Webjornal - Mensal  - Edição 86 - Aracaju, 15 de janeiro a 19 de fevereiro de 2006
_________________________________________________________________________________________

London London

Sorria, você está sendo filmado

A partir de 2006, a Grâ-Bretanha será o primeiro país do planeta onde cada trajeto de cada carro será monitorado

Por Roberto Ettinger*

Os cidadãos britânicos ficaram admirados e receosos com a principal manchete publicada nos jornais ingleses do dia 22/12/2005. A matéria da primeira folha do The Independent, por exemplo, trazia em letras grandes a mensagem VOCÊ ESTA SENDO VIGIADO e anunciava que a partir de 2006 entrará em funcionamento um sistema pioneiro de vigilância permanente através de câmeras espalhadas por todo o Reino Unido. 

As CCTV (sigla em inglês para Circuito Fechado de Televisão) já não é novidade alguma para os habitantes da ilha. Apenas na cidade de Londres as câmeras cobrem quase toda a área da cidade e adjacências, gravando 24 horas por dia o movimento de shopping centers, estações de metrô, trem, ônibus, parques, ruas, discotecas, boates e até mesmo a mais simples das mercearias que aqui são chamadas off-licence. O proprietário paga pela instalação e manutenção do equipamento, mas as imagens são entregues à polícia e inseridas em um gigantesco banco de dados. 

A revolução prometida nas reportagens seria tratada como ficção científica ou holywoodiana, se não estivesse prestes a acontecer: a partir deste ano, a maioria das já usuais câmeras instaladas em vias públicas serão trocadas por novos modelos, capazes de “ler” a placa de qualquer meio de transporte automotivo através de uma tecnologia chamada ANPR, e, através de satélite, reconhecer a procedência do mesmo, checar por multas ou taxas vencidas, boletins da polícia e de companhias seguradoras. 

O hiper banco de dados sediado em Hendon, norte de Londres, armazenará os dados de cada trajeto de cada veículo por 2 anos, a princípio. A tecnologia das novas câmeras é tão sofisticada que apenas uma delas pode cobrir várias faixas de uma rodovia e ler ao mesmo tempo dezenas de placas. O acesso aos dados armazenados no ANPR Data Centre é exclusivo apenas para a polícia, para casos de sua jurisdição, e do MI5, os serviços secretos, que pretendem com isso usá-lo como poderosa arma anti-terrorismo. 

A grande questão é que a maioria dos habitantes está receosa em relação a sua privacidade, que ficará certamente ameaçada assim que as ANPR começarem a “devorar” a maior quantidade de informações que puderem de qualquer veículo que passe em sua frente. Mr. Whitley, o comandante do projeto, afirmou na BBC que fará a maior publicidade possível sobre a nova tecnologia, já que o intuito dela não será amedrontar nem intimidar os milhões de transeuntes e motoristas que circulam pelas estradas, avenidas e ruas do Reino Unido, e sim confortá-los para que percebam a importância deste serviço. Mais ainda, Mr. Whitley afirmou que não demorará muito para que o Reino Unido estenda a tecnologia de reconhecimento de placas para reconhecimento de rostos, e não apenas algumas, mas TODAS as milhares de câmeras serão possíveis de traçar o paradeiro via satélite de qualquer pessoa dentro do território britânico. 

A sensação de ser observado não é das mais agradáveis, mas ao mesmo tempo garante um quê de segurança. Os relatórios da Metropolitan Police de Londres mostram com clareza que as câmeras são fundamentais no combate ao crime. Acredita-se que um transeunte padrão, que faz o trajeto casa-trabalho-casa, seja filmado cerca de 250 vezes. Nenhuma outra cidade do mundo tem a cobertura quase total como a capital inglesa; existe o caso de zonas cobertas, como em NY, ou até mesmo em bairros, como o de Copacabana, no Rio de Janeiro. 

A professora aposentada Margareth Shaw  demonstra certa indiferença ao fato. “Já estou acostumada, apesar de no começo ter sido difícil. Eu não me sentia à vontade na rua, me sentia vigiada.  Parecia que estávamos todos em um gigantesco Big Brother”, disse. 

E por falar em Big Brother... George Orwell publicou seu livro “1984” no ano de 1949. No romance, ele apresentava um futuro imaginário onde um Estado Totalitário controlava cada aspecto da vida, até mesmo os pensamentos das pessoas. O Estado era chamado Oceania e era governado por um grupo chamado “O Partido”. Seu líder e ditador era conhecido como Big Brother. Qualquer semelhança será mera coincidência.   

* Estudante brasileiro em Londres

                                 

(c) Todos os Direitos Reservados