
Webjornal - Mensal - Edição 84 - Aracaju, 06 de novembro
a 11 de dezembro de 2005
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Congresso da Abraji Por Rodrigo Marinheiro* O jornalismo investigativo ficou enfatizado quando em 1972 o diretor do FBI, Mark Felt, deu ao repórter Bob Woodward o conselho de seguir o dinheiro. A partir daí os repórteres Woodward e Carl Bernstein, do jornal Washington Post, seguiram as pistas encontradas num assalto ao edifício comercial Watergate, o que os levou até a Casa Branca. A reportagem provocou investigações no Congresso e originou a renúncia do então presidente Richard Nixon. O desempenho da imprensa norte-americana no caso Watergate serve até hoje de exemplo e é considerado o melhor que o jornalismo pode oferecer a uma democracia: manter o poder responsável. Infelizmente esta prática está sendo distorcida e o cenário vem se alterando. A briga pela audiência tem minado a potência das reportagens investigativas graças ao sensacionalismo da cobertura noticiosa. As pressões realizadas pela área comercial e pelo departamento jurídico dos meios de comunicação estão barrando o jornalismo investigativo. Esta vertente do jornalismo requer tempo, recursos financeiros e disponibilidade de recursos humanos, que fazem falta nas redações devido à escassez de dinheiro das mesmas, que precisam de todos os repórteres apurando as notícias comuns do cotidiano. O jornalismo investigativo é responsável por escancarar informações sobre más condutas que interfiram no interesse público. As denúncias oriundas desta prática não provêm de informações vazadas para as redações, elas provêm unicamente do trabalho dos repórteres. Esta vertente do jornalismo valeu a imprensa o apelido de Quarto Poder. A imprensa contribui de forma fundamental para a democracia por ter obrigação de vigiar o governo, para que este trabalhe de forma responsável. Não foi à toa que em 2004, cinco das 15 categorias do Prêmio Esso foram levadas por jornalistas investigativos. No entanto este trabalho gera risco, lembra o jornalista da TV Globo Eduardo Faustini: “No ano passado 15 jornalistas foram assassinados na América Latina, sendo três deles no Brasil”. No dia dois de junho de 1975, em Phoenix, Arizona, dois mafiosos explodiram o carro do repórter Don Bolles. Pelo menos cinqüenta jornalistas se reuniram para cobrar uma atitude do governo americano. Como resultado da trágica morte do repórter, os dois bandidos foram presos e surgiu o IRE, Investigative Reporters and Editors, uma das lápides da democracia americana. No fatídico dia dois de junho, mas desta vez em 2002, foi assassinado de forma brutal por traficantes da favela Vila Cruzeiro, no subúrbio do Rio de Janeiro, o jornalista Tim Lopes da TV Globo. No calor do cruel assassinato do repórter, jornalistas brasileiros fundaram a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. A Abraji ganha afiliados e adeptos a cada ano, o que é bom para a democracia de nosso país, como contou o jornalista Cláudio Tognolli: “O propósito da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo é clarear a escuridão egípcia em que está metida a democracia brasileira quando se fala no acesso às informações públicas”. Não é pra menos que certa vez o juiz da Corte Suprema dos EUA, Hugo Black, afirmou que na política "a luz do sol é o mais poderoso detergente", ou seja, se deixarmos tudo às claras não teremos mais dúvidas. Mas infelizmente, no Brasil, nem tudo é tão simples. A ex-Prefeita de São Paulo Marta Suplicy - governou a cidade de 2000 a 2004 - vetou em 2003 o Projeto de Lei 091, já aprovado pela Câmara Municipal de São Paulo. Esta Lei obrigava a Prefeitura a expor dados sobre o desempenho orçamentário na Internet e em boletins distribuídos nas subprefeituras. Embora nesta época eu assessorasse uma das secretarias da cidade, estranhei as razões que impulsionaram Marta ao veto. A ex-Prefeita alegou que o projeto seria ilegal, inconstitucional e contrário ao interesse público. Nem eu que trabalhava naquela administração aceitei estas desculpas. A Lei tinha como objetivo ampliar o acesso de jornalistas, analistas e de toda população as informações do executivo municipal. Talvez o veto seja um dos motivos que fizeram a petista perder a reeleição. O jornalista Gay Talese, autor do livro Fama e Anonimato, afirma ser "serendipitoso” de nascença, o que de fato é ótimo para um jornalista. “Serendipidade" é uma palavra adaptada ao inglês pelo escritor Horace Walpole (1717-1797). Walpole pincelou esta palavra de uma fábula persa sobre três príncipes de Serendip (atual Sri Lanka), cunhando-a em inglês. No mito