Montero A literatura como imaginação
Por Paulo Lima Mas Rosa Montero trilhou um caminho diferente e desnorteante: no livro, misturou elementos aparentemente autobiográficos com informações biográficas de escritores, de tal modo que fica impossível para o leitor discernir onde termina a fantasia e onde começa a realidade. Nada mais típico, contudo, dessa romancista e jornalista madrilenha. Essa indistinção é um recurso recorrente em sua obra. A imaginação, esta louca da casa (como a chamava Santa Tereza de Jesus), é o que permite a Rosa Montero romper o limite tênue que separa literatura e vida, nutrindo sua narrativa repleta de surpresas e encantamento. “Para escrever você precisa somente de imaginação”, acredita ela. Com a louca da casa à solta, Rosa Montero inventa personagens, expõe escritores - revelando seus vícios e virtudes -, e nos fala dos seus métodos de trabalho e de suas paixões. Mas como saber em quais pontos do livro podemos confiar? A própria Rosa Montero responde: “O livro é um brinquedo com o qual podemos jogar, os leitores e eu, um jogo maravilhoso de criação”. A força da imaginação, porém, chegou a abandonar a escritora num momento de sua vida. Ela revela que mergulhou numa grande crise criativa após a publicação do seu terceiro romance, Te trataré como a una reina, de 1983, ainda inédito no Brasil, e chegou a abandonar um romance que começara a escrever. “Foi o pior período da minha vida”. Jornalista premiada, Rosa Montero escreve desde 1980 para o jornal espanhol El País. De sua autoria a Ediouro já publicou também os livros A filha do canibal, História do rei transparente e Paixões. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ela fala do livro A louca da casa e outros assuntos. *** BN - Enquanto você escrevia A louca da casa, descobriu que estava escrevendo não apenas sobre literatura, mas também sobre imaginação, loucura e paixão amorosa. Este é um “tripé” indispensável para um escritor criar um bom romance, ou é sua fórmula pessoal? Rosa Montero – Não, para escrever você precisa somente de imaginação e, acima de tudo, você precisa ter a necessidade de escrever. Você só escreve porque, sem isso, você morreria. BN - Você revela em seu livro que começou a escrever aos cinco anos de idade, a princípio “contos horríveis sobre ratos que falam”. Você sempre teve certeza de que queria ser uma escritora? R.M. – É comum que romancistas comecem a escrever ainda na infância; é assim que a maioria inicia. Sim, eu sabia que escreveria durante toda a minha vida, não consigo me imaginar vivendo de outra forma. Mas eu não pensava exatamente em “me tornar escritora”, no sentido de uma carreira. Sempre acreditei que escreveria durante toda a minha vida e, eventualmente, publicaria, mas sempre soube que trabalharia em algo mais para ganhar a vida. No meu caso, como jornalista. BN – Um capítulo do seu livro trata de como surgem em você as idéias para um romance: elas podem nascer de um simples olhar sobre alguém, ou até mesmo de uma frase. E sobre o processo de escrever um romance? É algo que ocupa sua mente todo o tempo? R.M. – Normalmente, passo cerca de três anos escrevendo um romance. Sim, nesse período, metade do meu tempo e da minha mente permanecem na vida real, e a outra metade (ou mais) no mundo do romance. BN – Você critica os escritores que utilizam a literatura para fins políticos, ou para defender uma causa. Este momento tão assustador em que vivemos, com tantas guerras, terrorismo etc., não é uma tentação para que escritores adotem posições políticas? R.M. – Como cidadão, você deveria fazer política e se engajar nela no seu dia-a-dia. Contudo, o sentido de escrever romances é a busca de um sentido para a vida, e você não pode começar uma jornada de conhecimento já tendo as respostas (respostas prontas) em sua mente. BN – A perda do poder narrativo é um problema que atinge muitos escritores, e no seu livro você mostra alguns exemplos, como o de Juan Rulfo, que parou de escrever depois de produzir duas obras-primas, Pedro Páramo e Chão em chamas. Já lhe ocorreu também de perder essa força ou ficar sem inspiração? R.M. – Depois do meu terceiro romance, Te trataré como a una reina [de 1983, inédito no Brasil], perdi meu poder narrativo e na realidade fiquei totalmente perdida... Joguei fora um romance que estava escrevendo, e a idéia morreu para sempre. Parei de escrever durante quase três anos. Foi horrível, nem mesmo uma única idéia ou uma simples imaginação passou pela minha