Edição 135 - Aracaju, 14 de março a 11 de abril de 2010
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  filosofia
Moral e interesse
As lições de Immanuel Kant

Por Roberto Saturnino Braga*
Foto Divulgação

Os primeiros pensadores políticos da era moderna, Maquiavel, Hobbes, Espinosa, fundaram suas concepções num psicologismo realista que afirmava o egoísmo essencial do ser humano; egoísmo que só lhe permitia (a ele, ser humano) agir em busca do seu estrito interesse pessoal. Quando favorecia um ente querido, era por interesse próprio, atendendo ao seu amor. Quando se comportava corretamente na sociedade, era por medo da punição das leis, que eram instituídas para criar este medo. Quando fazia o bem ao próximo, estava pensando na salvação da alma, na recompensa após a morte, isto é, era por interesse, sempre por interesse.

Foi preciso aparecer um filósofo da monumental grandeza de Immanuel Kant, cem anos depois, para mostrar que o ser humano tem algo mais, que lhe foi doado no processo de evolução das espécies, que é o sentido do bem e do mal, ou o sentido da justiça. Nenhum outro animal, na sucessão das filogêneses, chegou ao estádio de aperfeiçoamento psíquico caracterizado por este sentido, que é o sentimento moral, que é o mesmo sentimento de justiça. Assim também o sentido ou a intuição do tempo, do passado e do futuro, que é exclusivo do ser humano. O homem, o único ser que fala e pensa, é também o ser moral e temporal, na sua essência, isto é, na sua natureza.

Claro que o impulso do interesse é fortíssimo, predominante mesmo, no comportamento humano, tanto quanto todos os outros condicionamentos e apetites provindos de sua animalidade ancestral. Mas é preciso ler Kant, com muita atenção, com muito cuidado, para compreender aquele outro sentimento, próprio da humanidade, que suscita sua admiração, seu assombro, diante desses mistérios, como “o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim”.

A verdade é que o ser humano age, sim, por interesse, predominantemente, mas age também movido pelo impulso de fazer o bem, independentemente de recompensa. E, mais, para os crentes na evolução do próprio gênero humano (é uma religião, uma crença, uma fé, da qual sou adepto) esta dimensão benévola e desinteressada do comportamento humano tende a aumentar na medida em que ele se vai libertando daqueles medos ancestrais, medos cósmicos, medos das arbitrariedades e dos despotismos, das neuroses da educação cruel, e vai tomando o gosto da solidariedade, da amizade, do amor cristão, do amor da infância.

Assim como o uso do dom da palavra, e da própria razão, vem sendo trabalhado e cultivado através dos séculos, a sensibilidade moral se aperfeiçoa ao longo da história da humanidade, de tal forma que hoje inspiram horror muitas práticas sociais do passado, práticas cotidianas, institucionalizadas no passado. É nossa crença.

Somos ingênuos, os desta crença? Somos ingênuos como zombam os realistas, os que pensam que o homem é o mesmo desde as cavernas, os talentosos competidores do mercado? É bem possível, mas nós não nos arrependemos da nossa inocência. Ao contrário, gostamos dela.

Eu resolvi escrever sobre este tema em razão de duas manifestações vindas dessas pessoas amigas que recebem e comentam os meus Correios. Uma é de amiga que me enviou o relato de uma brincadeira de um professor americano que resolveu fazer uma experiência “socialista” com seus alunos, dando sempre a todos a mesma nota, que era a média de todas as notas das provas da turma. Na medida em que não havia o estímulo da nota alta para os que estudavam mais e a punição da nota baixa para os vadios, o desempenho médio foi caindo, a nota média, igual para todos, socializada, foi baixando, e acabou a turma inteira reprovada. Brincadeira típica de americano médio, que tem horror ao socialismo.

Bem, o socialismo é, de fato, uma preferência dos que acreditam na evolução da humanidade, e por isso mesmo é um ideal longínquo, ainda muito distante da realização. Socialistas que conservam o ideal mas prezam o bom senso, lutam por um persistente caminhamento em direção ao socialismo, fundado na elevação da cultura política e no desenvolvimento moral humanista, não por uma construção revolucionária capaz de levar imediatamente à sua realização.

A outra indução veio por um amigo, que se ocupa com filosofia política, que me lembrou a definição de Ética do grande pensador americano estudioso dos mitos, Joseph Campbell. Disse ele: ”Ética é o caminho para lhe ensinar a viver como se você e o outro fossem um só”. Perfeita. Uma definição verdadeiramente cristã, a do amar o próximo como a si mesmo. Só que é um ensinamento eminentemente cristão mas não religioso, no sentido de que você deve assim proceder para ganhar o céu no Juízo Final. A verdadeira Ética, que é a de Campbell, não espera recompensa; é kantiana; é o cumprimento do dever essencial do ser humano, da lei moral que está dentro dele.

É preciso ler Kant. Porque esta é a questão primordial, preliminar de todo o pensamento político. É a mesma questão que está na raiz dos conflitos entre lealdade ao grupo, ao clã, à pátria, e o princípio universal da justiça.

*Ex-senador, coordenador da ONG Instituto Solidariedade Brasil e colunista de Plurale, onde este texto foi originalmente publicado. É autor de vários livros, sendo o mais recente No curso das Ideias (Editora Publisher Brasil, 2009). E-mail: saturbraga@ig.com.br