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cibercultura Conectado Era um namoro perfeito demais Por Eduardo Sabino*
Foi amor pelo Windows Vista. Carreguei o navegador do sistema operacional da Microsoft, como quem não quer nada, e a encontrei. Num portal de notícias, quem diria... Não sou um leitor exemplar, mas gosto de ficar bem informado, sempre. Se não me engano, fomos unidos pelo Mensalão, veja como é a vida: uma denúncia de corrupção e o comentário dela no rodapé do texto. Não havia foto, só o nick, Carolzinha, ah... Carolzinha. Pelo “inha”, ameigando o nome, imaginei que fosse muito gostosa. Partilhei da sua ira, cobrando educação para o eleitor, reforçando as pragas contra os homens do Planalto. Depois naveguei por outros cantos. E-mail, orkut, twitter. O quarto já escurecia quando voltei ao portal de jornalismo. Tive que recorrer ao sistema de busca para encontrar a notícia. A essas alturas, estava fora dos destaques da home, quase esquecida. Foi aí que nosso relacionamento começou. Ela havia colocado outra mensagem, elogiando-me pelas palavras. Desta vez deixou o endereço do seu blog: colorido demais, textos curtos e repletos de gíria. Falavam sobre coisas afins, tais como beleza, cinema e política. Agradei muito da foto no canto superior direito da página. Uma mulher linda, provavelmente loura e de olhos verdes (a imagem preta-e-branca tratada no maldito Photoshop). Sem perder muito tempo com leitura (o tempo é precioso na internet), teci elogios aos artigos dela. Minutos depois, a retribuição no meu blog, com direito a contatos do twitter e msn. Carolina revelou-se muito parecida comigo. Tínhamos muitas comunidades em comum, ouvíamos a mesma rádio on-line, seguíamos os mesmos artistas no twitter e trabalhávamos na internet. Eu, como webdesigner. Ela, no atendimento on-line de uma loja virtual. Conversávamos horas a fio. Tudo interrompido apenas pelos passos da mãe – o almoço, o chá-quente e as bisnagas –, às vezes a velha comentava alguma coisa, eu xingava, dizia que precisava me concentrar, conduzia ela até a cozinha, e fechava a porta. Os olhos eram verdes, sim. Os cabelos pretos, longos. Ela dava tchauzinho pela webcam, os meus pelos ouriçavam. Morava em Porto Alegre, a menina, fogosa e louca para conhecer a capital paulista. Nossos laços se fortaleceram quando colocamos “namorando” no perfil do orkut. Nossos passeios eram constantes. Começávamos no orkut, comentando tópicos em comunidades. Mais tarde, passávamos por salas de bate-papo, blogs e fóruns, alguns eróticos. Certas noites, partíamos para o cinema: sentia sua presença ao meu lado quando partilhávamos um vídeo no youtube. A primeira vez foi inesquecível. Ela só de calcinha na cama e eu sem camisa. “Tire o resto pra mim, assim...devagar. Estou tocando você agora, delícia”. E a coisa fluía. Chegamos lá juntos, tal romance de cinema. Depois tomei um banho (uma pena não podermos estar juntos debaixo do chuveiro), limpei o mouse e o teclado. Conectei-me ao msn, já com saudade, e lá estava ela: linda, extasiada, o cigarro nos lábios carnudos. Um dia o Juca me visitou. Olhou para mim horrorizado, perguntando há quantos dias eu não saía de casa. Não me lembrei, talvez 3 meses ou mais. Tentou convencer-me a uma cerveja, no boteco do Branco, logo ali. Desviei, disse ter um compromisso no horário, estava namorando. Quis saber quando ia apresentá-la para a turma, “a galera sentia minha falta”. Duvidei, calado. Ele falava da mesma galera que nem me dava bola na sala de aula. Os caras só se aproximavam do nerd para conseguir ajuda nos trabalhos sobre rede. Quando dos churrascos e bacanais, eu não existia. Enrolei o Juca sem entrar em detalhes, muito trabalho, correria, abri uma cerveja e brindamos às mulheres, como nos velhos tempos. Lembramos de alguns lances legais da faculdade, ou que o tempo fez com que ficassem legais, e ele se foi. “Leva a menina pra eu e minha noiva conhecermos”. Prometi que o faria. Voltei para o meu mundo, o verdadeiro. Mas a minha razão de ser e estar não estava lá. Carol tinha me trocado pela festa da avó. Depois foram as festas do pai, dos primos, das amigas e, desconfio, até aniversário de cachorro e papagaio. Desesperei-me. O namoro era perfeito demais para ser possível, já devia saber. As faltas cresceram, eu exigia respostas. Até ela confessar – o lápis e a borracha do skype se alternando, a angústia crescendo – outro cara conquistou o coração de porcelana. E eu? E as madrugadas loucas que passamos? “Tudo uma ilusão”, ela disse, “moramos longe demais um do outro”. “Não há distância em nossos tempos”, insisti, “o nosso amor vai superar isso. E continuei: “Esse cara é uma enganação, neném. Logo você verá como ele é imperfeito, quando ele te machucar, porque é isso que as pessoas lá fora fazem, o tempo inteiro”. A partir daí ela não disse nada. Enviei flores virtuais. Ela recusou: ficou off-line. Nunca mais a encontrei na rede. Não respondia meus e-mails, deletou o blog, saiu de todas as instituições da web sem deixar vestígios, afora os comentários perdidos em sites e blogs. Morreu, enfim. Ao menos para mim. Passei algumas semanas ruins, confesso. Descrevi a minha tristeza no blog e espalhei o link do post. Recebi, em troca, dezenas de mensagens de otimismo. Elas me ampararam, e a vida voltou ao normal. Pressão mesmo foi quando o monitor se apagou. Por muito pouco não surtei. Cheguei a ouvir todos eles, soprando da caixinha de som desligada. Chamavam-me pelo nome, as vozes robóticas, agudas, suplicando companhia. A tela tornou a iluminar-se e, mais uma vez, sobrevivi. Hoje, tenho certeza, estar em rede é viver bem acompanhado. Há sempre alguém à sua imagem e semelhança, mesmo sendo você um esquisito. Para mim, um dia, só uma coisa poderá lançar a humanidade na solidão: um blecaute. Eu temo por ele, e todas as noites, antes de me desconectar, rezo para que não aconteça de novo. *Escritor, redator e compositor. Em outubro, publicará o livro de contos Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias pela Editora Novo Século. E-mail: eduardosabino1986@yahoo.com.br Blog: Caos e Letras |