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cinema
Confronto ideológico
A verdadeira disputa entre os
filmes Avatar e Guerra ao terror
Por Eduardo Sabino*
Foto: Divulgação

Passado o furor do Desfile do Oscar, uma surpresa alegrou
(pseudo)intelectuais pelo mundo afora: a superprodução
Avatar,
de James Cameron, foi desbancada por
Guerra
ao Terror (The Hurt Locker), filme de baixo orçamento, dirigido
por Kathryn Bigelow. Aliás, a premiação deste ano, para alguns estudiosos,
representou uma espécie de democratização da cerimônia, já que Bigelow foi a
primeira diretora a ser agraciada com a estatueta. O “feito” chamou a
atenção até do Vaticano, que comparou o triunfo de um filme modesto sobre a
“quimera 3D” à vitória de Davi sobre Golias. Para além dos quesitos
“técnica” e “orçamento”, vale investigar os conceitos trabalhados nos dois
filmes. Arrisco que chegaremos às causas dessa surpreendente premiação (ou
promoção) de
Guerra
ao Terror (ou da guerra ao terror).
“O cinema é uma guerra de ideologias”, lembra o filósofo Zizek. No confronto
entre
Avatar
e
Guerra ao Terror, em especial, as ideias são inversamente
proporcionais.
Avatar
é a crítica negativa das invasões dos Estados Unidos e mostra o olhar do
invadido.
Guerra
ao Terror é a crítica positiva das ocupações militares
americanas e mostra a visão do invasor. Efeitos especiais à parte, são duas
produções políticas. E o José Wilker, com as pernas cruzadas em pose
cult,
dizendo que o filme “engana pela beleza”, “é bonitinho, mas fora da
realidade” e coisas do gênero, não me fará mudar de opinião.
A ficção científica sempre foi a mais poderosa via de análise da realidade.
Produções literárias como
1984
e
Admirável Mundo Novo saem do que chamamos de mundo real para
satirizar a vida humana. Um olhar profundo de fora – ainda que seja de um
mundo completamente imaginado – tem poder de impacto sobre os que estão
dentro.
É assim com
Avatar.
Na crítica da obra, muitos se concentraram em alguns clichês típicos das
produções do gênero (dos quais o filme não escapa), mas não conseguiram
flertar com os lugares incomuns, os mais subjetivos.
Em
Avatar, Jake Sully (Sam Worthington), um fuzileiro naval
paraplégico, é convocado para uma missão em Pandora, um planeta paradisíaco
e repleto de perigos. De início, Jake se une a um grupo de cientistas com a
missão de estreitar as relações com os habitantes de Pandora: os na’vis.
Para respirar no planeta e se aproximar da comunidade extraterrestre, os
cientistas criam avatares, corpos produzidos por meio da mistura do DNA
alienígena e do humano. Apesar do interesse antropológico, a missão só é
financiada pelo governo porque os na’vis são o único obstáculo para a
exploração de Pandora. Jake vira uma peça estratégica, por ser aceito na
comunidade alienígena como aprendiz.
A saga de Jake é uma verdadeira travessia cultural só comparada à do oficial
civil de
Dança
com Lobos. Ao aprender a enxergar com o olhar do outro, ele toma
para si os valores dos na’vis e passa a negar os ensinamentos do mundo
ocidental. O avatar soa como metáfora da transformação do protagonista. No
começo, é um corpo estranho, ao final, a nova identidade de Jake.
As referências às invasões americanas perpassam pelo filme. O vilão, uma
figura satírica de George W. Bush, declara a guerra à Pandora como guerra ao
terror. O objetivo da missão, apesar das boas intenções dos missionários
cientistas, é extrair um recurso natural raro e lucrativo encontrado em
Pandora (alusão ao petróleo do Oriente Médio). A impressionante queda da
árvore-mãe de Pandora, bombardeada pelos militares, remete à queda das
Torres Gêmeas. Talvez resida aqui um golpe magistral à suposta justiça da
guerra ao terror. Quantas Torres Gêmeas alheias já caíram nas empreitadas
americanas?
Vamos à ideia dominante:
Guerra
ao Terror mostra a tensão de um grupo de soldados dos Estados
Unidos enviados para desarmar bombas e antecipar ataques terroristas em
Bagdá. O foco da trama é o destemido soldado Willian James (Jeremy Renner),
um dasarmador de bombas que tem amor pelo ofício e, por isso, frequentemente
coloca em risco os membros de sua equipe.
Se até meandros do filme, James é apresentado como uma figura controversa,
logo surgem as tentativas de construção heroica. James cria laços de amizade
com uma criança iraquiana e, ao suspeitar da morte dela, conduz sozinho uma
arriscada investigação noturna. Em outra cena, James está diante de um civil
repleto de bombas no corpo. Ele ignora os gritos dos companheiros e arrisca
a vida, tentando, até os últimos segundos, desarmar a bomba. Na cena que
resume os sentidos da obra, as imagens do passado de James: após ler uma
notícia sobre a morte de inocentes no Iraque, ele resolve partir para lá,
deixando esposa e filho (Alá esteja com ele).
Não foi a câmera ágil e um tanto experimental, conforme arriscaram alguns,
que deram o Oscar de melhor filme a
Guerra
ao Terror. Nesse critério,
Distrito 9, outro indicado, arrasaria qualquer concorrente. O
filme de Bigelow é uma panfletagem das missões norte-americanas. O olhar
“inocente” da diretora vê as ocupações do Iraque como um trabalho
humanitário, realizado com coragem por jovens soldados e com o único
objetivo de proteger a população. Assim a diretora deu legitimidade às mais
de 800 bases militares do EUA espalhadas pelo mundo, e ainda recebeu o Oscar
por isso.
Colocados os pingos nos “is”, quebremos o senso comum das análises dos
rivais do Oscar.
Avatar
é uma superprodução que caiu nas graças da indústria cultural, mas tem alma,
seu conteúdo subversivo passa longe dos olhos mais superficiais.
Guerra
ao Terror ganhou o Oscar por causa de outra alma, a do negócio,
a propaganda política.
A estatueta dourada ainda soa para a massa como um atestado de qualidade.
Por isso, em países como o Brasil, o filme foi levado para os cinemas depois
de estrear nas locadoras.
Guerra
ao Terror dá nova leitura a um conflito desgastado na mente da
opinião pública mundial e ajuda a dar fôlego a um presidente que prega a paz
mundial, mas não abre mão de suas ocupações militares. Aliás, pelas belas
atuações, o próprio Obama deveria cortar o serviço de terceiros e se
candidatar ao Oscar.
*Escritor, redator e compositor, autor do livro
Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias (Editora Novo Século). E-mail:
eduardosabino1986@yahoo.com.br Originalmente publicado no blog
Caos
e Letras.
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