|
|
|
|
|
livros O pinguim da geladeira Contos trazem as deliciosas recordações do subúrbio
Por Sônia Araripe*
Os bronzeados e tão bem fornados da Zona Sul carioca que me perdoem. Mas bom mesmo é o subúrbio. Isso, o legítimo e autêntico, da cadeira na porta para bater papo com vizinho – aproveitando para fofocar a vida alheia – do pastel gorduroso na feira, acompanhado de um bom caldo de cana feito na hora, da pelada em campo de rala-côco aos domingos, pipa no ar, bola de gude, e, é claro, pinguim em cima da geladeira. Nada contra esta gente morena e saudável andando no calçadão do Leblon ou de Ipanema. Quiçá da Barra da Tijuca, Eldorado de plantão, Miami tupiniquim. Mas é no encalorado - e muitas vezes empoeirado – subúrbio, que se encontra o verdadeiro espírito carioca. Do samba de raiz, da empada de comer esfarelando (sem falar ao mesmo tempo, por favor), da cerveja nem sempre gelada, da senhora com bobs na cabeça, mesmo se o lenço teimar em deixar aparecer, da vaquinha para o presente e por aí vai. Ah! E tem o pinguim de geladeira. Tive a sorte - ou nem tanta - de ser caçula dos dois lados da família. Raspa de tacho, mal tive tempo de conhecer os avós. Assim, não me lembro se na casa da minha avó paterna tinha um pinguim em cima da geladeira. Acho que não .... Ela gostava de um bibelô, mas cozinha não era lá o seu forte. Gostava mais dos livros, do xadrez, de um bom papo. Num ponto a memória não falha: lembro de ter convivido na minha infância com vários destes verdadeiros troféus por onde passei. Em várias casas. Na nossa não tinha. A geladeira era daquelas antigas, quase feito uma bolha grande. Mas pinguim não tinha. Em casa de família remediada da Tijuca, isto já era um apetrecho cafona. Aliás, alguém ainda fala cafona? Caiu no esquecimento, num é? Mas me lembro bem do pinguim que encontrei pela primeira vez na casa da avó do meu marido. Que ficava no ... Cachambi, em pleno subúrbio, redondezas do Méier. Como convivemos muito, passei a “adotá-la” como avó. Portanto, na casa da vó emprestada também tinha um pinguim. Lembro também de outro clássico suburbano: os retratos na parede da criançada em diferentes poses, fingindo que falava ao telefone, com um brinquedo, etc.
Voltei para esta imagem ao ler o recém-lançado Oásis Azul do Méier, do jornalista Altamir Tojal (Editora Calibán, 104 páginas, R$ 20,00). A imagem da capa é uma delícia e já assegura parte do interesse pela leitura. Uma jovem, suburbana legítima, com tudo em cima, está na cozinha. Em primeiro plano, a geladeira branca e o pinguim. Não é mais a Frigidaire que tantas vezes abri prá fugir do calor do Cachambi, mas o bibelô é legítimo! Em uma subversão, parto direto para o conto que dá título ao livro. O que seria do mundo sem pequenas subversões? E qual não é minha surpresa ao me pegar lendo o livro todo de um só fôlego enquanto o sono não vem. Falando do mesmo subúrbio que tantas vezes visito ou visitei, encontro personagens que parecem saídos da vida real. Altamir entrecorta um texto de tirar o fôlego, com uma descrição de cenário incrível. Quase dá para sentir o lufar de Edgar, curioso e obeso mascate de bugingangas, que irá vender o pinguim macho para fazer companhia para a pinguim fêmea da sensual Marli. Ela, na flor da idade, com tudo em cima. Parece que dá para ver como a gostosona fala, anda.... Tem ainda a esposa de Edgar e o marido da Marli. Mas não vamos dar todos os detalhes para não estragar a curiosidade de quem sentirá vontade de conhecer o lançamento.
Além destes personagens, o pinguim - macho – está lá, solene, acompanhando, dando o tom e marcando a narrativa. Há outros contos saborosos e marcantes, como Bodas, Marcela, e por aí vai. São oito ao todo. Um livro curto, pequeno (contribuindo para a sustentabilidade, ao gastar menos papel), mas denso, marcante. Altamir Tojal é jornalista de ótima cepa, com passagens pelo Globo, Jornal do Brasil, Isto É e outras redações, tendo migrado há 25 anos no mundo da comunicação corporativa. Antes, já tinha lançado o romance Faz que não vê (Editora Gramond), encarou muito bem o desafio dos contos. Sugiro uma revanche. Um terceiro livro só de casos e causos sobre o subúrbio. Méier; Cavalcante (de onde vieram Sérgio Cabral, o pai e Sérgio, o filho governador); Del Castilho, Cachambi, Pilares, Engenho de Dentro, Riachuelo, Cascadura, Madureira, indo um pouco mais além, Quintino (do Zico), Campinho, Vila Valqueire e por aí vai. Tenho aqui na mesa um filhote de pinguim, pequeno, mas originalíssimo, presente dos amigos da Revista Piauí, que adotou o bichano como mascote. A turma da Piauí nem deve desconfiar. Mas ele, risonho, sempre de bom humor, certamente, é um legítimo suburbano. Assim como a minha alma. *Jornalista, nasceu na Tijuca, cresceu na Ilha do Governador, mas tem alma de suburbana. É Editora de Plurale em revista e Plurale em site, com foco em Sustentabilidade |