Webjornal - Quinzenal  - Edição 69 - Aracaju,  21 de novembro a 05 de dezembro  de 2004
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Jornalismo

Sindijor, nova fase

Por Rafael Heleno*

Eleito presidente do Sindijor – Sindicato dos Jornalistas – em agosto deste ano, o jornalista José Cristian Góes assumiu a gestão no dia 8 de setembro, comemorando também seu 10° ano de atividades no jornalismo sergipano. O primeiro contato com essa atividade se deu em 1990, quando Cristian ingressou no curso de Comunicação Social da antiga Faculdade Integrada Tiradentes. Mas, desde o período colegial, já demonstrava interesse em jornais, revistas e televisão.

Durante o curso, teve oportunidade de estagiar na tevê e rádio Aperipê e em um jornal de curta duração, intitulado Hora Certa. Por último, no jornal Cinform, onde estagiou e posteriormente foi integrado, atuando durante nove anos como repórter e editor de área. Nesse mesmo período, foi assessor de imprensa do Simpese – Sindicato dos Professores do Estado de Sergipe e repórter free-lancer da revista IstoÉ.

No Simpese Cristian Góes aprendeu a trabalhar como assessor de imprensa, sua grande faculdade, ao lado do Cinform. O trabalho desenvolvido nesses dois segmentos lhe rendeu em 2001 o convite para atuar na diretoria de imprensa da Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Aracaju. Em maio do mesmo ano, assumiu como secretário interino, sendo logo promovido a titular.

Em janeiro de 2003, o jornalista se afastou da Secretaria. O principal motivo teria sido um convite para assessorar a Deputada Estadual Ana Lúcia, do PT, com quem já havia trabalhado por um longo período no Sindicato dos Professores do Estado. Seu último feito ocorreu em 2004, quando foi eleito com facilidade à presidência do Sindijor, durante um processo de eleição bastante tumultuado. Leia a seguir a entrevista com Cristian Góes. 

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BN -  Qual o período de mandato do Sindijor e pode haver até quantas reeleições?

Cristian Góes - São três anos de mandato com possibilidade de reeleição quantas vezes o candidato for reeleito, assim prevê o estatuto. Apesar de que é um compromisso nosso reformular o estatuto do Sindicato, que é antigo e cheio de erros e queremos colocar apenas a possibilidade de uma reeleição. Hoje, eu inclusive diria que não sou candidato à reeleição. Minha tarefa nesses três anos é reconstruir o sindicato e deixá-lo em boas condições para outras pessoas tocá-lo.

BN – A pouco mais de dois meses, a nova chapa assumiu as funções do Sindijor, em um processo de eleição tumultuado. O que pode ser dito sobre esse período?

CG - Foi um período tumultuado porque a pessoa que estava aqui é completamente insana, e a gestão dele causou um malefício terrível ao jornalismo sergipano e vai ser difícil se recuperar em um curto espaço de tempo. Nós encontramos o sindicato 100% falido, nós encontramos uma receita de R$ 600,00 e um débito já vencido de R$ 2.800,00. Era uma situação de falência completa.

BN – Diante desses problemas, nesses primeiros meses que a chapa assumiu o sindicato, como vê a credibilidade perante a categoria, considerando o trabalho desempenhado nos anos anteriores?

CG - A categoria está afastada e isso é muito natural, diante de um presidente aqui sem compromisso, que nunca se sentiu representante da categoria, como também os jornalistas nunca se sentiam representados por ele, e por isso abandonaram o sindicato. Eu lembro que quando o presidente convocava – uma vez ou outra – alguma assembléia, e nós que fazíamos oposição aparecíamos, ele ficava completamente transtornado, pois estava só. Por exemplo, se eu aparecesse com duas pessoas já era maioria, sendo dois votos contra um. De setembro para cá, nós temos, aos poucos, mas com muita firmeza, procurado resgatar um pouco da credibilidade do Sindijor. Em nossa campanha a gestão dizia que nossa chapa era de reconstrução do sindicato e na verdade não é isso, e sim construção, porque não existia nada para todos os efeitos. Agora é que está existindo sindicato.

