Webjornal - Quinzenal  - Edição 79 - Aracaju,  19 de junho a 17 de julho  de 2005
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Timor Leste

Um país em reconstrução

Por Jerusa Güijen Garcia*

Timor Leste é um país singular, a começar pelo contrastes: de um lado as mansões dos embaixadores, suntuosos palácios cujos aluguéis muitas vezes ultrapassam os 10 mil dólares por mês; de outro, o que restou da guerra: centenas de esqueletos queimados do que um dia foi uma casa, um edifício, um estabelecimento comercial. Seis anos se passaram desde o massacre de 1999, quando as milícias timorenses, mantidas a rúpias e drogas pelos indonésios, queimaram e pilharam todo o país, de ponta a ponta. Seis anos se passaram, mas os restos desse gigantesco incêndio ainda perduram por onde quer se vá em Timor Leste. São 13 distritos, além de Dili, a capital, mas absolutamente nenhum deles foi poupado. Do incêndio restaram as  paredes enegrecidas, mas os telhados, todos eles foram calcinados. Então, é comum até hoje vermos famílias morando em casas sem teto, apenas um ou outro cômodo coberto com folha de zinco ou plástico.

Na época, o país quebrou por completo e desde então está lutando para tentar reerguer sua economia, mas a tarefa não tem se mostrado das mais fáceis. Os baixíssimos níveis de salário mínimo, que oscilam entre 80 e 240 dólares, sendo que a grande maioria fica na casa dos 150 dólares por mês, faz com que a bem poucas famílias sobre dinheiro para a reconstrução.

O povo timorense é de uma humilde docilidade sem paralelos em todo o mundo; estão sempre a arreganhar aquele sorriso vermelho, pois mascam areca, uma semente parecida com o nosso curumim que lhes amortece a sensação de fome e lhes higieniza o hálito. Exibem satisfeitos sua penca de filhos, único status que a vida lhes confere, uma vez que aqui uma prole expressiva é sinônimo de status; erguem seus bebês como se sustentando a troféus.

Nos diversos mercados que existem pela capital, centenas de milhares de peças de roupas, bolsas e calçados são vendidas a 1 dólar cada peça, doações que chegam dos mais diversos países do mundo e que eles compram por 15 dólares o container. Garimpando bem, consegue-se encontrar verdadeiras preciosidades. Em contraposição com os mercados, onde as raquíticas frutas, legumes e as murchas verduras são vendidas aos montinhos, concorrendo em espaço com porcos, galinhas e cabritas, existem as lojas de produtos importados, que acumulam tamanha profusão de variedades dignas de deixar qualquer estrangeiro de boca aberta.

É indiscutível a diversidade de produtos do mundo inteiro ali expostos nas prateleiras, coisas que a gente nem sonhava existir, desde caldo de cana enlatado, a suco de flores, língua de búfalo em compotas, lulas enlatadas, moluscos ao molho de algas, maionese doce, pé-de-moleque salgado, carne de golfinho e de baleia em lata, bolacha de besouro e por aí afora. São produtos que chegam das mais diversas partes do mundo; porém, aos timorenses, só lhes resta assistir do lado de fora ao vai-e-vem frenético dos malais (estrangeiros) a entrar com seus largos passos e a sair com suas largas caixas lotadas até a boca de produtos. É raro ver um timorense dentro dessas lojas, a não ser funcionários do Governo.

Quanto à missão brasileira, transcorridas as primeiras semanas de adaptação em que participamos de toda espécie de seminários a fim de nos inteirarmos de realidade timorense, pouco a pouco cada um foi se acomodando de acordo com suas aptidões. Alguns estão reescrevendo o material didático (antes produzido pelos portugueses); outros analisaram os componentes curriculares dos diversos cursos existentes, propondo sugestões de melhoramento; outros procederam à análise das leis que regem a Educação no Timor Leste e sugeriram alterações. Escrevemos inúmeros projetos que estão tramitando no Ministério da Educação, bem como cursos de aperfeiçoamento, de extensão e de especialização.

De minha parte, sugeri a implantação do Programa Escola da Família, existente no Estado de São Paulo, que atende a mais de 6 mil escolas aos finais de semana, projeto esse no qual me orgulho de ter feito parte. O Ministro da Educação o está analisando e quiçá nós, brasileiros, possamos ter esse orgulho de saber que, ao partirmos do Timor Leste, deixamos implantado um programa desse naipe. Além disso, e de outros cursos de extensão que já propus (na área da Comunicação Social em que sou mestra), leciono português a 21 professores do SENAI, escola profissionalizante implantada por Fernando Henrique Cardoso quando de sua primeira visita ao Timor Leste, em 2001. Ao iniciar minhas aulas no Senai, constatei estarrecida que os 250 alunos que essa escola atende anualmente estão desde maio sem aulas, devido à falta de verba. Fiquei admirada em saber que quem mantém esta unidade do Senai é o governo brasileiro. Ao falar com o Embaixador do Brasil no Timor Leste, Sr. António, ele não sabia que a situação estava nesse pé. Falei também com o Sr. Armindo Maia, Ministro da Educação, ao que ele alegou já estar de posse da verba brasileira, mas está à espera da mão-de-obra de especialistas vindos do Brasil para dar prosseguimento às atividades. Obtemperei ao Sr. Ministro que não precisamos esperar por mão-de-obra brasileira, pois os 21 professores existentes já estão qualificados. “Ora, pois, pois! Então que vá lá a verba”, concluiu o Sr. Ministro.

É assim. O timorense tem seu ritmo. Até para andar o fazem devagarzinho, quase parando. Os táxis andam a 20 quilômetros por hora, e nem adianta apressá-los, eles não entendem nossa língua. É raro encontrar alguém que fale português. Quando muito, arranham um pouco no inglês- por influência dos australianos, que aqui têm presença expressiva, bem como todos os outros países da Ásia, cujo inglês é a segunda língua, ficando de fora apenas o Timor Leste, que implantou o português como língua oficial (por conta de rixa com a Austrália, que roubou do Timor Leste uma expressiva fatia de mar). Muitos jovens se revoltam com isso e se recusam a aprender o português, preferindo o inglês, já que a Internet, a televisão, as mais bonitas (pra eles) músicas do rádio lhes chegam em inglês e não em português. Está certo que aqui se ouve Leandro e Leonardo, bem como alguma coisa do Roberto Carlos (ainda do tempo da Jovem Guarda), mas a influência da cultura americana é inegável, aliás, não só aqui, mas em todo o mundo (à exceção de Cuba, é claro!).

Os timorenses julgam a língua portuguesa extremamente difícil. Queixam-se das intermináveis listas de verbos. É que até então tal tarefa era desempenhada (e ainda é) pelos portugueses, professores sérios e afeitos a ensinar a partir da decoreba da lista dos 500 verbos irregulares mais importantes da língua, bem como suas respectivas variantes. Os timorenses gostam é do método alegre e descontraído dos professores brasileiros, que lhes ensina cantando, contando piadas e recitando poesias. Porém, não se pode perder de vista que a ajuda que Portugal já destinou ao Timor Leste é simplesmente cem vezes maior que a do Brasil, em termos de montante financeiro. Isso significa dizer que Portugal já destinou ao Timor Leste 200 milhões de dólares, ao passo que até agora a ajuda do Brasil não chega a 2 milhões de dólares. Bem, cada um dá o passo conforme o comprimento de suas pernas.

*Jornalista brasileira em missão no Timor Leste

                                  

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