Edição 121 - Aracaju, 11 de janeiro a 15 de fevereiro de 2009
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  perfil
Um construtor de sonhos
As lições de Norberto Odebrecht

Por Sônia Araripe*
Foto Almir Bindilatti/Divulgação

O séquito de assessores e o ar solene não deixam dúvidas. Dr. Norberto Odebrecht está chegando. É preciso, no entanto, fôlego e muita vivacidade para acompanhar o ritmo intelectual e físico. Aos 89 anos, o filho de imigrantes alemães parece armazenar a mesma disposição do jovem que um dia, com 20 anos, precisou assumir, de sopetão, os negócios lançados pelo bisavô Emil e pai Emílio na construção. Estava no terceiro ano de Engenharia e tinha pouca experiência. Em quatro anos, transformando crise em oportunidades, tinha zerado as dívidas acumuladas pelo pai no período difícil da Segunda Guerra. Aos credores, pediu obras e mostrou que tinha jeito para o negócio. Nascia, em 1944, a sua empresa individual, e, no ano seguinte, a Construtora Norberto Odebrecht. 

É assim que imagina o Brasil, crescendo, avançando. "É preciso transformar crises em oportunidades. Já vi várias crises. Sempre acabam. É preciso sobreviver", ensina Dr. Norberto. Lamenta o crescimento desordenado do capitalismo selvagem e destrutivo; chama a atenção para a importância da educação para os jovens e da família (principalmente da mãe) como núcleo principal. Defende o fim da burocracia estatal e critica o excesso de rigor nos licenciamentos ambientais. "Estes licenciamentos ambientais demoram muito a serem aprovados.... temos o extremo da burocracia estatal que emperra e atrofia tudo." 

Revela o segredo de tanto sucesso,  baseado no que chama o jogo do ganha-ganha, sempre com confiança. "É preciso dialogar, ter parceiros, comunicar. Buscar resultados e partilhar." E cita cinco fatores de eficácia: o tempo; o enfoque na contribuição; atuar nas forças das circunstâncias, é preciso ter valores éticos e limites; definir prioridades e, finalmente, ter coragem para decidir. "Já vi muita gente que pensa, pensa e não faz nada." Criado junto da terra, sabe o valor das coisas simples. " Os jovens das grandes cidades estão atrofiados, perdidos. Minha esperança está no interior." Defende a educação, mas adverte que não basta por si só. "Há no Brasil 78% de excluídos e 6% de ricos. Falta educação, mas não é só isso. É preciso trazer este contingente enorme para a economia formal."

Limites 

Continuamos a caminhar, passeando pelo passado. "Este aqui me ensinou muito", conta o pernambucano de nascimento, baiano de coração. E aponta para a foto antiga, ainda em preto-e-branco, do pastor luterano alemão que vivendo em sua casa - quase como um segundo pai - praticamente o preparou para a vida. Educação cristã, voltada para valores e para limites, coisas que, segundo ele, as escolas não ensinam mais. "Ninguém sabe mais dar limites", queixa-se.

Vergando um impecável terno de linho bege claro, quase branco, camisa branca, sem gravata, cabelos alinhados para trás, deixa transparecer ter um quê de vaidoso. Não demasiado. O suficiente para manter a fleuma de quem nos últimos anos soube, como poucos, criar e perpetuar uma cultura de gestão empresarial genuinamente verde-e-amarela. Descentralizada, bem arquitetada, sistêmica, mas com metas firmes a serem cumpridas. E cobranças. Quem já trabalhou - ou ainda trabalha - com Dr. Norberto sabe que ele, definitivamente, não veio nesta vida a passeio. Em quase nada lembra o jovem franzino que chegou a passar 47 dias de cama, com malária. Bem mais tarde, teve tumor no pulmão: chegou a ser desenganado, aos 70 anos, mas depois de operação bem sucedida, voltou com mais força para a vida. 

