Edição 127 - Aracaju, 26 de julho a 23 de agosto de 2009
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  música
Uma brasa, mora?
Show de Roberto Carlos no Maracanã empolga e mostra um retrato da tradicional família brasileira

Texto e foto: Sônia Araripe*

O estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, palco de tantas decisões históricas do futebol, esteve diferente no último dia 11 de julho. No lugar de torcedores fanáticos, senhorinhas saltitantes. Também senhores grisalhos, centenas de jovens, até crianças: um verdadeiro retrato da tradicional família brasileira. 

Excursões de diferentes pontos, algumas de lugares distantes como Carangola (Minas) ou até de Goiás. O trânsito ficou um pouco confuso, com tantos ônibus fretados, vans, táxis, carros e a turma que achou mais prudente ir de metrô. Mas sempre um movimento muito pacífico e ordeiro. Lá dentro do estádio estava tudo pronto para uma noite: o motivo de tanta festa era a comemoração dos 50 anos de carreira de Roberto Carlos. 

Isso, 50 anos de “estrada”. As eternas rivais do rádio, Emilinha e Marlene, chegaram lá. Sem luxo ou festa. Vinícius de Morais e seu amigo Tom Jobim não tiveram igual sorte. Pouquíssimos tiveram tal privilégio, podendo festejar com um público tão fiel, que lotou o megashow em palco armado em uma das principais arenas esportivas do mundo, o Maraca. Frank Sinatra esteve também no mesmo gramado, mas, apesar da genialidade, não era uma jabuticaba verde e amarela. O fato é que o Rei RC chegou lá e preparou uma tremenda produção para agradar da adolescente até a sua vovó. 

Foi uma noite para todos os gostos. E bolsos. Quem se antecipou conseguiu comprar ingresso por R$ 20 para arquibancada. Em poucos dias todos esgotados. Até mesmo os mais caros. Os vips puderam desfrutar da mordomia de camarotes organizados pelos patrocinadores – Nestlé e Itaú – com direito a bebidinhas e acepipes. Estavam lá, nas filas do gargarejo, os atores globais (como Tony Ramos, Dira Paes, Victor Fasano, Susana Vieira, Deborah Secco e uma lista interminável), cantores (Rosemary, Fafá de Belém, entre outros), jornalistas, empresários etc. A turma da geral, como dizem os locutores esportivos, não estava nem aí para os luxos e mordomias. Em filas pacíficas para ocupar aos poucos o estádio. Os organizadores calculam que o público chegou a 68 mil pessoas. 

Com apenas 10 minutos de atraso, às 21h40, o show começou. Roberto chegou de calhambeque, azul, sua cor preferida. A platéia veio abaixo. “Lindo”, gritavam as duas senhorinhas de faixa na testa com o nome do rei escrito em purpurina dourada. Algumas pulavam, abriam os braços como se pudessem, de longe, abraçar o ídolo. E ele retribuiu. Dentro de um discreto terninho branco com lenço colorido na lapela, abriu a noite com Emoções, Detalhes e aí deu uma pausa para conversar com o público. Confessou que lá em Cachoeiro de Itapemirim (ES) - onde nasceu, em 19 de abril de 1941, cantou pela primeira vez na rádio aos nove anos e era conhecido como Zunga, o quarto filho, caçula de Dona Laura e o relojoeiro Seu Robertino - jamais poderia imaginar que estaria ali, no Maracanã, cantando para tantos. “Se este for um sonho, por favor, só me acordem no fim”. E agradeceu tantos anos de fiel amor do público. “Amo vocês”. 

Seguiu a noite com sucessos inesquecíveis, como Além do Horizonte, Aquela Casa Simples, Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo e Lady Laura. A mãe, na primeira fila, emocionada. Ao fundo um telão imenso, mostrando imagens antigas dos tempos da Jovem Guarda, de Cachoeiro, de antigos shows, de especiais de fim de ano, flores, pássaros etc. Tudo muito alegre, muito moderno. A chuva, que ameaçava cair desde cedo, finalmente desabou. Muitos tinham capas de chuvas dadas pelos patrocinadores, outros tinham comprado nos camelôs. Os menos precavidos tentaram se abrigar em cadeiras laterais, que tinham sido excluídas da venda porque não davam tanta visibilidade. O show – televisionado ao vivo pela Globo – precisou ser momentaneamente interrompido. Apesar da estrutura do palco, a chuva também molhou instrumentos e músicos, regidos pelo maestro Eduardo Lages, há 35 anos acompanhando o Rei. 

