Edição 128 - Aracaju, 23 de agosto a 20 de setembro de 2009
_______________________________________________________________________________________________________________


 

  perfil
Sérgio Vieira de Mello, um conciliador
Seis anos após o atentado que matou o Alto Comissãrio da ONU em Bagdá, conheça os bastidores da sua última entrevista

Por Sônia Araripe*
Foto Divulgação

Entre aquele triste agosto de 2003 e agora já se passaram seis anos. Muitos fatos aconteceram desde então. Jamais alguém poderia imaginar que aquela longa e sincera entrevista concedida por telefone, de sua sala em Bagdá, durante cerca de 40 minutos, seria a última concedida pelo carioca Sergio Vieira de Mello. Filho de diplomata, sonhou ser possível trabalhar pelo fim de conflitos, buscando a paz e a união entre diferentes povos. O Alto Comissário de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) era, sem dúvida, um grande conciliador, dos melhores.

Quis o destino que eu fosse a portadora de suas expressivas e impressionantes últimas palavras. Reveladoras até mesmo para a família. Só para citar um exemplo, Dona Gilda Vieira de Mello nos contou que o filho, como ela, não era muito apegado à religião. Na entrevista, porém, ele disse, lembrando um dito popular, que, por ser brasileiro, Deus o protegia. Publicada em um domingo de agosto, dia 17, apenas dois dias depois, um atentado a bomba mudou os rumos desta história: a explosão de um carro bomba na sede da representação da ONU no Iraque matou não apenas Vieira de Mello, aos 55 anos, mas também outros 21 companheiros de trabalho. O que parecia um testemunho de crença na paz e na boa fé dos homens transformou-se em tragédia.

Recentemente, a Assembleia Geral das Nações, atendendo pedido da família de Sergio, definiu que o dia 19 de agosto será o Dia Mundial Humanitário. A primeira mulher de Sergio, a francesa Annie, junto a seus dois filhos, criou uma Fundação Sergio Vieira de Mello, com o objetivo de homenagear os verdadeiros heróis que praticam trabalhos humanitários em diferentes regiões do mundo. De acordo com dados da ONU,  nos últimos dez anos, 700 trabalhadores humanitários perderam suas vidas em ação. 

Quando sofreu o atentado, Sergio já estava praticamente separado e vivia uma intensa paixão há quase dois anos com a argentina Carolina Larriera, também funcionária da ONU, sua fiel escudeira em Bagdá. Se conheceram no Timor Leste, onde ambos serviam em busca da paz. Tinham a mesma missão e compartilhavam hábitos e rotinas: gostavam de praticar cooper, apreciavam música, liam livros de bons autores, mas, principalmente, dividiam o compromisso com o bem estar da humanidade.

Foi Carolina quem completou a ligação telefônica no dia marcado para a entrevista, nos atendendo, simpática e cordial. Após quase seis meses de tentativas frustradas, contando com a ajuda de amigos em comum de Vieira de Mello, a entrevista iria finalmente acontecer. “Você me desculpe. É que o tempo é curto. E temos um trabalho intenso. Preciso ser breve”, justificou, cordial o entrevistado. 

Não foi breve. Logo de cara cometi uma gafe: chamei-o de embaixador. Ele corrigiu, explicando que não tinha seguido carreira no Itamaraty por um motivo forte: seu pai, embaixador, tinha sido cassado. Assim, depois de estudar no Brasil e na França, onde formou-se em Filosofia pela Sorbonne, Sergio tornou-se funcionário de carreira da ONU. Refeita da gafe, corrigi dizendo que nós, brasileiros, tínhamos orgulho de ter um “superembaixador” como ele, alguém que trabalhava pela paz, pela conciliação de forças sempre tão distintas. 

Foi em clima descontraído que Vieira de Mello conversou durante o que me pareceram depois de transcorridos infinitos minutos. Explicou que o tempo era curto, pois tinha uma equipe da emissora de televisão árabe, Al Jazeera, aguardando ser atendida. Ponderei que eles poderiam esperar um pouco: afinal, aguardamos longos meses para conseguir aquela ligação. Ele riu. E foi respondendo, simpático e bem preparado todas as perguntas. 

