Edição 124 - Aracaju, 26 de abril a 31 de maio de 2009
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  ficção
Felicidade
Um escritor de autoajuda é vencido pela própria fraqueza

Por Eduardo Sabino*

Autografo. Autografo. Sorrio, sorrio. Eles me amam. É o gado faminto se alimentando de pasto cultural. Ofereço latifúndios em forma de papel. É uma noite feliz, embora a pianista toque canções tristes.  

O garçom transita com elegância por entre os convidados, distribuindo o vinho. “O último livro que li, Maicol, mudou a minha vida, devo a minha felicidade a você”, diz um senhor, de olhos muito azuis, os quais não me eram estranhos. Nariz, boca, Caras, sim, recordo: rico empresário casado com uma cantora de MPB. Ali está ela ao seu lado, exuberante com aquele vestido preto, com colar de pérolas de brilho suficiente para destacá-la num bloco carnavalesco. 

Minha família também está ali, Mara, Lúcio e João. Maíra ficou, ainda bem, poderia levar consigo a sensação de insegurança. Dispensei a possibilidade daquela guria se apresentar para meu público com aquelas roupas pretas estranhas. Dei-la a opção de escolher um vestido digno. Ela preferiu ficar.

Tudo segue conforme o programado. As pessoas me cumprimentam pela obra lançada. A cerimônia é regada com aperitivos e bebidas sofisticadas. A pianista é uma artista jovem, talentosa, apareceu diante dos meus olhos em um festival de música do Palácio das Artes. Tão logo apreciei o show, concluído com aquela canção, prometi para mim mesmo que a levaria ao lançamento do próximo livro.

Combinei os detalhes com a garota pouco antes da chegada dos convidados. Analisei o repertório, o mesmo do show, e pedi, com delicadeza, que fosse cortada uma canção. Ela acenou um gesto afirmativo e colocou-se a seu posto.

Agora busco palavras no ar, finjo improvisar o discurso decorado e sou aclamado com uma salva de palmas. A arte de forjar um sorriso é para poucos, mas, na minha cara, ele é questão de sobrevivência.

Enquanto os engravatados e peruas voltam a seus lugares, Renata, a pianista, bebe de uma só vez a bebida que tem em mãos, e, mesmo distante, posso ver que se trata de uísque, Johnny Walker blue label, para ser mais preciso. Não me importo. O álcool costuma aguçar o talento dos talentosos.

Sinto-me tranquilo, certo de que a noite estava completa, perfeita. Às vezes me sinto como o eterno vendedor do próprio produto. Ora como o próprio produto, propriedade de uma vasta obra de palavras repetidas. Uma imagem intrusa vem à tona, sem permissão. “Aproveite o momento, não importa o que faça para chegar a seu objetivo, o que importa, lembre-se, não é o que você é, mas o que as pessoas pensam que você é”.

O falecido e fracassado pai, suspirando suas leituras incansáveis de Maquiavel pelos cantos da casa velha.

“Tudo bem com você pai?” João percebe meu desvio. Os olhos intrigados de Mara e do pequeno Lúcio juntam-se aos do primogênito e olham-me com a mesma curiosidade.

“Tudo, claro, não poderia estar melhor!”, digo em tom elevado, recuperando o sorriso perdido.

Tomo mais um gole do uísque.

“Acho melhor você parar por aqui, Maicol.”

“Acho melhor você ficar calada meu bem, eu conheço meu limite”, digo ajeitando no rosto um semblante de simpatia e tocando os cabelos de Mara com as pontas dos dedos.

Não era uma boa hora para lembrar do velho. Não, não era. Regra número três, do capítulo 5, desvie de pensamentos negativos, lembre-se de momentos felizes, esteja carregado de boas vibrações, sempre.

Levanto. “Vamos dançar, querida.”

Mara me acompanha com a expressão preocupada de quem me conhece. Os convidados seguem nosso embalo. Logo são vários casais deslizando no piso de madeira do Café Livraria.

