Edição 122 - Aracaju, 22 de fevereiro a 22 de março de 2008
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  ficção
Holerite
Uma empresa, um ambiente opressor, um dissidente

Por Tom Correia* 

A linha de frente possui trezentos funcionários. Na retaguarda existem outros duzentos e vinte. Em regime de escala, plantões ininterruptos são cobertos todos os dias do ano, vinte e quatro horas. O processo de seleção e recrutamento está sempre aberto. A cada semana, para repor as baixas, novos lotes despejam pelo menos trinta novatos sem treinamento nas estações de trabalho. O nível dos testes é baixo. Qualquer um pode ser aprovado, exceto aqueles que apresentam algum tipo de disfunção. Uma junta decide a abrangência, significado e, principalmente, a aparência da “disfunção” que pretende fazer parte do quadro. Alguns candidatos, antevendo problemas, cometem erros primários nos exames. Mesmo assim são contratados. A companhia fica na região metropolitana para desestimular o acesso de clientes sem veículo próprio. Os funcionários são recolhidos em pontos estratégicos da cidade por ônibus providenciados pela corporação. Quem se atrasa precisa pegar duas conduções e caminhar seis quilômetros. O último atraso relatado foi há cinco anos. 

Vista de cima, a construção tem a forma de espiral, dando a impressão de se tratar de uma passagem para outra esfera. Não há elevadores entre os três pisos. Apenas rampas e escadas. Nenhuma delas é rolante. Os uniformes mantêm os funcionários afastados uns dos outros. Apenas breves apertos de mãos são permitidos. Conversas paralelas são punidas com suspensões, descontos em folha, demissão e negativação do nome numa lista negra de empregadores. Por serem considerados um prêmio, os pedidos de exoneração são indeferidos. Os que conseguem dar baixa na carteira penam durante anos pelos corredores dos tribunais. A maioria se arrepende. O processo é longo e a pressão, constante. Alguns, mais radicais, simplesmente desaparecem. Os afastamentos temporários só ocorrem em casos de doenças infecto-contagiosas. Eventuais falecimentos não são vistos com bons olhos pela diretoria. Enterros de parentes são considerados injustificáveis para ausência. Em poucos casos, mães e pais mortos são levados em conta, mas ainda assim, uma comissão é destacada para investigar o velório. Idas à cantina e pausas para água são cronometradas de modo cumulativo. Não podem ultrapassar quinze minutos, nem exceder três vezes seguida. Ligações telefônicas são proibidas. Parte dos recados é repassada no final do expediente. Celulares são entregues à segurança, que monta revistas eletrônicas na entrada e na saída de cada turma. Comentários são monitorados por microfones ultra-sensíveis ligados a uma central que emite relatórios diários sobre performances individuais. 

Nos finais de semana e feriados prolongados a produção tem que atender à forte demanda. O trabalho exige a identificação do cliente, emissão de cartão e despacho. Tudo deve ser feito com precisão e rapidez. Aos domingos a movimentação triplica. O ritmo é intenso. Durante horas seguidas atendem-se clientes apressados, com tendência ao nervosismo. Em cada estação existe um roteiro com minuciosas instruções que orientam como tratar os casos mais comuns. Nas ocorrências atípicas, não se deve optar pelo improviso ou originalidade. Deve-se solicitar intervenção imediata de um Super. Alguns clientes não compreendem a política de relacionamento da companhia e reagem de forma agressiva. Há registros de ameaças à integridade física de funcionários que apenas cumprem as regras. Quando isso acontece, os Super movimentam-se como marimbondos no meio da fumaça. Os S-1 são baixos e brancos. Os S-2 são altos e atléticos. As S-3 possuem traços orientais. As S-4 têm olhos verdes. Qualquer revide aos clientes é punido com sanções que variam da simples advertência ao banimento. O treinamento de três semanas nos ensina a baixar a cabeça a cada passagem de um Super. Caso um G passe por nós, devemos nos virar de encontro à parede. Não há indicações sobre o comportamento adequado diante da visita de W. Ele pode estar agora mesmo, sentado ao lado, como um funcionário comum. Os Supervisores-Mestre, os SM, vigiam os Super. Acima deles estão os G-1, os Gerentes-Ídolo, todos trazidos de fora. A cada dia nossos números de identificação são modificados. Não sabemos os nomes uns dos outros. As saídas não podem ser em conjunto. No espaço dedicado ao funcionário mais antigo, há uma indicação apontando sete meses. Existe também a galeria onde são afixados os retratos dos colaboradores do mês, escolhidos por voto direto. Suspeita-se de manipulação de resultados. Trabalhadores que votam em si mesmos não costumam ver suas cédulas computadas. O salário é pago, de forma escalonada, na presença de todos os gerentes e supervisores. A chamada é feita pela ordem de nascimento. Por uma questão logística, os mais novos recebem antes. Com frequência, deixam passar subtrações indevidas. Só percebem depois que saem e, por isso, perdem o direito de reclamar. 

