Webjornal - Mensal  - Edição 89 - Aracaju, 30 de abril a 04 de junho de 2006
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Turismo

Belezas de Portugal

Texto: Alvaro Giesta*
Fotos Alvaro Giesta e Maria José Gonçalves

Na nossa ambulante viagem pelo país (quase viagem de peregrinação), chegámos a Portalegre, sem nos termos alongado por Terras do Baixo Alentejo, com uma breve paragem por Évora para olharmos o tão problemático “Templo de Diana”, quanto ao nome, que em homenagem à Deusa parece haver discordância e controvérsia nos vários saberes de célebres historiadores, mas que pela certa é romano, e parece até ter servido para o culto imperial, na época em que as influências dos imperadores Trajano e Adriano se expandiram na Península. Templo do século 1 a 3 D.C. contém colunas Coríntias e é um monumento único do género em Portugal.

Cidade muito antiga e de história obscura, reveste-se de importância na época romana, quando era designada por "Ebora Liberalitas Julia", exactamente devido ao templo clássico a que impropriamente se chamou "Templo de Diana". Ocupada depois pelos Visigodos e árabes, vem mais tarde, em 1165, a ser ardilosamente conquistada por Geraldo Sem Pavor, concedendo-lhe D. Afonso Henriques foral no ano seguinte.

E como célebre se tornou e se mantém fiel à fama, de tal ordem que as suas ruínas resistem às agruras do tempo, aqui deixa à apreciação do leitor o resultado de várias obturações à torreira forte do sol que já impiedosamente castigava, e ainda o pino do meio-dia ia longe, nestas terras alentejanas.

Mas antes, (muito antes…) de termos chegado à cidade-capital do Alto Alentejo que, no dizer do poeta, “é cercada de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros, onde o sol abrasa e o frio tolhe (…)”, perdemo-nos nos quilómetros de asfalto que já soltava chispas que nos cegavam a vista e nos entorpeciam o corpo conduzindo-nos a uma indesejada sonolência... e fomos dar a uma terra, que mais parecia um berço convidando-nos ao descanso, plantada no alto de um monte e entre oliveiras solitária, que se erguia apontando o céu, fortemente azul, numa cumplicidade de silêncios com Deus que parece aqui ter-se perdido muito antes da Convenção assinada por D. Miguel em 1834 a abolir o absolutismo em Portugal - Évora Monte se chamava.

Acompanhe-nos o leitor por entre um mar de céu azul a tingir o branco deste Alentejo, e pare connosco na cidade de Estremoz que foi cenário de importantes encontros políticos na Idade Média, entre as quais as cortes convocadas por D. João I. Venha ver o Paço Dinisíaco do século XIII situado na periferia do Castelo, onde residiu durante várias épocas da sua vida o Rei D. Dinis.

Aqui faleceu a Rainha Santa, em 1336, e o rei D. Pedro I em 1367. Vale a pena ver também o Museu Municipal de Arqueologia e Etnografia, cujo recheio representa, essencialmente, as antigas actividades artesanais da localidade, afamada pelas suas produções de olaria popular.

Voltemos, para já terminarmos, àquela que, no dizer do investigador Rui Abreu de Lima, “(…) caracteriza, sintetizando, de forma singular, o contraste destas terras de transição” que se espraia “desde os altaneiros contrafortes da serra-mãe, até às cálidas planuras do interior sul ” onde “convivem, harmoniosamente, os relevos da dominante S. Mamede com as extensões planas de cultivo cerealífero (…), com culturas e saberes”, afirmando “uma identidade própria, como o exprimem as várias manifestações do seu saber artesanal (…)”. E, se mais não houvesse, ainda no dizer do mestre investigador, “(…) só por si, as Tapeçarias desta aristocrática Portalegre ou os Empedrados plebeus de Niza ou os populares Alinhavados, justificam que se conheçam estas terras contrastantes”.

Por isso, senhor viajante, não fique comodamente instalado no local que decidiu para veraneio ou lazer e não se limite, apenas, ao curto passeio de alguns minutos quando vai beber o café, após a refeição da noite, à esplanada mais próxima ali ao virar da esquina.

