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Timor Leste
Um país em
reconstrução
Por
Jerusa Güijen Garcia*
Timor Leste é um país singular, a começar pelo contrastes: de um
lado as mansões
dos embaixadores, suntuosos palácios cujos aluguéis muitas vezes
ultrapassam os
10 mil dólares por mês; de outro, o que restou da guerra: centenas de
esqueletos queimados do que um dia foi uma casa, um edifício, um
estabelecimento comercial. Seis anos se passaram desde o massacre de 1999,
quando as milícias timorenses, mantidas a rúpias e drogas pelos
indonésios,
queimaram e pilharam todo o país, de ponta a ponta. Seis anos se passaram, mas
os restos desse gigantesco incêndio ainda perduram por onde quer se vá em Timor
Leste. São 13 distritos, além de Dili, a capital, mas absolutamente nenhum
deles
foi poupado. Do incêndio restaram as paredes enegrecidas, mas os
telhados,
todos eles foram calcinados. Então, é comum até hoje vermos famílias
morando em
casas sem teto, apenas um ou outro cômodo coberto com folha de zinco ou
plástico.
Na época, o país quebrou por completo e desde então está lutando
para
tentar reerguer sua economia, mas a tarefa não tem se mostrado das mais
fáceis. Os baixíssimos níveis de salário mínimo, que oscilam entre 80 e 240
dólares, sendo que a grande maioria fica na casa dos 150 dólares por mês,
faz
com que a bem poucas famílias sobre dinheiro para a reconstrução.
O povo timorense é de uma humilde docilidade sem paralelos em todo o
mundo;
estão sempre a arreganhar aquele sorriso vermelho, pois mascam areca, uma
semente parecida com o nosso curumim que lhes amortece a sensação de fome e
lhes higieniza o hálito. Exibem satisfeitos sua penca de filhos, único
status
que a vida lhes confere, uma vez que aqui uma prole expressiva é sinônimo
de
status; erguem seus bebês como se sustentando a troféus.
Nos diversos mercados que existem pela capital, centenas de milhares de
peças de
roupas, bolsas e calçados são vendidas a 1 dólar cada peça, doações que chegam
dos mais diversos países do mundo e que eles compram por 15 dólares o
container. Garimpando bem, consegue-se encontrar verdadeiras preciosidades. Em contraposição com os mercados, onde as raquíticas
frutas, legumes e as
murchas verduras são vendidas aos montinhos, concorrendo em espaço com
porcos,
galinhas e cabritas, existem as lojas de produtos importados, que acumulam
tamanha profusão de variedades dignas de deixar qualquer estrangeiro de
boca
aberta.
É indiscutível a diversidade de produtos do mundo inteiro ali
expostos
nas prateleiras, coisas que a gente nem sonhava existir, desde caldo de
cana
enlatado, a suco de flores, língua de búfalo em compotas, lulas enlatadas,
moluscos ao molho de algas, maionese doce, pé-de-moleque salgado, carne de
golfinho e de baleia em lata, bolacha de besouro e por aí afora. São
produtos
que chegam das mais diversas partes do mundo; porém, aos timorenses, só
lhes
resta assistir do lado de fora ao vai-e-vem frenético dos malais
(estrangeiros)
a entrar com seus largos passos e a sair com suas largas caixas lotadas
até a
boca de produtos. É raro ver um timorense dentro dessas lojas, a não ser
funcionários do Governo.
Quanto à missão brasileira, transcorridas as primeiras semanas de
adaptação em
que participamos de toda espécie de seminários a fim de nos inteirarmos de
realidade timorense, pouco a pouco cada um foi se acomodando de acordo com suas
aptidões. Alguns estão reescrevendo o material didático (antes produzido pelos
portugueses); outros analisaram os componentes curriculares dos diversos
cursos
existentes, propondo sugestões de melhoramento; outros procederam à
análise das
leis que regem a Educação no Timor Leste e sugeriram alterações.
