Edição 141 - Aracaju, 05 de setembro a 03 de outubro 2010
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  jornalismo
Sonho de uma geração
O Jornal do Brasil representou um momento áureo da imprensa no Brasil

Por Sônia Araripe*
Foto: Divulgação

Drummond escreveu que no meio do caminho havia uma pedra. No meu caminho havia um imenso bloco de concreto. Que representava um sonho de adolescência. Entre o curso pré-vestibular (no Centro do Rio) e mais tarde a Faculdade de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (na Praia Vermelha) e a casa, na distante Ilha do Governador, o ônibus cruzava a empoeirada Avenida Brasil. Nos tempos em que nem se sonhava com o trajeto mais rápido da Linha Vermelha.  

Quando a Avenida Brasil cruzava com o Cemitério do Caju, antes da Rodoviária, o ônibus fazia uma curva acentuada à direita. E ali, logo ali na frente, havia um imenso bloco de concreto. "Jornal do Brasil", informavam as grandes letras cromadas no alto do prédio. Ia no ônibus, dia após dia, sonhando com aquele prédio, com o que havia ali dentro, com as letras. Letras que enchiam o jornal dos meus sonhos. Textos que guardava em pastas para aprender como bem escrever. Sonhava acordada. E também quando dormia.  

Ser jornalista só faria sentido se, um dia, o destino permitisse que aquele prédio entrasse em minha vida ou vice-versa. Já formada, com alguns anos de experiência em estágios e na redação do Jornal do Commercio, especializada em Economia, um amigo me avisou que o Jornal do Brasil fazia uma seleção para vaga justamente na área financeira. Era preciso entender de Bolsa de Valores.  

- Você entende? -  me questionou o amigo.

- Um pouco, já fiz algumas matérias - respondi, firme para quem sabia pouco cotações, pregões e dividendos, mas também certa que era pegar ou largar.

No horário marcado estava lá para a entrevista. Dizem que a primeira impressão é a que fica. Ao entrar, pela primeira vez no prédio sede do Jornal do Brasil, moderno e ao mesmo tempo imponente, o que chamou a atenção foi o imenso pé direito. Como as rotativas precisavam de uma área com boa altura, equivalente a dois andares, os arquitetos aproveitaram a portaria já com este imenso vão. No canto do saguão, havia uma antiga rotativa dos tempos da impressão quente, como se dizia. Estava ali para lembrar a história de um jornal que soube fazer História com H maiúsculo.  

E lá estava a jovem jornalista, na flor dos seus 20 e poucos anos, aguardando ser chamada para entrar no que foi e sempre será um sonho. Foi entrevistada pelo subeditor de Economia, mostrou algumas matérias e deixou os contatos. A redação era imensa. Descobri, lá dentro, que o bloco de concreto, na verdade, era formado por dois prédios, germinados, ligados por pesadas portas corta-fogo.  

Era emoção demais. Ver nomes e pessoas que só sabia de ler. Estar dentro do que antes parecia apenas uma miragem. Pesada, é verdade, densa, mas uma miragem distante. Fui selecionada e comecei logo a trabalhar. Era 1987 e a Bolsa de Valores estava no auge. Foi preciso estudar muito, fazer cursos, contar com a imensa boa vontade dos mais experientes no jornal e de corretoras e bancos. A todos, a eterna gratidão.  

Os meses se passaram, a ansiedade foi se transformando em rotina. Mas volta e meia levava um susto. Zózimo Barroso do Amaral passando do meu lado. João Saldanha tomando lanche de tarde. Artur Xexéo dando gargalhadas mais a frente. Zuenir Ventura e Joaquim Ferreira dos Santos logo ali. Era difícil esconder o jeito de tiete. Um dia sucumbi. Luis Fernando Veríssimo, mestre dos mestres, que pouco aparecia e mandava seus textos de Porto Alegre, adentrou a redação. Estava acompanhado do também mestre Wilson Figueiredo, chefe dos editorialistas, uma espécie de braço-direito da família Nascimento Brito, proprietária do JB.  

Vinham passeando calmamente no corredor, bem junto da Editoria de Economia. Não resisti. Levantei e fui cumprimentar o Wilson. Fiz um aceno cordial para ver se ele entendia a deixa e apresentava a jovem foca ao ilustre colunista. Wilson entendeu a deixa e apresentou. Estiquei a mão, sorridente.  - Muito prazer! -. Veríssimo, entre atônito e perplexo com a cena, fez um afago na cabeça da jovem, como quem não acredita que jornalistas possam também ser tietes. 

Era assim a redação do JB. Nomes coroados, figuras profissionais e simpáticas compartilhando, dividindo, compactuando. Desta época também são Marcos Sá Corrêa e o pai Villas Boas Corrêa, Flávio Pinheiro, Xico Vargas, Miriam Leitão (minha primeira editora na Economia), Ruth de Aquino, Ancelmo Góis e uma constelação de estrelas. Na fotografia, outras legendas, como Evandro Teixeira, Orlando Brito, Hungria, Luiz Morrier, Michel Filho e tantos outros.

Na Arte, grandes artistas, pedindo mesmo a redundância: Liberatti, Ique, Nélio Horta, José Mira etc.  

Aprendi a editar e fazer títulos ainda nas antigas Olivetti. Mira ensinava que era preciso bater os pontinhos para contar as batidas dos títulos.  - 3 de 14 -, dizia. E lá ia eu, batendo três linhas de 14 toques.  -1 de 50 -, avisava quando era manchete de página. Tive a felicidade de ver várias das minhas matérias com esta medida. Na editoria e na primeira página.  

A troca das antigas máquinas de escrever pelos computadores foi uma cena incrível. Wilson não aceitou a princípio. Guardou sua máquina e se orgulhava feito troféu quando a rede toda caía e ele podia ainda bater o seu artigo do dia, enquanto a redação ficava de braços cruzados esperando a turma da informática consertar.  

Era divertido. Foi inesquecível. Causos e caos para livros e mais livros. Alfredo Herkenhof, secretário por anos, conta alguns em seu recente livro Jornal do Brasil – memória de um secretário – pautas e fontes e Regina Zappa, editora de Internacional, hoje escritora especializada em biografias como a de Chico Buarque, relata tantas outras no filme “Avenida Brasil, 500”. 

Fui repórter, repórter especial, editora e por fim editora-executiva. Não me lembro de ter deixado de fazer alguma matéria, de ter deixado de realizar algum sonho. Estão todos impressos. E o meu, o seu, o nosso Jornal do Brasil está tatuado em nossa pele. Não morre. Não morre, não. 

*Jornalista, trabalhou no Jornal do Brasil por três vezes, totalizando 14 anos. Foi repórter, editora de Economia e Editora Executiva. Atualmente é editora de Plurale em revista e Plurale em site, com foco em Sustentabilidade. E-mail: soniaararipe@plurale.com.br