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crônica Um dia de doutora Repórter foi confundida com uma advogada, durante uma audiência envolvendo a socialite Carmem Mayrink Veiga
Por Sônia Araripe*
Quando criança é comum se ter dúvidas entre ser médico e engenheiro. Nas extremidades das diferenças mesmo. Ou entre ser piloto de avião ou a tranquilidade de passar os anos como dono de pousada na beira da praia. Sabe-se lá. Quis o destino que nunca tivesse dúvida: queria ser jornalista desde sempre. E exercitava primeiro com lápis e caneta para depois andar abraçada com uma pequena máquina de escrever vermelha, portátil, produzindo dúzias de cartas, poesias e “jornais” imaginários que nunca foram publicados. Não foi fácil o início. Nem pensei que seria de outra forma. Trabalho duro como estagiária em pequeno jornal de bairro, sem ganhar nada, apenas para ter a experiência mesmo. Depois um estágio já remunerado, de carteira assinada em assessoria de imprensa. Outro em jornal médio, especializado em economia e pronto, era hora da formatura, registro de jornalista oficial e decidir os rumos dali para a frente. Felizmente contei com a simpatia de generosos editores. Após três anos trabalhando em matérias de Economia em jornal especializado, fiz teste para o Jornal do Brasil em 1987 e, quando me dei conta, já estava trabalhando como repórter de Economia. Acompanhava o sobe-e-desce do mercado acionário. Nesta época, a área financeira era tão forte que tínhamos uma equipe dentro da Editoria de Economia de cinco pessoas. Uma só para cobrir a bolsa de valores, outra para a área de open market, mais uma para bancos, um profissional em empresas abertas e a subeditora. Enfim, uma verdadeira entourage! Curiosa que só – ou atrevida, como queiram – fui, aos poucos, me enfronhando também em outros temas. Afinal, bolsa de valores também tinha ligação com empresas, com negócios, com executivos, com macroeconomia.... e, quando me dei conta, estava fazendo matérias dos mais diversos assuntos da editoria. Não satisfeita, alguns anos depois, ainda no glorioso JB dos melhores tempos, comecei a me enveredar também em outras “searas”. Se soubesse que um jogador de futebol do momento gostava de ações, lá ia atrás para entrevistar. E por aí foi seguindo a vida. Alguns anos se passam e sou escalada para acompanhar a derrocada dos negócios principalmente na parte bélica de Antônio Mayrink Veiga, marido da socialite Carmen Mayrink Veiga. No auge da crise, sem ter como pagar as volumosas dívidas da empresa Mayrink Veiga, a Justiça determina arresto no apartamento milionário, assim como os pertences caríssimos, que eram a garantia dos empréstimos. A tentativa era de evitar o pior: ficar sem todos os bens. Era o grande tema do momento. O rumoroso caso vai parar em audiência na Justiça. A imprensa toda foi cobrir. “Mineira”, não de certidão, mas por precaução, resolvo chegar bem mais cedo que a hora marcada da audiência no Fórum do Rio de Janeiro. Por pura obra do destino, achei por bem estar apropriada para a ocasião: terminho com saia recatada, salto alto e pasta de couro. Afinal, não é todo dia que se tem a chance de acompanhar uma pauta destas. Carmen - nascida na pequena Pirajuí (SP), em 1929, Carmen Therezinha Solbiati - é até hoje, mesmo uma senhora de 82 anos, figura que ainda abre salões, de uma elegância e uma classe invejável para as emergentes siliconadas. Dona de uma beleza ímpar, circulou no jet set internacional e foi retratada por ninguém menos do que Portinari e Di Cavalcanti. A intenção ao chegar mais cedo era tentar conseguir algum diferencial da concorrência jornalística. Uma conversa aqui, um bastidor acolá. Mas, qual não foi a minha surpresa quando, ao chegar no local da audiência, o segurança foi logo me convidando a entrar na sala de audiência. “Boa tarde! A doutora deve entrar logo porque isso hoje vai ficar cheio de jornalistas e o juiz não gosta de tumulto na sala.” E já foi me encaminhando para a sala onde aconteceria a audiência. Em um misto de excitação e apreensão, fiquei com receio que pedissem carteira, comprovante de que era mesmo advogada. Nada. Com os verdadeiros doutores magistrados chegando na pequena sala, passei despercebida. O “disfarce” não intencional caiu como uma luva. Foram cerca de duas horas de uma audiência inesquecível. Carmen levou suas testemunhas, os credores – o principal era o Banco do Brasil – também os seus. Discreta, anotei apenas as principais falas, procurando guardar na cabeça os principais detalhes que fariam toda a diferença ao fim. Quando a audiência terminou, ainda fiquei alguns minutos dentro da sala, procurando disfarçar tanto dos “colegas” advogados quanto do comboio dos verdadeiros colegas jornalistas do lado de fora. Não teve jeito. Precisei também sair para cobrir o fim da “novela”. E aí, os dois lados descobriram que tinham sido traídos: os advogados viram que a jovem no fim da sala não era colega e os jornalistas perceberam que eu estivera infiltrada na audiência. Fui sincera com Carmen e falei que precisava ouvi-la sobre o que tinha visto e ouvido lá dentro. Ela não quis falar mais nada. A reportagem saiu na primeira página do JB no dia seguinte. O único com todos os detalhes. Alguém poderá dizer que foi falso testemunho, que entrei mentindo ou coisa parecida. Qual nada. Foi um caso típico em que o hábito fez o monge. E também história. *Jornalista, trabalhou no Jornal do Brasil por cerca de 12 anos, entre diferentes épocas. Editora de Plurale em revista e Plurale em site, com foco em Sustentabilidade. E-Mail: soniaararipe@plurale.com.br |