Edição 116 - Aracaju, 03 de agosto a 07 de setembro de 2008
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  ficção
Harpias
Aventuras picantes num escritório

Por Tom Correia* 

O escritório de contabilidade ficava no alto de uma ladeira, num bairro residencial que já passara da sua fase de ouro. A fachada da casa era de excelente bom gosto, um trabalho feito por arquiteto em estado de graça. Apenas o ambiente, descobriria depois, era obscuro, assim como todos os que trabalhavam ali. Sem problema: eu também era um obscuro. Além disso, eu não podia escolher muito. Sentei no passeio do lugar e vi o quanto aquela residência estava entalada entre os prédios altos da rua. O movimento do tráfego já era intenso pela manhã e tentei me distrair olhando os tipos de carros que passavam. Estava nervoso com a possibilidade de colocar tudo a perder. Eu era péssimo de entrevista. Um retrospecto desfavorável. Luciano era muito magro. Parecia não comer há anos. Conheci aquela figura na fila dos classificados. Eu havia juntado a última grana que tinha para publicar um anúncio no jornal de domingo me oferecendo como digitador. Isso vinha funcionando há algum tempo, mas era sempre temporário, o que temporariamente me deixava meio pra baixo. Com a cara-de-pau dos desempregados, abordei Luciano e logo ele estava com meu currículo na mão. Me ligaram no mesmo dia. Fui recebido por todos com grande simpatia, mas desconfiei de tanta polidez. No ar havia um odor de educação envernizada pelo cinismo, como se todos se esforçassem por conviver em torno do único ponto em comum: não gastar dinheiro sob nenhuma hipótese. Deu tudo certo, falei pouco e dei as respostas corretas. Sem invencionice. Comecei no dia seguinte. Me mostraram a saleta apertada onde ficaria durante algumas semanas, até eu terminar de digitar todo o material: milhares de códigos, cnpj's e registros de clientes. Era um banco de dados. Eu não queria muito contato com aquele pessoal, chegava cedo e começava a digitar com precisão e rapidez. Queria terminar logo e sair dali com minha grana. Com o tempo percebi que as três mulheres, sócias do escritório, conversavam apenas sobre um único assunto:

"Temos que reduzir custos! Temos que retirar o bebedouro dos clientes, temos que cortar as ligações e tirar as extras do Luciano! Reduzir custos! Reduzir! Temos que reduzir a limpeza do banheiro para apenas um dia na semana, temos que ligar apenas um aparelho  de ar condicionado, temos que racionar os copos plásticos! Reduzir, reduzir! Cortaremos o cafezinho, os vales, os adiantamentos! O tempo de descanso também será reduzido! Precisamos terceirizar a terceirização!", diziam na sala de reunião, excitadas por descobrirem novas formas de aumentar os lucros. Rapidamente minha fama se espalhou na casa de verniz. Que eu era eficiente, que eu era pro ativo e multifuncional (as empresas gostam de criar novos termos), que eu era ágil e dedicado. Elas não sabiam, mas já havia me tornado impermeável aos elogios. Aprendi com o tempo que há sempre algo de funesto neles. Sempre foi assim. Me elogiavam muito, tentando inflar meu ego, pra depois aprontarem alguma. Tipo me pagarem menos, me rebaixarem a outra função ou pedir que eu fizesse um trabalho sujo. Como da vez que tive de servir cafezinho a diretores imbecis numa reunião idem.

Um dia cheguei cedo demais. Encontrei apenas uma delas, a que fedia.

“Você é muito simpático”, disse se aproximando.

“Obrigado.”

“Obrigado? Isso é resposta que se dê a uma mulher?”

“Desculpe.”

“Desde o dia em que você chegou estou de olho em você, sabia?”

“Não.”

“É sim, você é meio estranho, mas é simpático... diferente do Luciano que também é estranho, mas é magro demais. Sabia que ele ainda é virgem? Vinte e oito anos e virgem, isso é sério, hein?”, me apertou contra a parede da saleta.

“É sim.”

“Me beija.”

Ela fedia à nicotina, que me ardeu a boca e a língua. Prendi a respiração, mas não adiantou: no meio do beijo, tossi sufocado.

"Que foi, tá nervoso?"

"É."

"Vamos pra minha sala, lá eu ligo o ar."

Ela abriu o decote e os seios flácidos despencaram. Tirei os olhos de cima daquelas duas massas falidas. Terminamos rapidamente. Eu não senti nada; ela pareceu sentir tanto que feriu meu braço com suas garras.

"Quero de novo, fora daqui."

"Certo."

Fui digitar meus códigos, ainda mais rápido.

A segunda delas, no dia seguinte, passou a me olhar esquisito. Começou a perguntar sobre minha vida pessoal. Quando terminei de responder, houve entre elas uma espécie de silêncio denunciador na sala de reuniões. Perguntei pro Luciano. "Não sei de nada", ele se esquivou. Saiu cheio de documentos na mão pra autenticar. Eu sempre ficava sozinho com aquelas mulheres, aspirando aquele ar de nicotina. Daquele jeito eu ia pegar um câncer no nariz. Passei o dia digitando pilhas e pilhas de laudas numeradas. Quando deu meu horário, a segunda entrou na saleta.