Acompanhe-nos, então, caro leitor, até à “Sintra do Alentejo”, não sem que antes passemos por Marvão, vila alcantilada a 862 metros de altitude e a 6 Km da fronteira espanhola, oferecendo, pela sua situação geográfica, um panorama envolvente de grandiosidade sem par.

Sobre um escarpado monte de rocha viva, ergue-se a poderosa fortaleza dominando o profundo vale, conservando vestígios de fundações romanas.

Não fora o curto dia de Janeiro a anunciar-nos já um fim de dia breve, por certo nos instalaríamos aqui, por largas horas, de potentes binóculos e teleobjectivas em punho, a deliciar o olhar com a beleza longínqua de um misto de verde e azul apenas salpicado pelo branco das casas, para lá do limite de Santo António das Areias, a aguçar-nos o apetite a uma fuga breve, quiçá demorada, até Valência de Alcântara, na vizinha Espanha.

Mas, apesar disso, não deixaremos que dar a conhecer, aqui, ao caro leitor, a lenda, que conta o povo: "Cerca do ano 870 D.C., um mouro passava pelo local com as suas sete mulheres, a sua cáfila e todos os seus servos, quando deparou, à sua vista, com a beleza da serra, até onde o olhar alcança e as suas águas frescas. Decidiu pernoitar no ponto mais alto da serra e o lugar, de tão aprazível, cativou-o de tal modo que não mais quis abandonar a serra. Chamava-se Ibn Marwan, esse Mouro." São as palavras do povo que as palavras da história são bem diferentes: "A origem da vila, no seu primitivo Burgo, é mourisca, como se deixa ver pelo próprio nome, de descendência árabe, devido ao refúgio em 876 de um ilustre membro da família Marwan, audaz e temível, nunca se dando por vencido. A montanha sobre a qual se ergue a vila, então chamada de "Amaiense", passou a chamar-se de "Amaya Ibn Marwan", nome este que perdeu o apelativo à cidade romana de Ammaia depois da reconquista cristã, ficando o topónimo Marwan, mais tarde transformado em Marvão. No entanto, o castelo e a sua fortaleza são de origem bem portuguesa. Conquistada por D. Afonso Henriques em 1166, D. Sancho II concedeu-lhe foral em 1226. D. Dinis mandou reconstruir o castelo e a cerca de muralhas em 1299 e foi D. Maria II quem deu a Marvão o título de "Mui Nobre e Sempre Leal Vila de Marvão". O foral, atribuído por D. Manuel em 1512, constituía o extenso concelho de Marvão com sede na povoação".

Mas voltemos ao tão pouco conhecido, mas romântico, Castelo de Vide. Pela sua arborização, pela sua configuração natural, pelos importantes conjuntos arqueológicos, desde as suas casas e ruínas de interesse histórico, aos espaços museológicos e expositivos, às suas igrejas, ermidas e conventos, aos seus brasões e sinagoga ou, fora da localidade, aos seus monumentos megalíticos, Castelo de Vide é ponto de paragem e visita obrigatória para quem está ali a dois passos a passar férias em Portalegre.

Povo de saberes e lendas o deste país! …

Atravessávamos nós a porta de saída que julgamos ser a única por onde se pode sair de Marvão, quando nos acudiram à memória certas lendas, que de tanto se crer nelas e por muito se ouvirem contar, se julgam ser verídicas. E delas comentámos...

E serão até verídicas, que de lendas também se faz a história, que não de factos verídicos somente.

Conta a lenda, a propósito de Elvas que “certo cavaleiro português foi a Badajoz no dia em que ali se realizava a procissão de Corpo de Deus, e arrancara das mãos do espanhol, que levava o alçado, um estandarte nosso que estava em poder dos habitantes daquela cidade fronteiriça". E acrescenta a lenda, "que o audacioso português, não podendo entrar em Elvas, por ter encontrado fechadas todas as portas, arremessara o estandarte para dentro das muralhas exclamando: “morra o Homem mas fique a fama!” caindo seguidamente em poder dos espanhóis, que o capturaram e levaram para Espanha, onde o mataram".

