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livros
Os cegos da caverna
Saramago e seu libelo contra a
globalização
Por Eduardo Sabino*

No universo ficcional de José Saramago não se sabe onde começa a filosofia e
termina a literatura. Atento leitor de Platão, o escritor português brindou
os amantes dos livros com obras instigantes, capazes de fazer com que
voltemos os olhos para os nossos próprios abismos.
Poucos escritores exploraram tão bem o mundo da imagem no qual habitamos. Em
“Ensaio sobre a cegueira”, o Mago produz uma metáfora brilhante da
existência contemporânea.
Uma doença dos olhos se espalha pelo mundo. Começa com um motorista, em meio
ao trânsito engarrafado. As primeiras dezenas de enfermos são isolados em
quarentena. Entre eles, uma intrusa: a mulher do médico, a única do grupo a
enxergar. A personagem, em meio aos cegos, finge que também não vê. É seu
marido quem a alerta, “se souberem você tornará uma escrava”. Logo
percebemos que o poder dela é, na verdade, a responsibilidade de conduzir os
outros. Os olhos são o seu fardo e, em certos momentos, ela chega a desejar
a cegueira.
Saramago dialoga com a filosofia clássica. O mundo dos cegos é a escuridão
da caverna. Lembremos do mito narrado por Sócrates a seu discípulo Glauco.
Imaginemos cativos em uma caverna com pernas e pescoços acorrentados, de
forma que só podem ver o que está diante deles. As correntes os impedem de
voltar a cabeça para a luz. A luz, por sua vez, chega-lhes de uma figueira
acesa numa colina detrás deles. Entre o fogo e os prisioneiros passam as
figuras reais. Homens transportando objetos, dos quais só podem distinguir
as sombras. Mas os cativos nasceram na caverna, então é natural que tomassem
as sombras como o real e fizessem teorias a seu respeito. Se um dos escravos
deixasse a caverna a luz seria dolorosa. Ele custaria a se adaptar.
Desejaria com todas as forças o regresso à caverna, tomando como falso o
mundo iluminado. Caso, com paciência, se libertasse das criações do mundo
escuro e retornasse à caverna para tentar libertar os outros, seria,
certamente, ridicularizado. Por ventura, até mesmo morto por quem construiu
castelos no mundo das sombras.
No ensaio sobre a cegueira a caverna é a paisagem urbana. Todas as cores e
formas da vida contemporânea – a cultura da mercadoria, as instituições e
regras, a luz dos outdoors, telejornais – não passam de um universo de
sombras. Tudo é o escuro. E, em meio a tantas ideias fabricadas, onde
encontrar a essência humana?
É a cegueira que lança os personagens ao encontro de si mesmos, tirando-lhes
da caverna. Não à toa, Saramago chama a doença de cegueira branca (o branco
só pode estar relacionado com a luz). O médico, antes de cegar-se, não
consegue fazer o diagnóstico do primeiro atingido pela suposta doença. “Não
há nada de anormal com os olhos dele”, comenta com a esposa. A “cegueira”
lança os homens no mundo real, onde não têm mais as suas ilusões visíveis e
precisam sobreviver no mundo que, para quem não está acostumado a ver, é
pura escuridão.
Ao longo do texto os personagens vão encontrando a verdadeira natureza
humana. Alguns tendem ao ódio, outros à pureza e à solidariedade. Diante da
verdade súbita tudo é estranheza. Há quem a renegue com ódio e os que,
pacientemente, a abraçam. O conhecimento é gradual e leva à verdadeira
visão. A mulher do médico já estava fora da caverna, desde o início da
narrativa. E sobre ela cai o peso do conhecimento. Se você conhece, dizem os
filósofos gregos, é impossível que aja com indiferença.
Quando, aos poucos, os personagens vão retomando a visão, renasce uma
dúvida. Tornando a distinguir as formas do mundo, após viverem uma
experiência inigualável longe das imagens, eles estariam se libertando ou
regressando à caverna? Nos diálogos finais, o Mago da literatura nos dá uma
pequena luz:
“Por que foi que cegamos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a
razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que
estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.”
*Escritor, redator e compositor. Em outubro, publicará o livro de contos
Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias pela Editora Novo Século.
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