estes três nobres descobriam por acaso, a todo instante, coisas que não estavam procurando. Penso que o jornalista investigativo precisa ser um falso “serendipitoso” para não ser processado, descobrindo fatos como quem não quer nada. Nos dias 28 e 29 de outubro ocorreu na PUC-Rio o 1º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. Mais de 300 jornalistas, entre palestrantes e congressistas vindos de 14 Estados e do Distrito Federal, estiveram presentes ao evento, participando de painéis e oficinas sobre técnicas de reportagem e coberturas especiais. Dentre os palestrantes do congresso estavam os integrantes da ONG Contas Abertas, que apresentaram o próprio website com dados obtidos diariamente do Siafi (Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal). Já os jornalistas Brant Houston (diretor da Investigative Reporters and Editors e autor do livro "Computer-Assisted Reporting - a Practical Guide", uma das "bíblias" do ensino da técnica de RAC), Charles Lewis (ex-produtor do “60 minutes” e líder do International Consortium for Investigative Journalism) e Rosental Calmon Alves (Professor titular da cátedra Knight de Jornalismo e diretor do Knight Center for Journalism in the Americas na Faculdade de Jornalismo da Universidade do Texas, em Austin nos EUA) deram um brilho especial ao evento. Num dado momento do congresso, este repórter conversava com os jornalistas Chico Otávio (repórter de O Globo - Editoria Nacional e Vice-presidente da Abraji), Ricardo Noblat (editor do Blog do Noblat, um website de notícias políticas do Brasil), Cláudio Abramo (matemático, mestre em Lógica e Filosofia da Ciência e diretor executivo da organização dedicada ao combate à corrupção, Transparência Brasil) e Leandro Fortes (Repórter da revista Época em Brasília e professor de jornalismo). Nosso assunto em pauta era o “mensalão” e as críticas disparadas pela própria imprensa aos jornalistas investigativos, que foram surpreendidos com as denúncias de Jefferson após o flagrante de propina recebido por Maurício Marinho nos correios. É obvio que não chegamos a uma conclusão se os repórteres investigativos falharam ou não. Eu batia na tecla dos repórteres “serem mais serendipitosos”, procurando não uma agulha, mas sim qualquer coisa em um palheiro. Chico Otávio e Leandro Fortes disseram que era impossível descobrirmos algo antes das denúncias. Cláudio Abramo já acredita que saberemos investigar melhor quem entra e sai do Palácio a partir de agora. Mas de fato só concordamos quando Ricardo Noblat citou uma crônica de Carlos Heitor Cony (cronista membro do Conselho Editorial da Folha e da Academia Brasileira de Letras), que dizia assim: “A dúvida é lícita: o jornalismo investigativo comeu mesmo respeitável mosca, sabendo do mensalão, sabendo de tudo, da compra de votos pelo PT para garantir votações no congresso, e não botou a boca no trombone por algum motivo obscuro; ou nada sabia de nada, o que o inocenta de qualquer manobra suspeita mas não da condição de incompetente na investigação do que é condenável nas entranhas da política e da vida pública em geral. De qualquer modo, felicito-me por não ser um jornalista investigativo” Certamente existe corrupção também no jornalismo, este é um problema da cultura do nosso país. Mas dentre os membros da Abraji, uma entidade que luta pela “luz do sol na democracia brasileira”, seguramente não há esta prática. Alguns jornalistas fazem piada quando eu e outros colegas falamos com ânimo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Dizem que é marketing e que não existe jornalismo investigativo em nosso país, o que é um feliz engano. Temos no Brasil mais de 150 jornais diários só nas capitais, infelizmente poucos on line, o que dificulta um leitor que more na selva ou na seca ter acesso, por exemplo, ao material produzido perto das belas praias de Aracaju. O fato é que jornalismo investigativo existe no Brasil inteiro. Toda pauta deveria nascer como as pautas investigativas, da vontade de mudar alguma coisa que não faz bem a sociedade em que vivemos. Foi com este espírito que realizei o vídeo-documentário “Narcotráfico – O Novo Poder”, entrevistando traficantes, moradores de rua e filmando, com uma câmera escondida, a venda de drogas no centro e nas proximidades de uma escola da periferia de São Paulo. O jornalismo precisa ser pensado assim, como forma de mostrar a verdade obscura que as autoridades não querem ver publicadas. É preciso estimular a cidadania participativa, especialmente a relação entre o governo e a sociedade. *Jornalista em São Paulo |
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