Duas versões, da mesma lenda, elevam a qualidade do Homem e do Soldado português que por amor a uma causa sacrifica a própria vida.

A primeira versão, diz-nos que o Governador da Praça-Forte de Elvas, por brincadeira e conhecendo a valentia do soldado, lhe prometera o posto de general e o Governo da praça se fosse capaz de ir a Badajoz arrancar aos espanhóis o estandarte que era nosso e o trouxesse consigo. Já na segunda versão, o governador que não via com bons olhos o namoro da sua filha com determinado oficial seu, ter-lhe-à dito que só daria a mão de sua filha a um fidalgo ou oficial, que se tivesse tornado ilustre por um grande feito de armas. E referiu, o governador a hipótese de recuperar o estandarte roubado a Portugal.

Num e noutro caso se saem os audaciosos cavaleiros vencedores do feito, mas o governador nega-lhes a entrada na cidade ao fechar-lhes as portas da mesma, sendo ambos mortos por Castela, não sem que antes tivessem recuperado o ditoso estandarte.

Ainda de Elvas, para recordar, não sem um misto de tristeza e indignação pelos castigos que aí foram infligidos aos presidiários militares, a cerca de um quilómetro da cidade, localiza-se a célebre Praça-Forte de Elvas, de nome mais actual Forte da Graça que, de "Graça" não tinha "Graça" nenhuma, como está explícito na leitura de uma inscrição existente numa das paredes interiores do Forte: "Neste Forte onde impera a disciplina e a concepção duma possível regeneração a seguir pelos incorporados, há o propósito de indicar-lhes o caminho que desvirtuaram, mas ainda a tempo de ser trilhado como homens livres, honrados e úteis à sociedade."

De lenda em lenda recordámos Campo Maior, cuja origem do nome desta bonita e pitoresca terra alentejana parece estar ligada a várias estórias lendárias que se contam de geração em geração.” (...) Campo Maior foi certamente uma Povoação Romana, mais tarde dominada pelos Mouros e, finalmente, conquistada pelos Perez de Badajoz, sendo então Bispo de Badajoz D. Frei Pedro Perez. Somente depois da Paz estabelecida com o Tratado de Alcanizes (1297), Campo Maior veio a pertencer à Coroa Portuguesa, juntamente com Ouguela e Olivença (a Saudosa)". E ainda de Campo Maior, ocorreu--nos à memória as famosas Festas do Povo, das Flores ou dos Artistas, festas que chegam a juntar mais de 100.000 pessoas e que se realizam, sem período certo mas quando o povo entende, tendo sido as últimas em 2004. Falar e descrever estas festas é algo difícil... elas só se entendem "in loco" e ao vivo.

"São meses e meses de luta, trabalho de entusiasmo sem limites dedicados à sua preparação. São horas sem conta, roubadas quantas vezes ao justo descanso, que toda a gente de Campo Maior dedica à preparação dessa maravilhosa e inesquecível surpresa, desse admirável e fascinante jardim florido que há-de surgir, como por encanto, ao raiar de uma aurora de Setembro."

Cogitávamos nós sobre a veracidade das lendas, emitindo as mais variadas opiniões à revelia do seu autor, de quem nunca se chegou a conhecer o nome, enquanto a viatura, num roncar de motor surdo, prosseguia nesta nossa viagem itinerante, devorando sem descanso os quilómetros infindáveis de asfalto negro que nos separavam de Lisboa, daqui a muito pouco tempo apenas visível pelos iodos a rasgarem o ventre escuro da noite.

Continue connosco, caro leitor, na próxima edição deste jornal. Explore o que terras longínquas deste Portugal têm de poético e lindo. Venha connosco ou siga o investigador…

*Policial reformado residente em Portugal. Sites:

http://ecographias.blogspot.com/
http://avozdotempo.blogspot.com/

                             

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