BN – Fale um pouco sobre a implantação de projetos que beneficiam os jornalistas.

CG - Nós temos muitos projetos, alguns inclusive com os pés no chão. Elegemos três ângulos de trabalho, primeiro administrativo e financeiro, que se baseia em resolver as pendências gerenciais do sindicato, como pagamento de funcionário, 13.º salário, férias, entre outras pendências. O dinheiro que entrava era pouco, mas dava para suprir, o problema foi ter sido desviado para outros fins. Outro ângulo é de combate contra o exercício ilegal da profissão, que é muito grave. Não estamos mais brincando com essa questão, a pessoa que for flagrada, cometendo exercício ilegal, receberá um processo por faculdade ideológica.

BN – Quanto aos estagiários, existe alguma proibição?

CG - O estagiário, ou seja, o estudante de jornalismo, têm uma relação melhor. Temos um acordo coletivo para estagiários com algumas possibilidades, por exemplo, uma empresa só pode ter 10% de estagiários em relação ao número de profissionais, ou seja, se uma empresa tem 10 ou menos jornalistas, um estagiário. Caso haja 20 jornalistas, o número já sobe para 2 estagiários. Outra coisa, o estagiário tem de ser acompanhado pelo professor e ter 60% dos créditos cumpridos, numa jornada de trabalho de até 4 horas. A nossa legislação diz que estágio em jornalismo é proibido, isso faz parte de um acordo entre o sindicato e a classe patronal para possibilitar os estágios.

BN – Faz parte das atividades do Sindijor coibir de alguma forma os veículos que não pagam o piso vigente aos jornalistas?

CG - A informação que nós temos é que nenhum veículo regular em Sergipe paga menos que o piso. No último dia 10 de outubro, nós tivemos uma assembléia e isso foi reforçado, porque antes o Sindicato não tinha assessoria jurídica e hoje tem. E ela está pronta a agir quando não estiver sendo cumprido o piso salarial, que é o menor do Brasil, uma vergonha para os donos de jornal e para nós jornalistas. O piso hoje está estipulado em R$ 633,00. Em janeiro iremos discutir as questões trabalhistas e também o piso salarial. Vamos pleitear um piso de R$ 900,00. Para isso estamos nos organizando e temos feito estudos, vamos fazer uma grande campanha na Sociedade com outdoors, camisas e panfletos. Iremos dizer à sociedade que os donos dos veículos de comunicação ganham muito dinheiro em Sergipe, estão sempre melhorando suas estruturas físicas e o jornalista, verdadeiramente profissional, não está sendo recompensado.

BN – Ter sido secretário de Comunicação da Prefeitura foi de algum modo uma experiência importante para a realização desse trabalho no sindicato?

CG - Sem dúvida, como Secretário ampliei meu leque de conhecimento, sendo fundamental inclusive para chegar ao Sindicato. Apesar da polêmica, nós chegamos aqui em uma situação muito boa e confortável.  Se tem uma pessoa que conhece bastante o dia a dia do nosso jornalismo sou eu. Sou o primeiro presidente da história do sindicato a ter nível superior. A experiência no jornal Cinform, Simpese e na Secretaria de Comunicação, foram fundamentais para tocar o sindicato. Hoje, as condições são complicadas porque existem dificuldades estruturais. Um exemplo, a primeira edição do nosso jornal que só foi possível porque conseguimos uma publicidade na Secretaria Municipal de Saúde. Mas entre todos os problemas, pelo menos hoje o sindicato não é omisso e vai atuar fortemente, sentando-se à mesa de negociação para discutir salário, condição e mercado de trabalho com a classe patronal no mesmo nível.

BN - Além do acordo para estágio, existem outras ações que beneficiam os estudantes?

CG - Já começamos, constituímos uma comissão permanente para assuntos estudantis, que já fez sua primeira reunião. É composta por dois estudantes de jornalismo da Universidade Federal de Sergipe e outros dois da Universidade Tiradentes.

BN – Por que você resolveu encarar esse novo desafio?