É assim, comentando a exposição "Núcleo de Cultura Odebrecht" - sobre a história de como a pequena construtora da família tornou-se a Organização Odebrecht, um império que emprega 59 mil pessoas, trabalhando em países nos cinco continentes e girando bilhões de dólares - que somos apresentados para esta lenda do mundo empresarial. Com negócios que vão desde a construção, infra-estrutura, petroquímica, óleo e gás, energia limpa até engenharia ambiental e empreendimentos imobiliários. A marca Odebrecht está fincada em tantos países que o grande painel high-tech, representando o globo na parede, parece uma aldeia iluminada de tantos pontos coloridos. Da Bahia para Abhu Dabi, Dijibuti e outros destinos de nomes tão exóticos quanto lucrativos.

Prestação de serviços 

O anfitrião conta que o Grupo Odebrecht é prestador de serviço, bem diferente dos tempos da Revolução Industrial. "Naquela época, todos queriam vender e empurrar para cima do consumidor. Ford dizia que dava para escolher, mas só tinha aquele carro preto. A era do conhecimento mudou esta lógica e veio a prestação de serviço. Não são mais as commodities. A Odebrecht é prestadora de serviço. O cliente define e nós entregamos o que ele precisa." 

As repórteres - um grupo formado apenas por mulheres - parecem que o deixam ligeiramente zonzo. Tentam trocar a ordem cronológica, fazer perguntas entremeadas, enquanto ele ainda está concluindo outra resposta. "Isso é uma teima? Querem me enquadrar?", brinca o presidente do Conselho de Administração da Fundação Odebrecht. Risos em geral. 

Volta a sorrir, ainda um tanto incomodado pela saraivada de perguntas e mostra que ali, o anfitrião é ele. "Calma, deixem eu falar! Isso aqui tem lógica." E continua caminhando e, gentilmente, explicando. "Vejam esta raiz, localizada na Ilha de Tinharé, do Baixo Sul. Simboliza a luta pela sobrevivência." Está posicionada no meio do salão, solene (foto). Dr. Norberto revela existir um simbolismo forte neste seu gosto, que o acompanha há anos e é conhecido por muitos: quando alguma raiz é encontrada abandonada e morta, em praia ou em floresta, um destino certo terá. "Gosto das gigantes, as que dão trabalho."

Família 

Raízes que ajudam a explicar a solidez do conglomerado hoje comandado por seu neto, a terceira geração, Marcelo, e pelo filho Emílio, preparando para trilhar um dia, o mesmo caminho do pai, passando o bastão para o herdeiro e dedicando-se apenas a estratégia. "Os filhos a gente cria para o mundo. Se forem melhores do que os pais, a missão está cumprida." Perguntamos se ele se considera, assim, realizado, com filho e neto perpetuando a família Odebrecht. Fecha os olhos azuis, profundos como o mar baiano, pousa a mão no queixo ­- um gesto repetido ao longo de dois dias de curta, e intensa, convivência - e parece falar com o coração. "Está tudo aí para quem quiser ver." Com a esposa, companheira de toda a vida, teve cinco filhos, que lhes deram 15 netos e 22 bisnetos. 

O engenheiro acostumado com métricas, obras, cálculos, visão sistêmica e contatos políticos mantém a memória ativa. Se um dia foi chamado de "baiano malcriado" pelo então Presidente Ernesto Geisel, deixa para trás a querela antiga. Aliás, se tem algo que parece marcá-lo é a cordialidade, o gosto refinado por Filosofia, por Política, por textos e claro, por uma boa "teima". Sem falar na crença e obstinação não só no que já foi realizado, está sendo feito, mas, principalmente, pelo o que ainda virá. "Chegará aos 100 anos trabalhando firme?", questionamos. Ele volta a fechar os olhos e diz que continuará trabalhando até quando puder. "Enquanto tiver metas vou trabalhar. Este projeto do Baixo Sul é minha meta." E dá pistas que não deverá parar tão cedo. "Não gosto, mas faço fisioterapia e cuido da cabeça para não ficar parada." 

