Edição 127 - Aracaju, 26 de julho a 23 de agosto de 2009
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  pensata
Educação não é mercadoria
Marx, consumo e indústria cultural

Por Eduardo Sabino*

Antes de tudo, quero negar a neutralidade jornalística, os sujeitos indeterminados da academia, assumindo, desde já, a primeira pessoa do discurso para dizer: não acredito que a educação é tratada como mercadoria nestes tempos pós-modernos.

Ainda que eu não escape das pedras do movimento estudantil da atualidade (e ele existe sim, embora um tanto quanto perdido), não negarei a afirmação. Ao contrário, peço calma ao leitor mais exaltado para que sejam apresentadas as razões de uma afirmação tão conservadora (ou liberal).

O objetivo aqui não é esgotar um assunto, mas o iniciar. As melhores introduções de assuntos na história do pensamento, Marx provou, são as alfinetadas.

Não nego a complexidade do termo. O pensamento marxista mostrou as sutilezas desta coisa aparentemente trivial, mas enganadora: a tal mercadoria. Não discordo: ao longo do tempo, enquanto nós a produzíamos, ela também foi produzindo o mundo à sua imagem e semelhança.

No mundo pós-moderno, o fetiche é universal. Tudo parece ter as rugas de expressão da mercadoria (e tem). É difícil encontrar algo que não possa ser esgotado do seu valor de uso para servir ao mercado.

As coisas precisam renovar-se para atender a uma produção acelerada, projetada para o infinito. As modas, os relacionamentos, as “tribos subversivas”, nada escapa à máquina do consumo.

Por isso, classificar a educação como mercadoria é muito fácil. Mais complicado é dizer o que não o é. É preciso entender, no entanto, o meio onde se dá a mercantilização das coisas e buscar outras maneiras de ver o processo. Por meio dessa ótica, reforço, a educação é mais do que uma mercadoria.

Adorno, um dos estudiosos mais mal interpretados de todos os tempos (disputa o trono com Marx), trouxe à luz um conceito interessante para entendermos o nosso sistema. A indústria cultural, a transformação das formas simbólicas em mercadoria, injetou na máquina, em larga escala, as ideias de preservação do estado das coisas. Esse processo, diziam os frankfurtianos, deu força à razão instrumental.

Essa é uma das chaves da teoria crítica. Desde o iluminismo, a razão vem deixando de ser crítica para se tornar instrumental, ou seja, um instrumento para a manutenção do sistema.

A posterior transformação do sistema (e da vida) em mercado, nesse sentido, não fez nada além de submeter a razão às necessidades mercadológicas.

A universidade, arrisco, perde a janela para o conhecimento universal em favor do “conhecimento” mercadológico. Rompe-se, dessa forma, o forte vínculo da educação com a tradição, já que o mercado é sempre o novo, e adaptar-se a ele é uma condição para a sobrevivência.

Insisto que uma mudança eficaz só terá base se for sistêmica. Mesmo se concederem o passe estudantil ou travarem o tal SPC para estudantes, serão apenas concessões.

A roda continuará a girar, porque ela é acionada nos modos de produção. A mudança, cada vez mais urgente, deve ser nisso, não nos cargos dos ocupantes das câmaras e congressos que nos fazem acreditar em seu teatro. Toda ação política institucionalmente realizada tornar-se-á inviável se também o for para o sistema econômico.

Assim, da mesma maneira, os conteúdos ensinados na universidade são lecionados ao passo da exigência deles pelo mercado – afora alguns corajosos educadores que tentam remar contra a maré ou, em linguagem pós-moderna, contra o fluxo. No geral, a crítica ao mercado tem mais força nos botecos do que nas universidades.

Para grande parte dos “segmentos” mercadológicos, a produção dura em média quatro anos. Com a aplicação de técnicas diversas, os formados (ou fabricados) saem com diversas funções, salvo o senso crítico apurado.

Portanto a educação não vem se tornando mercadoria, mas uma indústria. As mercadorias somos nós, estudantes, a quem um cliente exigente, o Mercado, espera de braços cruzados.

*Escritor, redator e compositor. Em outubro, publicará o livro de contos Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias pela Editora Novo Século. E-mail: eduardosabino1986@yahoo.com.br Blog:  Caos e Letras