Dez minutos depois RC voltou com novos sucessos. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma marca de quem nunca se engajou diretamente em movimento políticos; ao menos apoiou o amigo Caetano, no exílio de Londres, com seus “caracóis do seu cabelo”, que os censores da ditadura não entenderam.  E teve também a fase romântica, de Amada Amante, Os lençóis, Do fundo do meu coração (se justificando pelo momento difícil quando fez a letra “acabe com esta droga de uma vez, não volte nunca mais prá mim”), Eu te amo etc. As fãs choraram. 

Foi ao som de Amigo que entrou no telão a imagem do parceiro de toda a vida, Erasmo Carlos, o “Tremendão”. Do camarim, contou como a amizade dos dois era longa e sincera. “Falo daqui porque não sei se conseguiria te dizer isso daí, pertinho”, justificou o já coroa do alto de seus quase dois metros. Juntos, no palco, se abraçaram, emocionados. Uma brasa, mora? 

Roberto contou um pouco mais da importância do lirismo de Erasmo para que estes 50 anos sejam de tanto sucesso. Ambos Carlos, irmãos por escolha, poetas desta estrada da vida. A dupla compôs mais de 500 músicas, sucessos de todos estes anos. Que embalaram amores, desamores, alegrias e tristezas. A dupla é, sem dúvida, a trilha sonora da família brasileira. Roberto contou que certa vez Erasmo ligou e mandou ele abrir a janela: há vários anjos aí na frente, disse o Tremendão. Noutra vez, Erasmo ligou e disse: Natal, Feliz Roberto Carlos para você! - em uma alusão aos tantos especiais no Natal com que o rei sempre nos presenteou. Ali, juntos, o parceiro arrematou, “Podemos dizer que  hoje esta cidade é Roberto de janeiro”, como se o Rio ontem fosse todo dos súditos do rei. 

Em seguida, chegou a irmãzinha da turma, Wanderléa. De minivestido de lantejoulas douradas, botas imensas que deixavam aparecer as belas pernas, de dar inveja ao público feminino. Uma garota papo firme e de pernas também bem firmes. Tantos anos não fizeram efeito para Wanderléa, firme e forte. Inteiríssima aos 6 ponto 3. Aliás, o astro da noite também estava em ótima forma: máquina 6.8, com jeito de quem está malhando, fazendo musculação, puxando ferro, como diz a garotada. Cantaram juntos Ternura, música que ajudou a batizar a cantora como “Ternurinha”. A chuva insistia em apertar. Um port-pouri de velhos sucessos da Jovem Guarda, como É proibido fumar, Pare agora, 120... 150.. 200 km por hora, Splish splash etc. 

Quando vi Júlia, filha da amiga Nadja, na flor de seus 20 anos de idade, animadíssima, vibrando com sucessos que ouvi muito criança, dos tempos da minha babá Marlene, conterrânea de Cachoeiro como o rei, percebi que não tem nada igual. Roberto, Beto, Rei, Zunga, ou como for chamado, é universal. Transversal, genial. Gostem, ou não gostem. 

No fim, todos já inebriados, veio um hit da família brasileira, Jesus Cristo. Cantado alto e em bom som, como se o Maracanã todo estivesse rezando. E, para encerrar, É preciso saber viver. Finalmente chegou a hora de beijar e jogar as rosas para o público. Sempre sem espinhos, 12 dúzias ao todo. Uma verdadeira máquina de beijar as flores: afinal, são 50 anos de experiência, no mesmo ritual. As vovós se engalfinhando para levar um recuerdo para casa. As  mais sortudas comemoravam como se fosse um troféu. Roberto, emocionado, abriu os braços e fingiu que estava jogando também o seu coração para o público. O Cristo Redentor aprovaria. Uma chuva de fogos marcou a noite. Sem dúvida, uma brasa. 

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As letras de vários sucessos de Roberto Carlos e Erasmo podem ser acessadas clicando aqui.

*Jornalista e editora da Revista Plurale. Cresceu ouvindo Roberto Carlos, por causa da babá Marlene, também nascida em Cachoeiro de Itapemirim. E-mail: soniaararipe@plurale.com.br