Deixo o passado morrer ao som de Bossa Nova. Torno-me leve, acredito nas palavras do livro, que às vezes me parecem tão estranhas... como se o medo escrevesse tudo por mim. Mas afasto também esses últimos pensamentos.

Não devia ter deixado a pianista beber. A bebida faz os desejos mais íntimos virem à tona, às vezes por meio de mãos pequenas e delicadas. Como pode, ao mesmo tempo, um medo e um desejo surgirem no mesmo instante, ao som de uma nota?

Ela não tem voz rouca. Mas canta Louis Daniel Armstrong de um modo peculiar e me joga para uma tarde de domingo de 1970.

Mara me olha e seu olhar é como um lamaçal verde-lodo-desespero.

“Vou pedir para ela parar... vou pedir...”

“Não... eles estão gostando... eu vou me conter”, sussurro.

Não sei por que diabos ela esqueceu do combinado. Por que diabos tocar essa maldita música, com aqueles arranjos tão belos.

Paro de dançar. Desengonçado, deixo o corpo cair sobre a cadeira. Mas ainda bem, não chamo muito a atenção dos convidados, todos surpreendidos pela acelerada no ritmo da pianista, capaz de deixar aquela música suave e dançante. Quase não é a mesma. Capítulo três, quatro, filtrar memórias, sorrir. Santo Deus! É a mesma canção. E vem o nó na garganta, desfaço-o. E vem a tremedeira, disfarço. O arrepio sobe, percorre a espinha dorsal e leva aos confins da mente a imagem.

A imagem de um domingo da década de 70. A voz rouca de Armstrong saindo como um sonho do radinho de pilha. No intervalo das propagandas econômicas do governo Médici.

Época do “crescimento do Brasil” e do descobrimento de uma doença incurável. Ah, como ele era forte, vigoroso, nunca se deixaria definhar em uma cama.

E posso ver, como vejo a taça vazia a centímetros de mim. Com a bola de meia na mão, empurro a porta, eufórico. Sou jovem, ainda moleque, entro atraído pela canção do rádio. A minha predileta. E me deparo com o velho maquiavélico, para quem a fortuna não foi das melhores. O corpo no chão. Pedaços da luminária espalhados pela sala. Desabo. Estou chorando quando a canção diz em ritmo animado: "What a wonderful world”.

“Para Maicol, eles estão percebendo.”

Não estou mais ali. Mas logo vem o silêncio e me dou por mim, às lágrimas, como um bebê. Todos os dançantes param, assustados e voltam-se para a cena.

“Só pode estar bêbado, que ironia”, consigo ouvir.

“Justo ele, a alegria em pessoa”

Deve dar para perceber que o pranto é melancólico. Soluço e abraço Mara, ela desesperada, sorrindo para os arredores. Vêm os flashs, contínuos, malditos jornalistas.

Lanço nesta noite, quase me esqueço, a obra “100 dicas para manter o sorriso no rosto”, que, agora, não terá a menor credibilidade. O que viria depois? Descobririam as sessões semanais com o psicólogo, revelariam ao mundo o tratamento com remédios antidepressivos?  Não podem descobrir que a autoajuda era para mim, não para eles. Do contrário meus livros só deixarão as traças satisfeitas.

Sim. Está tudo parado, agora vejo enquanto tento limpar o rosto. As pessoas voltam a seus lugares e fingem que nada aconteceu. A pianista me olha, com a vergonha estampada na face. Descobre a razão do pedido, não era questão de gosto, mas de vida ou morte.  

“E agora”, murmuro no ouvido da esposa, “como provar que sou feliz?”

Ela, olhar complacente, aperta minha mão por baixo da mesa. 

*Escritor, redator e compositor. Conto integrante do livro Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias, a ser lançado em outubro pela Editora Novo Século. E-mail: eduardosabino1986@yahoo.com.br Blog:  Caos e Letras