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música Bossa eterna O musical Tom & Vinícius enche os olhos e encanta os ouvidos
Por Sônia Araripe*
Como os dois atores principais não têm dotes musicais, a solução encontrada foi espetacular: um coro de músicos de dar nó em pingo d`água canta e conta toda a narrativa musical. Thelmo Fernandes, interpretando o Poetinha e Marcelo Serrado como o Tonzinho, apelido dado pelo parceiro de boemia e de toda a vida, estão irrepreensíveis. Marcelo chega a enganar no piano e Thelmo é tão convicente que alguém mais distraído pode voltar ao tempo e querer, ao fim, pedir autógrafo para o diplomata que fez história como um dos melhores letristas brasileiros. Acompanhando a obra, há um conjunto de músicos ao vivo, jovens tocando Bossa Nova, da melhor qualidade. E esta genial história vai sendo “desfiada” como novelo musical nos principais sucessos da dupla. Como as que marcaram a estreia de tão duradoura parceria, parte da trilha da peça Orfeu da Conceição - “Eu e meu amor” e “Lamento no morro”. Surgem personagens que foram decisivos nesta trajetória, como Dolores Duran, Elizeth Cardoso, a Divina, Haroldo Costa, Frank Sinatra e tantos outros. A claque vibra diante da galhofa dos dois bem humorados amigos. Vinícius confessa para Tom que não se conforma de não ter conseguido dormir com Elizeth. E insiste com o amigo: “Você não comeu a Elizeth, comeu?” Tom, cândido, garante que não. O coro musical se reveza na interpretação musical de cada um destes astros. E outros tantos personagens envolvidos nesta narrativa: como as várias mulheres de Vinícius, a turma da praia etc. “Dia de sol, festa de luz, e o barquinho a deslizar.” Inebriado, o público cantarola. “Eu sei que vou te amar por toda a minha vida” embala os casais eternamente apaixonados. No lugar dos inconvenientes celulares (felizmente todos desligados) alguém poderia sacar a sua Rolleiflex e registrar o momento. Nota 10 para os figurinos da peça, assinados por Marcelo Pies. Destaque em várias produções recentes, Pies criou 150 figurinos e acessórios especialmente para esta produção. Uma riqueza de detalhes, prova de bom gosto. “Vi” a minha mãe e outras tantas senhoras, em Ipanema, anos 60, com aquele tipo de maiô recatado que deixaria rubras as mocinhas da capa das revistas masculinas hoje, com um fio dental que não cobre nada. E o meu pai – assim como toda sua geração – abafando com camisas La Coste ou de linho, manga curta, com bordado em galão. Tudo no lugar. Lembrei dos Zippos que o pai abria com um estalar de dedos (felizmente deixou de fumar há 20 anos depois de toda uma vida). Aliás, para dar um toque realmente intimista e verdadeiro, os dois atores principais fumam, de verdade, quase o tempo todo da peça. Um bar é montado várias vezes em cena. Entra o garçom com a mesa, o vinho, as taças de champanhe.... até comissárias da antiga Panair também aparecem para ilustrar a ida de Tom Jobim para o famoso show do Carnegie Hall. Não falta realmente nada. Por cerca de duas horas, tem-se a impressão de termos cruzado o túnel do tempo. E que, a qualquer momento, Nara Leão pode aparecer para se juntar à turma.
As
biografias dos astros são respeitadas, mas sem muita preocupação em entediar
o público, contando apenas a vida e sincera amizade dos dois. É um leitura
do melhor de cada um dos dois geniais músicos/compositores/poetas e também
uma releitura dos motivos que explicam o porquê aquela época da Bossa Nova
tanto marcou a História. Os figurinos finais, homenageando a dupla, todos em
preto e branco, com toques musicais, são um fecho de ouro. *Jornalista, Editora de Plurale em site e Plurale em revista. E-mail: soniaararipe@plurale.com.br |