Livros? Confessa que não tem lido muito ultimamente, apesar de tê-lo feito ao longo de vários anos e escrito quatro obras. Sempre sobre sua especialidade: Filosofia, Gestão empresarial e Valores éticos. Os famosos livros branco e verde. Brinca que já nem acredita que a garotada da Organização conhece o conteúdo. "Eles dizem que leram. Acho que não leram nada!" Confessa detestar tecnologia. Computadores e os bytes não fazem parte de seu dia-a-dia. "Isso é técnica. Se eu deixar a técnica prevalecer, viro um imbecil." Insisto. Nem mesmo um livro? "Tenho recebido textos curtos. Mandam pela Internet, minha secretária imprime e aí gosto de ler. Já os livros, não tenho mais tempo."

Rotina 

Parece mentira. Dr. Norberto revela que acorda de madrugada - às 3 ou 4 da manhã - e o dia já está todo comprometido. Chega cedo à sede do grupo faça sol ou faça chuva. Costuma dar "investidas" nos comandados: gosta de chamá-los cedo para ver quem também já chegou. Soneca no meio do dia?  Nem pensar. Não Dr. Norberto.  Viagens longas com a esposa e muito lazer? Só quando a pressão da família é grande. A corrida ainda é intensa, mesmo após deixar a rotina do dia-a-dia desde 1998, para cuidar apenas do que mais gosta: a Fundação Odebrecht, que lançou há 40 anos. 

O acompanhamos parte desta agenda intensa ao longo de dois dias. Na tarde do primeiro dia, depois de despachar, Dr. Norberto embarca de helicóptero para a fazenda de um amigo, bem próximo do local do evento no dia seguinte, na Serra da Papuã, onde foi lançada a base de seu mais recente sonho. Seguimos mais cedo, usando avião e carro. Transformar a região pobre do Baixo Sul da Bahia em área de transformação socioambiental (veja detalhes na matéria sobre o projeto em curso na região), na APA do Pratigi. 

Para tirar o sonho do papel está ali, nas entrelinhas, a Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO), conjunto de princípios, conceitos e critérios desenvolvidos desde 1944. Está tudo registrado e escriturado: projeto, custos, possíveis parceiros, potenciais, o ontem, o hoje e o amanhã. Enquanto o presidente executivo da Fundação, Maurício Medeiros, apresenta o programa da APA, Dr. Norberto ralha: "Cadê as mudanças que pedi aqui nesta apresentação?". Medeiros apresenta o que foi pedido ainda em folhas soltas, já entregues para os jornalistas, e explica que, diante do pouco tempo, só não teve tempo de refazer o caderno espiral de novo. O chefe se conforma.

Natureza 

Dá sinais que sabe, de cor e salteado, tudo o que está registrado. "Quantos metros tem mesmo a Cachoeira da Pancada Grande (em área de preservação ambiental)?", pergunta Medeiros. Dr. Norberto, sem pestanejar, responde que são 50 metros. Nem poderia ser diferente. Tomou gosto pelo pouco que sobrou de natureza intocada nesta imensa região do interior da Bahia. "A Pancada, antes, tinha mais força", se recorda. 

Conta que fez a sua parte e que agora quer atrair parceiros, nacionais e internacionais. "Colocamos aqui cerca de R$ 41 milhões. É a base. Agora que venham outros parceiros", afirma o presidente da Fundação Odebrecht. 

No dia da inauguração da APA do Pratigi, no alto da Serra da Papuã, Dr. Norberto, de manga de camisa azul, bem disposto, responde que leu Plurale e conheceu um pouco das propostas apresentadas. Mas brincou sobre o conceito de desenvolvimento sustentável. "Tem empresário e muita gente falando bonito. Mas falta para muitos deles sabe o quê? Isso aqui, a prática! Eu tive um sonho e o realizei". Ali, rodeado de gente simples, chamando e sendo chamado pelo primeiro nome, ele está como mais gosta. Construindo o seu sonho, que, a julgar pela disposição e energia do engenheiro de plantão, outros tantos virão.

Originalmente publicado na Revista Plurale.

*Jornalista e editora da Revista Plurale. E-mail: soniaararipe@plurale.com.br