CG - Chegamos a um ponto que ninguém queria o abacaxi, então, iríamos deixar novamente na mão de Enoque Araújo? Não era possível, inclusive inadmissível. Vemos as empresas crescendo, os patrões se desenvolvendo, aumentando o patrimônio e o jornalista cada dia pior. Nem precisamos comparar nosso piso com o de centros como Rio e São Paulo, basta ir aqui em nossos dois vizinhos, Bahia e Alagoas, esse foi o ponto principal de ter encarado esse desafio, ou se tenta organizar um sindicato para conseguir melhores dias para a categoria ou estamos falidos, não tem como continuar aceitando essa situação.

BN – Qual a posição do sindicato perante a criação do Conselho de Jornalistas, pelo governo federal, o sindicato aprova o modo como está sendo proposto? Existe algum conflito entre os Sindicatos de jornalismo com aquilo que o Conselho prega?

CG - Primeiro, o tema do Conselho tem alguns aspectos que nós discordamos profundamente.  Critica o que fazemos e quanto à proposta do conselho, que tem um texto muito ruim. Eu tive a chance na Assembléia de conhecer um pouco sobre legislação, e se trata de uma lei completamente subjetiva. Eu, particularmente, sou a favor do Conselho, mas não do modo que está sendo implantado. Na verdade, o que defendo mesmo é o fortalecimento do Sindicato. O Conselho atende apenas a um item de nossa pauta, que se baseia no combate ao exercício ilegal da profissão. Conselho não vai se envolver com salário, com mercado e condição de trabalho. Quem vai sentar-se à mesa de negociação com a classe patronal é o Sindicato. Outro ponto, se o Conselho fosse aprovado da forma que saiu, o Sindijor fecharia. Ninguém vai deixar de pagar uma taxa obrigatória, anual e cara para se trabalhar, porque se não for assim, não há possibilidade para se pagar o sindicato que é um ato de adesão política voluntária. O projeto é muito ruim, agora, quanto a causar censura é mentira. Isso parte da classe patronal, principalmente dos grandes veículos, que perceberam que no estabelecimento do Conselho há uma possibilidade concreta de regulamentação da profissão. O que acontece é que os grandes veículos não querem pagar por isso, não querem direitos trabalhistas e nem contar com ações de trabalho, mas sim explorar o máximo possível. A censura foi uma espécie de plano de fundo, uma cortina de fumaça, na verdade, para encobrir um processo de ataque aos direitos trabalhistas. Agora, outra critica é que o conselho não vai resolver questões trabalhistas, quem atua nessas questões é o sindicato.

Talvez nos grandes centros que possuam grandes sindicatos com o estabelecimento do Conselho permaneçam ambos. Mas em Sindicatos como o nosso! E ainda existe outro grave perigo, imaginem um Enoque da vida, sendo presidente do Conselho Regional de Jornalismo em Sergipe, o que pode acontecer para essa categoria? Seria um perigo muito grande. Por isso somos favoráveis a um combate rigoroso contra o exercício ilegal da profissão, mas se essa luta vai se estabelecer através do Conselho, já é uma outra questão.

BN – Que mensagem final o presidente deixa para os leitores desta entrevista?

CG - A primeira coisa é que a gente está vendo uma luz no fim do túnel. Confesso que há seis meses a situação era desesperadora, porque não havia sindicato e do outro lado uma classe patronal que deita e rola. Com a chegada dessa nova gestão ao Sindijor, estamos tentando a passos lentos construir uma outra história de busca pelo respeito profissional, o jornalista sergipano merece ser respeitado.

Então, queria dizer aos leitores, especialmente aos jornalistas que estão sendo convidados para estágio, ou os que estão deixando a faculdade para o mercado de trabalho, que percebam a importância da atividade do sindicato. E que não saiam da faculdade e mergulhem de cabeça no mercado de trabalho, reproduzindo o que os nossos colegas há muito tempo vem fazendo, que esses jornalistas cheguem com uma nova visão no mercado de trabalho.

*Estudante de Jornalismo da Universidade Tiradentes(SE)

                          

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