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perfil Mineiro e teimoso O educador Tião Rocha, fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, faz diferença e encanta platéias
Por Sônia Araripe*
Considerado um dos principais eventos de Terceiro Setor, a Conferência Internacional do Ethos 2009, realizada na semana passada, em São Paulo, exigiu fôlego redobrado da platéia formada por empresários, representantes do Terceiro Setor, educadores e jornalistas. Com intensa programação, dividida em quatro dias, iniciada de manhã e encerrada apenas no início da noite, era preciso selecionar e revezar-se entre encontros simultâneos. Como já conhecia um pouco do trabalho do educador popular, antropólogo e folclorista Tião Rocha, fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), achei por bem abrir mão de outros temas e participar da audiência chamada "Saberes necessários para a formação do cidadão: o desafio da Educação para uma Sociedade Sustentável”. Além do professor mineiro, também palestraram José Ernesto Bologna, psicólogo, e Lia Diskin, co-fundadora da Associação Palas Athena. “Precisamos contextualizar as informações, desenvolver senso crítico”, afirmou a co-fundadora da Associação Palas Athenas, destacando também a necessidade de uma boa alfabetização emocional. “Os neurologistas comprovaram que registramos nos primeiros anos de vida se estamos em um ambiente amigo ou hostil. Isto define muito de como nos relacionamos e vinculamos com os demais”. Assim, a melhor formação é a que gera um sentido de pertencimento, provocando mais comprometimento – capaz de gerar ações construtivas - e menos oportunismo. “Todos, praticamente, temos conceitos de como os outros deveriam ser. O que gera uma frustração enorme. O que podemos fazer é mudar a nós mesmos e, com isso, modificar a sociedade”, continuou José Ernesto Bologna, psicólogo. Segundo ele, a sustentabilidade como conceito amplo e bem explicado nos princípios da Carta da Terra é a nova utopia instalada na cultura atual. Chegou, então, a vez de Tião Rocha dar seu recado. O frio da tarde paulista exigia não apenas o inseparável chapéu – verdadeira marca registrada do antropólogo - mas também um bom casaco e cachecol. De pé, olho no olho com a audiência de cerca de 250 pessoas, o educador contou seu “causo”. No melhor estilo de seu “guru” Guimarães Rosa, como um homem do povo e não um homem dos saberes. “Sou Tião, Sebastião é meu apelido. Sou mineiro e teimoso, esta é minha sina”, iniciou sua palestra. Lembrou que poderia ter se aposentado do cargo de professor da Universidade Federal de Ouro Preto, mas, um dia, sabe-se lá o porquê, decidiu abandonar tudo e começar novo desafio. “Cansei da vida que levava. A escola não queria mais ouvir ou aprender, só dar o seu recado”, lembrou. A muito custo e persistência, conseguiu pedir demissão. “A senhora da secretaria disse que ninguém nunca tinha abandonado a estabilidade do emprego público nesta universidade. Fiz uma carta de próprio punho e fui seguir a vida. Espero que o tal documento para pedir o desligamento já exista”, brincou. Por seguir a vida entenda-se espelhar-se no modelo de seu outro “mestre”, o educador Paulo Freire, e criar uma escola sem paredes ou modelos pré-estabelecidos. “Começamos a ensinar debaixo da mangueira.” Voltou-se para as comunidades carentes do Vale do Jequitinhonha, no nordeste do estado, um dos piores IDHs do país, região que engloba, ao todo, 49 municípios. No seu cartão de visitas, o símbolo de uma frondosa mangueira não deixa cair no esquecimento este início e a missão. E já se vão 25 anos. Hoje, além da ação no Jequitinhonha, também há projetos voltados principalmente para a Educação e Desenvolvimento Sustentável no Espírito Santo, Bahia, São Paulo e Maranhão, assim como em além mar, em Moçambique e Guiné Bissau. A partir do que idealizou, em 1984, o recém-saído professor da Universidade escreveu tudo o que não gostaria que o novo desafio se transformasse. Mostrou e enviou para alguns representantes do Terceiro Setor, assim como para um dirigente da influente Fundação Kellog. Recebeu um retorno surpreso do especialista, de idéia exótica, explicando que aquilo era “um não-projeto”. Mas prometendo parceria e apoio, quando Tião conseguisse formatar em proposição. “Montamos nosso projeto, ganhei um