Edição 129 - Aracaju, 27 de setembro a 25 de outubro de 2009
_______________________________________________________________________________________________________________


 

  filosofia
A era da incerteza: do elétron à celebridade
O conhecimento nos levou a tempos insólitos

Por Eduardo Sabino*

Há pouco tempo, todo biólogo que se prezava, em sua fé incondicional na Ciência, dizia que o homem veio do macaco. Mas um dia descobriram: há macacos no mundo moderno, seja em florestas ou zoológicos, e, se eles tivessem se transformado mesmo em homens, não deveriam existir. Óbvio, mas o fanatismo, como sempre, cega. 

Antigamente a Terra era quadrada e quem ousou imaginar ela redonda, viu, antes de ser assassinado, o sol nascer quadrado. Hoje, todas as coisas são círculos, do universo aos espirais de fumaça no céu. Nem as instituições são mais quadradas. Arredondaram-se tanto que deixaram desprotegidos os que viviam nos cantos.

A incerteza é mais nítida com o estudo detalhado do tal do átomo, a última parte da matéria (mas composta por prótons, nêutrons e elétrons). Os prótons são positivos, os elétrons negativos, por que os elétrons não são atraídos pelos prótons e não caem no núcleo? Isso, teoricamente, não deveria gerar revolta, se caíssem não existiríamos, mas não faltam incomodados por aí. Nos últimos cem anos os cientistas insones vêm contando elétrons para dormir. Muitos deles fizeram suas apostas. A coisa girava entre o milagre e a força centrípeta até Rutherford coçar o bigode e trazer ao mundo o Modelo das Camadas de Valência. Agora, para agravar a questão, a última cartada daquele louco, o Albert Einstein, começa a clarear as coisas. A Física Quântica (aleluia), por meio da Lei da Antigravidade, explica: os elétrons não caem porque no universo existe uma força contrária à gravitação universal. Ela age de dentro para fora, empurrando, sem dó nem piedade, todas as coisas do universo. 

Mexeram justamente nela: a Lei da Gravidade. Pobre Newton, pobre maçã: um dogma destruído? Achávamos a gravidade tão única e incontestável quanto o Ato Inconstitucional Nº 5 (talvez também vivêssemos sob uma ditadura). Caímos nessa... É preciso acreditar agora em Einstein, pois ele nunca teve um tropeço. Mas se o maior físico do mundo estiver certo, quem vai indenizar os alunos que não confiavam em Rutheford, aqueles guris iluminados que não optaram por nenhuma das opções anteriores e tiveram de repetir o ano? 

Depois são as pessoas comuns as confusas. Elas são antes, retratos do caos promovido, ao longo do tempo, também por elas, em suas relações sociais, mas, especialmente, pelos administradores do sistema. Por aqueles por detrás dos avanços institucionais e mercadológicos: os cientistas e intelectuais.  

O conhecimento nos levou a tempos insólitos. A modernidade líquida tornou tudo fugaz, os consumidores trocam a promessa da eternidade pela “certeza” da intensidade. O mártir tornou-se herói, o herói cansou de sacrifícios e virou celebridade. A celebridade vende sua imagem e dá lugar para outra, que traz valores e conhecimentos, segundo os novos Arquimedes, maiores e iguais a zero. É tudo uma dança da cadeira (novamente o círculo) na qual todas as coisas giram. Trocam-se políticos, namorados, colaboradores, artistas, neste círculo vicioso e mercadológico: a constante necessidade de reciclar. 

É verdade, há séculos atrás tudo era mais sólido. Do amor ao picolé. Hoje, nossas identidades estão fragmentadas, nossos valores abalados, o amor é frágil e os picolés, devido ao efeito estufa, derretem mais depressa. 

Eis a Era da Incerteza. Não são mais pequenos equívocos, ou leves desconfianças acerca de nossas instituições. Basta olhar para outro Big Bang, o do consumo, para notar que as pessoas, antes tão convictas de suas identidades (dominadas ou não), adotaram a lógica do mercado para governar suas vidas. São produtos e serviços instáveis (a novidade de hoje é o lixo de amanhã) os grandes responsáveis pelas identidades dos homens nessa intensa busca pela satisfação.

Maior e mais forte do que os buracos negros são os abismos entre os consumistas e os que, por falta de capital, não podem entrar na corrida, embora a assistam em bancas de jornal e tevês abertas. 

Qual será o fim disso tudo? Pergunta tola, nós consumidores nos importamos com o presente, o futuro é secundário. 

Mesmo a iminência de um colapso ambiental não colabora para tirar as pessoas do tempo presente, do aqui e agora. Parece que mesmo a certeza do fim do mundo abandonou os homens. Alívios típicos do século XXI, afinal, o mundo deveria ter acabado às 0h do ano 2000. Mas tudo indica que Deus não usa relógios e na parede da casa eterna não existem calendários. Ainda bem.

*Escritor, redator e compositor. Em outubro, publicará o livro de contos Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias pela Editora Novo Século. E-mail: eduardosabino1986@yahoo.com.br Blog:  Caos e Letras