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pensata
Educação não é mercadoria
Marx, consumo e indústria cultural
Por Eduardo Sabino*

Antes de tudo, quero negar a neutralidade jornalística, os sujeitos
indeterminados da academia, assumindo, desde já, a primeira pessoa do
discurso para dizer: não acredito que a educação é tratada como mercadoria
nestes tempos pós-modernos.
Ainda que eu não escape das pedras do movimento estudantil da atualidade (e
ele existe sim, embora um tanto quanto perdido), não negarei a afirmação. Ao
contrário, peço calma ao leitor mais exaltado para que sejam apresentadas as
razões de uma afirmação tão conservadora (ou liberal).
O objetivo aqui não é esgotar um assunto, mas o iniciar. As melhores
introduções de assuntos na história do pensamento, Marx provou, são as
alfinetadas.
Não nego a complexidade do termo. O pensamento marxista mostrou as sutilezas
desta coisa aparentemente trivial, mas enganadora: a tal mercadoria. Não
discordo: ao longo do tempo, enquanto nós a produzíamos, ela também foi
produzindo o mundo à sua imagem e semelhança.
No mundo pós-moderno, o fetiche é universal. Tudo parece ter as rugas de
expressão da mercadoria (e tem). É difícil encontrar algo que não possa ser
esgotado do seu valor de uso para servir ao mercado.
As coisas precisam renovar-se para atender a uma produção acelerada,
projetada para o infinito. As modas, os relacionamentos, as “tribos
subversivas”, nada escapa à máquina do consumo.
Por isso, classificar a educação como mercadoria é muito fácil. Mais
complicado é dizer o que não o é. É preciso entender, no entanto, o meio
onde se dá a mercantilização das coisas e buscar outras maneiras de ver o
processo. Por meio dessa ótica, reforço, a educação é mais do que uma
mercadoria.
Adorno, um dos estudiosos mais mal interpretados de todos os tempos (disputa
o trono com Marx), trouxe à luz um conceito interessante para entendermos o
nosso sistema. A indústria cultural, a transformação das formas simbólicas
em mercadoria, injetou na máquina, em larga escala, as ideias de preservação
do estado das coisas. Esse processo, diziam os frankfurtianos, deu força à
razão instrumental.
Essa é uma das chaves da teoria crítica. Desde o iluminismo, a razão vem
deixando de ser crítica para se tornar instrumental, ou seja, um instrumento
para a manutenção do sistema.
A posterior transformação do sistema (e da vida) em mercado, nesse sentido,
não fez nada além de submeter a razão às necessidades mercadológicas.
A universidade, arrisco, perde a janela para o conhecimento universal em
favor do “conhecimento” mercadológico. Rompe-se, dessa forma, o forte
vínculo da educação com a tradição, já que o mercado é sempre o novo, e
adaptar-se a ele é uma condição para a sobrevivência.
Insisto que uma mudança eficaz só terá base se for sistêmica. Mesmo se
concederem o passe estudantil ou travarem o tal SPC para estudantes, serão
apenas concessões.
A roda continuará a girar, porque ela é acionada nos modos de produção. A
mudança, cada vez mais urgente, deve ser nisso, não nos cargos dos ocupantes
das câmaras e congressos que nos fazem acreditar em seu teatro. Toda ação
política institucionalmente realizada tornar-se-á inviável se também o for
para o sistema econômico.
Assim, da mesma maneira, os conteúdos ensinados na universidade são
lecionados ao passo da exigência deles pelo mercado – afora alguns corajosos
educadores que tentam remar contra a maré ou, em linguagem pós-moderna,
contra o fluxo. No geral, a crítica ao mercado tem mais força nos botecos do
que nas universidades.
Para grande parte dos “segmentos” mercadológicos, a produção dura em média
quatro anos. Com a aplicação de técnicas diversas, os formados (ou
fabricados) saem com diversas funções, salvo o senso crítico apurado.
Portanto a educação não vem se tornando mercadoria, mas uma indústria. As
mercadorias somos nós, estudantes, a quem um cliente exigente, o Mercado,
espera de braços cruzados.
*Escritor, redator e compositor. Em outubro, publicará o livro de contos
Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias pela Editora Novo Século.
E-mail:
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