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perfil Um brasileiro em defesa da paz Civil brasileiro ajuda a administrar a recuperação do Haiti
Por Sônia Araripe*
O nome Luiz Carlos da Costa pode até soar familiar para alguns. Mas poucos, bem poucos, associarão o senhor brasileiro alto, de cabelos grisalhos e voz firme, que fala um bom português, entremeado por algumas palavras em inglês e francês, como um dos principais articuladores da recuperação do Haiti. Com grande experiência neste tipo de missão humanitária – especialmente em áreas de conflito – Luiz Carlos sabe que não há tempo para vaidades ou marketing pessoal. “Fazemos nosso trabalho com dedicação. Mas a grande vitória é do povo do Haiti. Eles nos dão a certeza que é possível sonhar com a paz”, conta à Plurale o representante especial adjunto do Secretário-Geral da ONU na Missão de Paz no Haiti, o segundo homem na hierarquia da Minustah, como é mais conhecida esta missão. O comandante é um militar do Exército verde-e-amarelo, General Carlos Alberto Santos Cruz. Entre os americanos e estrangeiros, Luiz Carlos é mais conhecido como Mr. Da Costa, seguindo um modelo anglo-saxão que utiliza o último sobrenome como referência. O inglês perfeito, depois de tantos anos morando fora, poderia até enganar os mais apressados. Mas, apesar da timidez aparente, estão lá os traços da infância alegre no Rio de Janeiro, de quem tem um algo mais da alma brasileira, mais especialmente, da graça carioca. Pelo tipo de trabalho que exerce, Luiz Carlos, 59 anos, precisa “mergulhar” de cabeça na empreitada. Já esteve no Camboja, Libéria e outros tantos países em conflito com a mesma missão: atuar, como civil, no trabalho de reconstrução da democracia, das instâncias de legitimação do poder e também garantir a ordem para que a região se recupere depois, sozinha, já sem a ONU, das sequelas da guerra. Não é fácil. Casado com Cristina, uma professora, pai de duas filhas que já estão na faculdade, deixa a família, nos arredores de Nova York, e fica no Haiti direto, por seis meses. Depois deste período, tem permissão para visitar a família em casa por alguns dias para retornar novamente ao trabalho. Luiz Carlos está no Haiti tempo suficiente para conhecer o país como a palma de sua mão e renovou mandato, que leva um ano. A Minustah chegou ao país em julho de 2004, logo após a revolta popular que levou à queda do então presidente Jean-Bertrand Aristide. Desde então, o mandato da missão de paz tem sido sucessivamente estendido. Tem hoje cerca de 7 mil militares do Brasil e outros 15 países, além de 1,7 mil policiais. Dificilmente este quadro deverá ser alterado da noite para o dia. "Apresentamos uma proposta de que essa configuração deve ser mantida até 2011, que seriam 12 meses depois das eleições presidenciais, para permitir um processo eleitoral tranquilo, uma campanha para as eleições que seja um processo político e também um princípio de um novo governo com legitimidade", explicou. O ambiente em Porto Príncipe, capital do pequeno país encravado ao lado da República Dominicana, ainda é de ferida aberta. Um número expressivo de locais morreu ou ficaram com seqüelas ao longo de tantos anos de conflito aberto. Hoje, a ordem do dia é correr pela paz e recuperação: há obras por todos os lados, relata o representante da ONU. Mas a presença de militares brasileiros e de outros países que integram a Força de Paz das Nações Unidas não deixa dúvidas: a violência foi bem reduzida, porém, dependendo da região e do horário ainda há riscos de sequestros e atentados. “A população local é muito ordeira e pacífica, mas os anos de convulsão social deixaram marcas difíceis de serem apagadas. Gangues ainda tentam resistir.” Hoje, a missão da ONU e o grupo de poder do Haiti procuram se concentrar na reconstrução de um país destroçado. São novas escolas, delegacias, hospitais, representações do poder constituído, etc. Aliás, guardadas as devidas proporções, Mr. Da Costa se parece com a figura de um “prefeito”, ou um “governador” em ação. Acorda cedo e já começa a despachar com outros integrantes da missão e do poder local para que o trabalho avance. Sempre em parceria com as tropas militares. E com os representantes do Haiti. Há represálias, ou o clima é de cordialidade? “Gostam da missão. Sabem de nosso importante papel ali e a esmagadora maioria nos apóia. Há adversários, mas são poucos.” Luiz Carlos lembra que a população adora futebol. Ele está certo que apenas com o apoio da população local será possível voltar com o país dos sonhos de todos. “Acredito realmente que, com um pouco mais de ajuda internacional, será possível termos um Haiti livre de violência, com todas as crianças na escola e emprego garantido para as pessoas.” Luiz Carlos calcula que esta ajuda não envolveria bilhões de dólares. “Com relativamente pouco dinheiro é possível equacionar os problemas do Haiti.” As construções de estradas, pontes, hospitais e casas começam a gerar empregos, mas é preciso ainda mais. O representante da ONU