Durante o período de férias, os poucos que conseguem o benefício devem apresentar projetos que apontem soluções ergonômicas. Os autores das melhores propostas ganham um dia a mais de descanso, a ser escolhido de acordo com a disponibilidade do empregador. Cursos de reciclagem profissional acontecem a cada doze anos. Aos que desejam especialização é cobrada uma taxa extra para cobrir o investimento. Um marcador no setor pessoal atualiza informações sobre a participação dos lucros. Um sorteio dirigido decide quem serão os contemplados. As festas de aniversário do alto escalão são feitas no salão de eventos reservado aos clientes vips. Voluntários são obrigatoriamente escalados para viabilizar as comemorações: arrumação do palco, disposição das cadeiras, montagem de som e buffet não podem prejudicar o orçamento. Como prova de socialização da empresa, os funcionários que trabalham na produção podem participar dos festejos, sob a condição de cumprir os horários na manhã seguinte. Para as confraternizações de finais de ano a companhia aluga um galpão e promove encontros que separam os mais antigos dos mais novos. Promoções são anunciadas. Os Super se transformam em SM que, por sua vez, são enviados à Grande Matriz. Resultados apresentados mostram o crescimento da companhia. A água racionada contribui para o balanço patrimonial. O recolhimento para o Fundo Assistencial é celebrado como símbolo do espírito coletivo. Os funcionários aguardam num lugar reservado à distribuição de brindes: caixas de chocolate arremessadas em várias direções. Todos devem se abaixar e conseguir ao menos um dos bombons, como prova de integração e reconhecimento pelo esforço feito por W. Quem não comparece preenche formulários; quem recolhe mais do que cinco bombons devolve o excedente. 

Há uma semana enfrentei uma situação crítica. Na tentativa de aplacar minha abstinência, fingi que precisava utilizar o sanitário. A doença havia retornado, mas os sintomas ainda não haviam sido identificados pelos Super. Eles não perdoariam. Minhas mãos voltaram a tremer e só conseguia disfarçar graças a uma série de estratagemas, como me abanar com placas sinalizadoras esquecidas debaixo da bancada. Eu acreditava estar curado depois de me submeter ao Processo de Extração Hipnótica, uma técnica inovadora aplicada em cobaias necessitadas de cura. Durante um ano frequentei as sessões assistidas por uma junta designada pela coordenação do ambulatório. Estava me sentindo bem melhor, livre das divagações e reminiscências que fatalmente me levavam a rabiscar, de modo compulsivo, palavras, frases e parágrafos inteiros que construíam capítulos. Tive alguma sorte por não ter sido afastado em definitivo e já não sentia mais o peito pular ao ver a tela em branco de um computador. Estava disposto a me curar, afinal eu precisava de um salário. Apesar de tanto esforço, não adiantou muito eu seguir a recomendação médica de jogar fora todo tipo de papel, agendas, cadernos, cartões de natal, contas telefônicas e extratos bancários que tivesse em casa. Os especialistas acreditavam que, eliminando essas fontes memoriais, minha imaginação se mantivesse sob controle. Mesmo sentindo que fraquejava, não busquei ajuda. Não posso culpar ninguém. Foi a recidiva violenta que me levou a enfrentar o semblante de um S-2. No momento em que terminava este texto num laptop surrado, fui flagrado numa espécie de depósito de equipamentos defeituosos. A porta abriu-se num estrondo. Fiquei paralisado. 

“O que você está fazendo?”, ele perguntou.

“Escrevendo.”

“Nossos computadores não foram feitos para isso.” 

No mesmo instante, um alarme estridente soou em todos os espaços, em todos os andares. Só tive temp

*Graduando em Jornalismo, é colunista da Revista Eletrônica Verbo21. Prêmio Braskem de Literatura 2002 com o livro Memorial dos Medíocres (Casa das Palavras, Contos, 2002). E-mail: correia.tom@gmail.com