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London London
Sorria, você está sendo filmado
A partir de 2006, a Grâ-Bretanha será o
primeiro país do planeta onde cada trajeto de cada carro será monitorado
Por
Roberto Ettinger*
Os cidadãos
britânicos ficaram admirados e receosos com a principal manchete publicada
nos jornais ingleses do dia 22/12/2005. A matéria da primeira folha do
The Independent, por exemplo, trazia em letras grandes a mensagem VOCÊ
ESTA SENDO VIGIADO e anunciava que a partir de 2006 entrará em
funcionamento um sistema pioneiro de vigilância permanente através de
câmeras espalhadas por todo o Reino Unido.
As CCTV (sigla em
inglês para Circuito Fechado de Televisão) já não é novidade alguma para
os habitantes da ilha. Apenas na cidade de Londres as câmeras cobrem quase
toda a área da cidade e adjacências, gravando 24 horas por dia o movimento
de shopping centers, estações de metrô, trem, ônibus, parques, ruas,
discotecas, boates e até mesmo a mais simples das mercearias que aqui são
chamadas off-licence. O proprietário paga pela instalação e
manutenção do equipamento, mas as imagens são entregues à polícia e
inseridas em um gigantesco banco de dados.
A revolução
prometida nas reportagens seria tratada como ficção científica ou
holywoodiana, se não estivesse prestes a acontecer: a partir deste ano, a
maioria das já usuais câmeras instaladas em vias públicas serão trocadas
por novos modelos, capazes de “ler” a placa de qualquer meio de transporte
automotivo através de uma tecnologia chamada ANPR, e, através de satélite,
reconhecer a procedência do mesmo, checar por multas ou taxas vencidas,
boletins da polícia e de companhias seguradoras.
O hiper banco de
dados sediado em Hendon, norte de Londres, armazenará os dados de cada
trajeto de cada veículo por 2 anos, a princípio. A tecnologia das novas
câmeras é tão sofisticada que apenas uma delas pode cobrir várias faixas
de uma rodovia e ler ao mesmo tempo dezenas de placas. O acesso aos dados
armazenados no ANPR Data Centre é exclusivo apenas para a polícia, para
casos de sua jurisdição, e do MI5, os serviços secretos, que pretendem com
isso usá-lo como poderosa arma anti-terrorismo.
A grande questão é
que a maioria dos habitantes está receosa em relação a sua privacidade,
que ficará certamente ameaçada assim que as ANPR começarem a “devorar” a
maior quantidade de informações que puderem de qualquer veículo que passe
em sua frente. Mr. Whitley, o comandante do projeto, afirmou na BBC que
fará a maior publicidade possível sobre a nova tecnologia, já que o
intuito dela não será amedrontar nem intimidar os milhões de transeuntes e
motoristas que circulam pelas estradas, avenidas e ruas do Reino Unido, e
sim confortá-los para que percebam a importância deste serviço. Mais
ainda, Mr. Whitley afirmou que não demorará muito para que o Reino Unido
estenda a tecnologia de reconhecimento de placas para reconhecimento de
rostos, e não apenas algumas, mas TODAS as milhares de câmeras serão
possíveis de traçar o paradeiro via satélite de qualquer pessoa dentro do
território britânico.
A sensação de ser
observado não é das mais agradáveis, mas ao mesmo tempo garante um quê de
segurança. Os relatórios da Metropolitan Police de Londres mostram com
clareza que as câmeras são fundamentais no combate ao crime. Acredita-se
que um transeunte padrão, que faz o trajeto casa-trabalho-casa, seja
filmado cerca de 250 vezes. Nenhuma outra cidade do mundo tem a cobertura
quase total como a capital inglesa; existe o caso de zonas cobertas, como
em NY, ou até mesmo em bairros, como o de Copacabana, no Rio de Janeiro.
A professora
aposentada Margareth Shaw demonstra certa indiferença ao fato. “Já estou
acostumada, apesar de no começo ter sido difícil. Eu não me sentia à
vontade na rua, me sentia vigiada. Parecia que estávamos todos em um
gigantesco Big Brother”, disse.
E por falar em Big
Brother... George Orwell publicou seu livro “1984” no ano de 1949. No
romance, ele apresentava um futuro imaginário onde um Estado Totalitário
controlava cada aspecto da vida, até mesmo os pensamentos das pessoas. O
Estado era chamado Oceania e era governado por um grupo chamado “O
Partido”. Seu líder e ditador era conhecido como Big Brother. Qualquer
semelhança será mera coincidência.
* Estudante
brasileiro em Londres
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