tenta ajudar a convencer empresas privadas estrangeiras a se instalarem lá. Não é fácil: uma destas, por exemplo, já estava com tudo pronto quando um de seus executivos sofreu um sequestro relâmpago. A companhia desistiu e foi para outro país na África. “Precisamos garantir a segurança para que estes investidores fiquem. A competição entre os recursos é muito grande. Se não estiverem no Haiti vão para a Ásia, África ou América Latina.” O representante especial adjunto conheceu e conviveu com o amigo Sérgio Vieira de Mello, Alto Comissário da ONU morto em atentado há cinco anos quando cumpria missão de paz pela recuperação do Iraque. “Era uma belíssima figura”, diz, com voz embargada. Ao todo são cerca de 130 brasileiros trabalhando na ONU nas mais diferentes funções. Luiz Carlos começou nas Nações Unidas em 1969, formado em Relações Internacionais em Nova York. Entrou como mensageiro e fez tão bem seu trabalho que foi galgando postos e missões até chegar aos postos mais recentes. Com quase 40 anos de trajetória na ONU, não esconde o orgulho de integrar equipe tão aguerrida. “Somos um verdadeiro pelotão pela paz.” O carioca não gosta muito de falar sobre os riscos a que ele e todos os envolvidos neste tipo de missão estão expostos, apesar de todos os cuidados tomados. Mas a entrevista, ocorrida no Forte do Leme (Zona Sul do Rio), em meio aos colegas generais que integram agora a Força de Paz da ONU no Haiti, cercada de vários seguranças e militares, dá uma dimensão de como é o dia-a-dia dos homens que estão envolvidos na Minustah. Mr. Da Costa é civil, mas se parece, e muito, com os militares após anos de convivência ordeira. Seja pela força cívica, sobriedade ou pela discrição dos colegas de farda. “Minha missão é trabalhar, ajudar os outros. Detesto aparecer.” Gentil, recusou a proposta de Plurale de fazer uma foto na praia de Copacabana, que sempre revisita no Rio. Sugere uma foto de arquivo, em campo. Oferece um CD com imagens impactantes do Haiti e da missão em ação. São soldados, médicos e dentistas ajudando a população local. Em trabalhos humanitários e também em missões para garantir a paz. “Isso é muito melhor do que uma foto minha.” Mas não é fácil se esconder: sempre em ação, Luiz Carlos e outros integrantes da missão, inclusive soldados, aparecem como protagonistas nesta história. Ele lembra que o país, embora arrasado pela guerra e desastres naturais – enchentes, chuvas, furacões, etc. – ainda tem uma natureza linda. A tentativa de preservar o meio ambiente é crucial: desmatando e destruindo o que restou de sustentável, a população abre espaço para rios e ventos destruírem ainda mais o que restou. E quando o país voltar à ordem, poderá recuperar turistas hoje grande fonte de renda da vizinha República Dominicana. Sua trajetória em tantos anos na ONU exigiu atos de bravura. Foi assim, com uma ação decisiva, na troca de comando da Libéria, do ditador Charles Taylor para a democracia, chegando à primeira presidenta no continente, Ellen Johnson-Sirleaf, perfil de Plurale na edição 3. O ano era o de 2006, e a Nigéria tinha decidido unilateralmente deportar Taylor, procurado por crimes de guerra e contra a humanidade. “Tivemos apenas três horas para organizar uma operação delicada. Era preciso enviá-lo imediatamente para o tribunal especial da ONU em Serra Leoa e garantir a paz na Libéria”, recorda-se. Histórias como tantas outras que poderá contar um dia quando tiver netos. Se bem que pela disposição do nosso “homem” civil no Haiti, esta poderá não ser sua última missão. *** Viva Rio marca presença Desde 2004, a ONG carioca Viva Rio participa de uma missão de paz no Haiti, primeiramente oferecendo uma consultoria ao programa de Desarmamento,Desmobilização e Reintegração (DDR) das Nações Unidas e, desde 2007, com a implementação do programa Honra e Respeito por Bel Air. O objetivo do programa é promover uma reabilitação urbana priorizando a segurança, o desenvolvimento e os direitos humanos da população. O Viva Rio conduziu a assinatura de acordos de paz, criou uma brigada de segurança, realizou pesquisas e implementou projetos, como, por exemplo, Água, Mulheres e Saúde, Gingando pela Paz e Lixo e Reciclagem, que buscam melhorar a segurança, a saúde e o desenvolvimento cultural no país. Educação,energia alternativa e saneamento básico serão algumas das prioridades no período de 2009-2011. No primeiro semestre deste ano, a sede do Viva Rio no Haiti será equipada com biodigestores, estruturas utilizadas para produzir energia e fertilizante a partir de matéria orgânica. O programa Honra e Respeito por Bel Air conta com apoio dos líderes das comunidades locais, da força de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), a Minustah, da Comissão Nacional de Desarmamento, Desmobilização e Reinserção (CNDDR), das tropas de paz do exército brasileiro, do Governo da Noruega e da Open Society Foundation. Originalmente publicado na Revista Plurale. *Jornalista e editora da Revista Plurale. E-mail: soniaararipe@plurale.com.br |