Escrevemos
inúmeros projetos que estão tramitando no Ministério da Educação, bem como
cursos de aperfeiçoamento, de extensão e de especialização.
De minha parte, sugeri a implantação do Programa Escola da Família,
existente no Estado de São Paulo, que atende a mais de 6 mil escolas aos finais de semana,
projeto esse no qual me orgulho de ter feito parte. O Ministro da Educação
o
está analisando e quiçá nós, brasileiros, possamos ter esse orgulho de
saber
que, ao partirmos do Timor Leste, deixamos implantado um programa desse
naipe.
Além disso, e de outros cursos de extensão que já propus (na área da
Comunicação Social em que sou mestra), leciono português a 21 professores do
SENAI, escola profissionalizante implantada por Fernando Henrique Cardoso
quando de sua primeira visita ao Timor Leste, em 2001. Ao iniciar minhas
aulas
no Senai, constatei estarrecida que os 250 alunos que essa escola atende
anualmente estão desde maio sem aulas, devido à falta de verba. Fiquei admirada
em saber que quem mantém esta unidade do Senai é o governo brasileiro. Ao
falar
com o Embaixador do Brasil no Timor Leste, Sr. António, ele não sabia que
a
situação estava nesse pé. Falei também com o Sr. Armindo Maia, Ministro da
Educação, ao que ele alegou já estar de posse da verba brasileira, mas
está à
espera da mão-de-obra de especialistas vindos do Brasil para dar
prosseguimento
às atividades. Obtemperei ao Sr. Ministro que não precisamos esperar por
mão-de-obra brasileira, pois os 21 professores existentes já estão
qualificados. “Ora, pois, pois! Então que vá lá a verba”, concluiu o Sr.
Ministro.
É assim. O timorense tem seu ritmo. Até para andar o fazem devagarzinho, quase
parando. Os táxis andam a 20 quilômetros por hora, e nem adianta apressá-los,
eles não entendem nossa língua. É raro encontrar alguém que fale português.
Quando muito, arranham um pouco no inglês- por influência dos australianos, que
aqui têm presença expressiva, bem como todos os outros países da Ásia,
cujo
inglês é a segunda língua, ficando de fora apenas o Timor Leste, que
implantou
o português como língua oficial (por conta de rixa com a Austrália, que
roubou
do Timor Leste uma expressiva fatia de mar).
Muitos jovens se revoltam com isso e se recusam a aprender o português,
preferindo o inglês, já que a Internet, a televisão, as mais bonitas (pra
eles)
músicas do rádio lhes chegam em inglês e não em português. Está certo que
aqui
se ouve Leandro e Leonardo, bem como alguma coisa do Roberto Carlos (ainda
do
tempo da Jovem Guarda), mas a influência da cultura americana é inegável,
aliás, não só aqui, mas em todo o mundo (à exceção de Cuba, é claro!).
Os timorenses julgam a língua portuguesa extremamente difícil. Queixam-se
das
intermináveis listas de verbos. É que até então tal tarefa era
desempenhada (e
ainda é) pelos portugueses, professores sérios e afeitos a ensinar a
partir da
decoreba da lista dos 500 verbos irregulares mais importantes da língua,
bem
como suas respectivas variantes.
Os timorenses gostam é do método alegre e descontraído dos professores
brasileiros, que lhes ensina cantando, contando piadas e recitando
poesias.
Porém, não se pode perder de vista que a ajuda que Portugal já destinou ao Timor Leste é simplesmente cem vezes maior que a do Brasil, em termos de
montante financeiro.
Isso significa dizer que Portugal já destinou ao Timor Leste 200 milhões
de
dólares, ao passo que até agora a ajuda do Brasil não chega a 2 milhões de
dólares. Bem, cada um dá o passo conforme o comprimento de suas pernas.
*Jornalista brasileira em missão no Timor Leste
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