"Preciso que você digite isso agora", depositou mais uma pilha na mesinha.

"Agora? Preciso ir."

"Você vai ter de ficar até mais tarde. Espero você terminar."

"Certo", me arrepiei de novo. A primeira vez havia sido na fila, quando toquei o ombro de Luciano numa forma de cativá-lo. Uma intimidade suspeita.

Já era quase nove, quando acabei. Estávamos sós. Fui levar os papéis e o disquete. Bati na porta da sala dela e aguardei. Ela não respondeu e, quando entrei, levei um susto. Senti meus ossos estalarem: a mulher estava seminua, sentada na mesa de trabalho. Me chamou com o dedinho indicador, com a palma da mão virada pra cima. Nos olhos, nada sedutores, havia olheiras e ganância.

"Vem cá, garotão."

"Como?", me aproximei, sem forças pra recuar.

"Vem mais perto."

Ela não cheirava mal como a primeira, mas era ainda mais flácida. Me beijou com hálito de comida azeda. Tive que disfarçar bem para terminar o serviço. O outro.

"Quando você sair daqui, podemos fazer isso todo dia."

"Podemos."

Não faltava muito para dar a empreitada como pronta, mas passei a não ficar sozinho com elas. Simulava conversas ao telefone envolvendo minha saúde ou problemas com parentes imaginários. Na penúltima das semanas, houve mais uma surpresa ruim. Ao chegar no horário de sempre, não encontrei ninguém. Bati na porta, apertei campainha, chamei por cada um. Nada. Eu já ia voltar quando vi a ponta de uma chave escondida numa reentrância da janela. Outra vez, reneguei meus sentidos e desprezei outra onda de calafrios. Terminei entrando, com planos de adiantar meu trabalho. Sozinho, sempre rendia mais. Nem tão surpreso assim, encontrei a terceira lá dentro. Me aguardava totalmente nua, sentada na sua cadeira de recosto alto. As pernas abertas me ofereceram a visão de fartas pelancas esbranquiçadas.

"Eu sabia que você não ia resistir, quero melhor que o delas", ela parecia ter bebido.

"Claro", eu partia para a tríplice coroa.

"Podemos ficar aqui o dia inteiro."

E ficamos.

Depois desses três eventos, subitamente passaram a me evitar. Deixei de ser chamado com freqüência e captei nuances. Fui isolado na saleta e só recebia recados através do donzelo. Não entendi muito bem isso, mas não me importava. Queria terminar e sair dali. Como sempre, depois de tantos elogios, fiquei sabendo que demorariam um mês inteiro pra me pagar. Não achei justo, mas fiquei na minha. Era melhor esperar trinta dias do que não receber. Luciano, o temeroso, antes de sair me pediu que não ficasse ali por muito tempo. Elas não queriam. Eu disse que tudo bem, sairia logo, só iria imprimir alguns currículos, às escondidas, é óbvio. Realmente, imprimi o material e fechei a saleta. Só que ao passar pela sala de reunião fui arrastado pela maçaneta. Talvez estivesse deixando de ser tão desleixado em relação a posses. Na intenção de surrupiar algum objeto ou aparelho qualquer, abri a porta da sala escura. Vi três enormes aves agourentas em volta de um monte de notas. O odor era forte. Havia nicotina, suor e avareza no ar. Já estava me acostumando ao vício aéreo da casa e quase achei natural. Talvez até bom. Vi que elas bicavam-se e gralhavam num som rouco que me eriçou até o último dos fios. Disputando as notas de dinheiro com seus bicos afiados, chegaram a perfurar algumas notas maiores. Havia três montes definidos e cada uma queria roubar do monte da outra. Vi que parte daquele dinheiro me pertencia e que seria direito meu levá-lo comigo. As aves abriram as asas dispostas a me atacar. Pressentiram que eu queria arrebatar algum. Para proteger as quantias, elas desceram dos seus poleiros improvisados: da grande mesa, dos arquivos de aço, das prateleiras. Eu ainda tentei me agachar para evitar ser atingido nos olhos e no peito. Recebi uma forte pontada numa das mãos e vi que havia sido ferido. Elas começaram a emitir um som tão ensurdecedor e enegrecido que fui obrigado a tapar os ouvidos. Saí, tropeçando nos móveis das outras salas, em direção à saída. Os pássaros vieram atrás e me alcançaram facilmente. A última coisa de que me lembro com nitidez, foi a sombra formada por três pares de asas escuras abertas sobre mim. 

Amanheci, no meio da rua. 

*Graduando em Jornalismo, é colunista da Revista Eletrônica Verbo21. Prêmio Braskem de Literatura 2002 com o livro Memorial dos Medíocres (Casa das Palavras, Contos, 2002). E-mail: correia.tom@gmail.com