cabeça. Eventualmente, pequenas palavras e imagens começaram a cruzar a minha mente, e então tudo voltou de novo. Foi um dos piores períodos da minha vida. BN - Sei que você está cansada de responder algumas perguntas, e isso inclui se você prefere ser jornalista ou escritora (e você chegou a escrever a respeito, no seu livro). Tentarei perguntar diferente: alguma vez, em sua longa carreira jornalística, você sentiu que uma história ficaria melhor se tratada ficcionalmente, e não como jornalismo? R.M. – Não! Jornalismo e ficção são coisas diferentes. Eles podem falar da mesma coisa, do mesmo assunto, mas de perspectivas totalmente diferentes. Portanto, você jamais terá esse sentimento. Tudo pode ser contado ou num nível jornalístico, ou num nível ficcional. BN - Li recentemente no El Pais uma reportagem sobre uma nova onda na Espanha: os escritores estão reescrevendo os clássicos e os adaptando ao nosso tempo, de forma a alcançar um público maior, especialmente os leitores mais jovens. Qual a sua opinião a esse respeito? R.M. – Não me sinto muito tentada nessa direção, nem como leitora, nem como escritora. Creio que isso é, sobretudo, uma boa idéia comercial. BN - Em seu livro, você trata de uma idéia interessante: para continuar escrevendo, escritores precisam manter viva sua criança interior, e você aplica essa idéia aos leitores adultos. Por terem perdido a criança interior, eles lêem hoje mais ensaios e biografias do que romance. Isso representa uma ameaça ao romance? R.M. – Não! O romance está em muito boa forma no mundo todo. Não acho que a maioria dos leitores mudou para o ensaio e etc., como você afirma. Os números de romances vendidos no mundo não mostram isso. BN – Em seu livro, você descreve seu encontro amoroso com M, um ator americano. O curioso é que você conta a mesma história três vezes, mas com finais diferentes. Qual foi o objetivo? Provar que toda biografia é uma ficção, segundo a reflexão de Roland Barthes, por você citado no livro? R.M. – Não, não. As três histórias diferentes-e-iguais sobre M são uma pista para a compreensão de todo o livro, é um truque que mostra ao leitor que ele não está lendo um livro biográfico, como ele ou ela poderia ter imaginado. Quando o leitor chega à segunda história de M, ele diz: “Uau, essa mulher está mentindo para mim. Se ela está mentindo neste ponto, estará mentindo em outros pontos?” A resposta é sim. Meu livro é um artefato ficcional. Por exemplo, eu não tenho nenhuma irmã [Martina, personagem do livro]. O livro é um brinquedo com o qual podemos jogar, os leitores e eu, um jogo maravilhoso de criação. E no final o que ele diz é que a imaginação é uma parte da vida real, e que naquilo que chamamos de vida real existe uma porção muito grande de imaginação. BN – Não posso deixar de perguntar sua opinião sobre o Kindle, o leitor de livros digitais recém-lançado pela Amazon Books. Você acha que ele será uma ameaça aos livros tradicionais? R.M. – Vou comprá-lo para usar nas minhas viagens: é muito mais fácil do que carregar livros pesados de papel. Não, não acho que ele seja uma ameaça, é apenas algo mais que você poderá usar eventualmente. BN – Em seu livro você afirma ter uma “memória catastrófica”. Isso não é prejudicial para a literatura, conforme você conta. Mas, e no jornalismo, como você lida com isso? R.M. – Eu sempre tomo notas, refaço a checagem dos fatos e faço gravações. BN - É lugar-comum afirmar que, hoje, as pessoas não têm tempo para ler livros muito grandes, nem narrativas muito longas. Como explicar, porém, o sucessos de livros imensos como Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, ou As benevolentes, de Jonathan Littell? R.M. – Você disse tudo: é um “lugar-comum”, e “lugares-comuns” são coisas tolas que todos repetem mesmo que não façam sentido. BN – Você visitou o Brasil no ano passado. Que impressão teve do país? Você conhece a literatura brasileira? R.M. – Estive no Brasil diversas vezes, adoro o país. Adoro Clarice Lispector, Rubem Fonseca, Nélida Piñón… BN – Para a maioria dos escritores, o ato de escrever vai se tornando cada vez mais difícil à medida que eles vão envelhecendo. E quanto a você? R.M. – Fica mais difícil a cada dia porque exigimos mais de nós mesmos. BN – Você escreveu que quanto mais sábio um escritor, mais distante ele se mantém do seu objeto. Você já atingiu essa sabedoria? R.M. – Eu certamente estou mais próxima dessa sabedoria hoje do que estava há vinte anos.
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