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meio ambiente Lições de sobrevivência Anfíbios do sertão nordestino superam ambiente hostil Texto e foto: Sidney Feitosa Gouveia*
Geralmente associados a ambientes úmidos, a primeira vista parece surpreendente que animais como os anfíbios – sapos, rãs, salamandras e cobras-cegas – existam em regiões secas. De fato, a respiração através da pele úmida e a vida dividida entre a terra firme e a água, onde os girinos da maioria das espécies se desenvolvem, os fazem animais profundamente dependentes desse recurso. Por isso, não é surpresa que regiões úmidas possuam a maioria das quase 6.500 espécies de anfíbios espalhadas pelo mundo. Nesses ambientes, chuvas abundantes garantem as condições ideais para a sobrevivência de muitas espécies, fazendo com que regiões como a Floresta Amazônica e a Mata Atlântica detenham extraordinários índices de diversidade desses animais. Em regiões semi-áridas, áridas e semi-desertos, onde as condições ambientais são das mais adversas para os anfíbios, valores mais modestos de riqueza de espécies são de fato registrados. Entretanto, ambientes secos oferecem os maiores desafios a esses animais, os quais surpreendem pelas táticas de sobrevivência diante de tais adversidades. Longos períodos de estivação (comportamento paralelo à hibernação, porém exibido sob calor intenso ao invés de frio); produção de ninhos de espuma para proteger ovos e girinos da dessecação (modo reprodutivo comum a muitas espécies); breve período de metamorfose dos girinos, numa corrida contra a evaporação da água, são alguns dos exemplos mais comuns de estratégias dos anfíbios de regiões secas. Na Caatinga, maior região semi-árida do Brasil, onde se observam os mais altos índices de temperatura média, radiação solar e evaporação, e menores volumes de chuva do país, mais de 60 espécies desafiam a hostilidade climática, exibindo uma singular variedade de cores, formas, sons e, sobretudo, táticas de enfrentamento aos infortúnios do sertão nordestino. O constante risco de desidratação é o principal problema a ser solucionado. Diante disso, o sapo-guardinha (Rhinella granulosa), espécie encontrada em todo o país e especialmente adaptada à Caatinga, exibe uma das maiores tolerâncias fisiológicas a altas temperaturas dentre os anuros, permanecendo ativos mesmo em condições próximas ao extremo suportável, algo próximo aos 40°C. Durante a maior parte do ano, quando prevalece o período seco, os anfíbios permanecem ocultos em seus abrigos evitando a exposição ao calor e perda de umidade da pele. Um exemplo interessante é a perereca-de-capacete-da-Caatinga (Corythomantis greeningi). A epiderme de sua cabeça é ossificada, semelhante a uma armadura, usada pelo animal para tampar seu abrigo, em geral frestas de rochas, bromélias e cavidades, conferindo assim proteção contra a desidratação durante a estiagem. Outro artifício para livrar-se do calor intenso é permanecer enterrado no solo onde a umidade é ligeiramente maior que a superfície. Assim faz o sapinho Proceratophrys cristiceps, que permanece em profundidades de até dois metros. Logo após a primeira chuva, no início do inverno, uma surpreendente explosão de espécies é vista onde quer que haja água. Em açudes, cacimbas, riachos, pequenas poças ou brejos, os sapos cantam e festejam a chegada das chuvas, anunciando um tempo de fertilidade no sertão. É quando a perereca-de-folhagem (Phyllomedusa nordestina) exibe cores exuberantes, o sapo-boi (Ceratophrys joazeirensis) emite seu berro assustador e a rã-martelo (Hypsiboas faber) canta em sua batida semelhante à de um ferreiro. Sem dúvida, o surgimento de tantos anfíbios no início das chuvas, em uma região tão desfavorável a sua permanência é um dos espetáculos mais intrigantes do semi-árido nordestino. Contudo, muitos fatores oferecem risco à diversidade de anfíbios na Caatinga. Perda e fragmentação de habitats, agrotóxicos, desertificação e mudanças climáticas são algumas dessas ameaças. A desertificação e os efeitos do aquecimento global são especialmente críticos para o semi-árido. Além da ação sinergética entre elas, a desertificação é responsável por uma intensa simplificação dos ambientes, excluindo várias espécies, enquanto o aquecimento global já mostra sinais de diminuição nos volumes de chuva, causando redução no tamanho dos corpos d’água, e aumento nas temperaturas, provocando uma maior evaporação, o que reduz ainda mais a quantidade de água disponível, afetando praticamente todas as espécies. Por apresentar modo de vida duplo, com fases aquática e terrestre, os anfíbios figuram entre os melhores indicadores da saúde do ambiente, os chamados bioindicadores, haja vista que podem sinalizar a presença de alterações nos dois tipos de ambientes. Na Caatinga, onde a água é um recurso escasso e imprevisível, esses animais têm grande potencial para demonstrar como aumentos nas temperaturas globais podem afetar a biodiversidade. Contudo, poucos foram os estudos envolvendo o tema na região. Sem dúvida, muito há por conhecer sobre essas pequenas jóias vivas, as quais situam entre os organismos mais ameaçados do planeta na atualidade. *Mestrando em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal de Sergipe e Coordenador da unidade de conservação estadual Monumento Natural Grota do Angico. E-mail: sidneyfgouveia@superig.com.br |