Felizmente, o que não é o meu costume, fiz um roteiro das perguntas. Isto ajudou a “cobrir” diferentes temas. Não só os corriqueiros, os da vida pessoal, mas também vários questionamentos que ajudaram a relatar como é a vida em um país devastado por anos sucessivos de guerras. O entrevistado contou, com detalhes, como era o trabalho neste verdadeiro campo minado. Literalmente. Não era missão nova para o experiente Alto Comissário da ONU. Antes de chegar à Bagdá – aceitando um pedido pessoal do amigo Kofi Anan, na época, secretário-geral da ONU – Vieira de Mello esteve em missões espinhosas como na África (Angola, Ruanda e Moçambique), no Leste Europeu (Bósnia e Kosovo), na Ásia (Cambodja) e mais recentemente no Timor Leste. Por onde passava deixava amigos, companheiros de estrada. O presidente do Timor, Xanana Gusmão, era um deles. 

Confira a entrevista clicando aqui. Nos despedimos quase como “velhos” amigos. Certos de que um dia, em breve, iríamos ainda compartilhar, ao vivo, outras tantas histórias. Vieira de Mello não iria continuar em Bagdá por muito tempo: em 2004 estaria de volta à Genebra. Esperava voltar ao Rio para visitar a mãe, irmã e sobrinho. 

No domingo, dia 17 de agosto de 2003, Dona Gilda, mãe de Sergio, leu a reportagem completa e se emocionou. Confessou, mais tarde, que sentiu um certo aperto no coração de mãe ao ler algumas palavras do filho. “Mãe sente”, revelou, algum tempo depois do atentado. Ela há muito tempo não via o filho, pouco afeito aos flashes da mídia e tão ocupado com o dia a dia, falar tanto. E de forma tão reveladora. 

Na terça-feira, apenas dois dias após a publicação da entrevista, mal acreditei quando soube do atentado ao Hotel Canal, onde a equipe da ONU havia montado um verdadeiro quartel-general. Estava na redação do jornal e as imagens da CNN não deixavam dúvidas. O atentado havia tirado a vida do meu novo herói, do meu novo/velho amigo, alguém que nunca teria a chance de conhecer. Mais difícil ainda foi ver a imagem de Carolina, desesperada, sobrevivente da tragédia. 

Entre chocada e triste era preciso exercer a função de jornalista. Contar alguns detalhes antes não revelados na entrevista, procurar a família.... Relatar, noticiar. Assim tem sido desde então. 

Conheci a família de forma mais dolorosa, no funeral. Depois os visitei, fiquei ainda mais próxima de Dona Gilda, mãe de Sergio, de seu sobrinho, André Simões e de Carolina. Nos falamos com frequência, Dona Gilda e André fizeram questão de comparecer no lançamento de Plurale em revista, há dois anos. Somos solidários na dor, na saudade e na vontade de manter o pensamento de Sergio vivo.

*** 

Principais trechos da entrevista com Sergio Vieira de Mello em agosto de 2003 

“Gosto do que faço. Acho que tenho uma missão no mundo.” 

“Não fiz prova para o Itamaraty por um motivo forte. Cassaram meu pai em 1969. Não faria sentido seguir essa carreira.” 

“Tenho duas garantias, dois coletes à prova de bala, digamos assim. Deus é brasileiro e procuro estabelecer boas relações com todas as partes envolvidas no conflito.” 

“Faço meu trabalho tranqüilamente. Não sou um aventureiro, um caubói. Tomo precauções. Tenho cuidado. Apesar das missões que já realizei, cá estou. Passei perto de situações críticas. Devo ter nascido sob uma estrela favorável.” 

“O importante em nosso trabalho, o essencial para ser considerado um verdadeiro parceiro, independente e imparcial, é justamente estar aberto ao diálogo com o leque completo da sociedade. Inclusive daquelas forças do mal. É nesse diálogo que vamos nos transformando em uma espécie de ponte, de elo, de laço.” 

“Reconstruir o Iraque é um trabalho de andar para frente e para trás, todos os dias. Há sabotagens nas obras que estão sendo feitas na rede elétrica e em todo o país. Bagdá ainda é um lugar muito perigoso. Ninguém passeia aqui. Há assaltos e crimes.” 

*Jornalista, Editora de Plurale em site e Plurale em revista. E-mail: soniaararipe@plurale.com.br