amigo de toda vida e apoio inicial para começar o CPCD.” Mineiramente, com fala mansa, Tião foi proseando e encantando a platéia atenta da Conferência do Ethos. Lembrou que a escola atual tem sim um imenso desafio para tornar-se cativante, interessante para os jovens. O modelo educacional, advertiu, não é capaz de atender a um mundo em transformação. “Temos de primeiro desaprender”, destacou. E completou que uma boa educação só se faz com bons educadores e “bons educadores são aprendizes permanentes”. Algo que ele lamenta ver cada vez menos. Professores com vontade de ouvir, de dialogar. A fase da educação por "empurraterapia" parece, na opinião do palestrante, estar chegando a um impasse. Questionado por uma educadora presente ao encontro, preocupada com o desinteresse e apatia de seus alunos, o fundador do CPCD foi enfático: “Só tem um jeito: Paulo Freirar”. E todos entenderam o recado. A aprendizagem depende de pessoas, reforçou o educador e para que haja educação são necessárias no mínimo duas pessoas, mas que seja é plural entre eles. O lugar, o onde importa pouco, completou Tião. “O contrário não implica que precisa sair da sala e colocar 40 meninos na fila, repassar muitas informações e ele tem que aprender porque é obrigado, então fica uma ficção. A escola finge que ensina, o aluno finge que aprende o estado finge que paga, e ficamos fingindo que possuímos cidadania.” O maior orgulho do trabalho desenvolvido ao longo destes anos, frisou, foi não ter perdido mais jovens para o trabalho forçado na colheita da cana-de-açúcar em São Paulo. Como esses municípios de atuação têm pouca atividade econômica, os jovens costumavam ser recrutados para cortar cana em cidades do interior paulista. Hoje, a realidade é outra. Foram criadas novas oportunidades para a garotada, como em informática e em atividades culturais. “Só perdemos três jovens, um para o Balé de Bolshoi, em Joinville, e dois para a Escola de Música Bituca (patrocinada por Milton Nascimento, em Barbacena)”, disse, feliz da vida. O CPCD criou não só uma nova forma de educar, mas também conquistou parceiros de peso, como a Fundação Avina, Ashoka e Fundação Banco do Brasil, Governo de Minas e Unesco, para lançar as bases para o desenvolvimento sustentável na região. Tião Rocha é figura lembrada no cenário nacional e global. Ganhou, em 2007, o Prêmio Empreendedor Social da Fundação Schwab e Folha de São Paulo, dentre tantos outros prêmios. Em Araçuaí, município de cerca de 40 mil habitantes, a 678 quilômetros de Belo Horizonte, foi criado um grupo coral de meninos cantores. Invenção do teimoso Tião Rocha e da talentosa Regina Bertola, diretora artística do grupo teatral Ponto de Partida. Jovens de sete a 14 anos, tão talentosos que acompanham ninguém menos do que Milton Nascimento em vários shows. Tive o privilégio de assistir a dois deles. Nunca mais esqueci. A vibração e talento dos jovens são mesmo de arrepiar. Parecendo mais um mágico das metáforas, Tião Rocha falou para a audiência que já é hora de transformar TICs em TACs. E explicou: “podemos transformar TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) em TACs (Tecnologias de Aprendizagem e Convivência) e olhar comunidades não pelos seus IDHs, mas sim por seus IPDH – Índice de Potencial de Desenvolvimento Humano”. Para encerrar o debate, o presidente do Instituto Ethos, Ricardo Young, pediu que cada um dos palestrantes falasse uma frase que servisse de inspiração para os presentes ao longo do ano de 2009. Lia Dislin citou Confúcio, o psicólogo Bolonha foi de Freud e chegou, então a hora de Tião. Lembrou que gosta de conversar com gente como ele, do povo. E nada melhor do que frequentar a feira de domingo. Assegurou ter ouvido a máxima em roda de amigos mineiríssimos como ele. Um amigo queria ouvir uma definição boa para o sentido da vida. O compadre pensou e disse de sopetão: “A vida é um sutiã”. A plateia ficou muda, aguardando o desdobramento, a explicação. Como se estivessem todos embaixo da mangueira, que, um dia, inspirou a criação do CPCD. “Sutiã", explicou o educador, "porque é preciso meter os peitos. Eu faço isto todos os dias. Meu sutiã é tamanho 64.” A audiência veio abaixo, com cerca de dois minutos de entusiasmado aplauso. *Jornalista e editora da Revista Plurale. E-mail: soniaararipe@plurale.com.br |