Edição 105 - Aracaju,  02 de setembro a 07 de outubro de 2007
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  Literatura
Luiz Ruffato
O romancista e a história social do Brasil

Por André de Leones*
Foto Divulgação

Luiz Ruffato, mineiro de Cataguases (1961), é um dos mais respeitados e inventivos escritores brasileiros em atividade. Depois do premiado Eles Eram Muitos Cavalos (Boitempo, mas prestes a ser reeditado pela Record), lançou-se à composição de um romance em cinco volumes que dá conta da inexorável desagregação social, humana, sofrida pelo Brasil nos últimos cinqüenta anos.

Por meio de histórias, por assim dizer, carregadas de primeiras pessoas, de pequenas alegrias e de grandes tragédias privadas, familiares, Ruffato acaba chegando às vísceras da História recente do país sem, jamais, soar forçado, didático ou pretensioso. Suas tragédias particulares ecoam uma tragédia maior, coletiva, que é a própria falência de um determinado projeto de país. O Brasil urbano, progressista e industrializado, que se pretendia “desenvolvido”, surge nas entrelinhas com as pernas quebradas, ou se quebrando.

Além disso, ao assumir o ponto de vista dos proletários, o autor não está incorrendo em demagogias ou gratuidades: filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira, Ruffato foi, dentre outras coisas, balconista de armarinho, operário da indústria têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete e vendedor de livros autônomo. Conhece bem o ambiente em que se passa a maior parte de suas histórias (Rodeiro, Cataguases) e as condições dos personagens, até porque ele próprio, num dado momento, também emigrou para São Paulo. Logo, o mundo que povoa suas páginas não é uma idealização grotesca ou mesmo contaminada por partidarismos ou ideologias. Desinteressado de fazer panfletagens, o escritor coloca de pé um painel humano erigido sobre particularidades, nunca generalidades.

Batizado de Inferno Provisório, o romance já teve lançados três volumes, todos pela Record: Mamma, Son Tanto Felice, O Mundo Inimigo e Vista Parcial da Noite (finalista do Jabuti 2007). Ruffato também é um dos autores participantes do projeto Amores Expressos (seu destino foi Lisboa). Por e-mail, e ainda sob o impacto da leitura intensiva dos três primeiros volumes do Inferno Provisório, fiz com Luiz Ruffato a pequena entrevista que se segue.

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Inferno Provisório é um projeto ambicioso. Como surgiu a idéia de construir algo assim?

Luiz Ruffato - Inferno provisório nasce de uma necessidade de refletir sobre uma questão que me incomoda: como chegamos onde estamos? Então, para isso, voltei meus olhos para a formação da sociedade brasileira contemporânea, ou seja, para o projeto de constituição de um país capitalista, urbano e moderno. E o que constato é que a violência, a desagregação social, o caos das cidades são, enfim, demonstrações de que o nosso projeto de nação está condenado ao fracasso, porque, como no poema que abre o projeto, de Jorge de Lima, “já estavam podres no tronco/da árvore de que as tiraram”… Composto de cinco volumes, a idéia é a de que cubram os últimos cinqüenta anos da história política, social e econômica brasileira, vista por meio das transformações da vida proletária.

Você acha que falta esse tipo de ambição na literatura brasileira contemporânea? Que os escritores contemporâneos talvez estejam menos dispostos a arriscar?

L.R. - Penso que temos apenas uma vida para viver. E que por isso devemos nos dedicar com afinco aos nossos projetos mais caros. Eu não vou sobreviver aos meus livros, evidentemente, mas desejaria muito que eles sobrevivessem a mim.

É notável como você consegue criar uma prosa ao mesmo tempo inventiva e inteligível. Isso é uma preocupação para você no momento em que escreve, de, mesmo experimentando, não soar hermético ou “difícil”?

L.R. - Eu não consigo ler livros que não falem da vida. Não suporto livros que esnobam a inteligência do leitor ou que sejam escritos apenas para mostrar pseudo-erudição. E, seria ridículo, eu, querendo dar forma ao um projeto de reflexão sobre a vida social brasileira, intentasse não ser entendido… Ao mesmo tempo, entretanto, sei que o leitor, qualquer leitor, é suficientemente inteligente para ser tratado como um igual. E por isso não rebaixo minha escrita, populisticamente.

Quais os seus autores favoritos? E, destes, quais você acha que influenciaram, de alguma forma, na construção de Inferno Provisório?

L.R. - Não falo de influência. Seria por demais pretensioso da minha parte… Falo de leituras, de diálogos. Há sete autores aos quais recorro sempre: Machado de Assis, Guimarães Rosa, Anton Tchekov, William Faulkner, Luigi Pirandello, Honoré de Balzac e Charles Baudelaire.

O que esperar de sua história de amor para a coleção Amores Expressos?

L.R. - Nada… Não vou escrever uma história de amor…

*Escritor, autor de Hoje está um dia morto. Foi um dos selecionado do projeto Amores Expressos. Entrevista originalmente publicada no blog Última Leitura.