Edição 123 - Aracaju, 29 de março a 26 de abril de 2009
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  fotografia
Beira-mar, beira-terra
Os habitantes de uma avenida da Península de Itapagipe, encravada entre a baía de Todos os Santos e o chão firme da Ribeira

Texto e fotos: Tom Correia* 

Dia útil numa manhã de março. Caminhar por uma rua estreita que margeia pequenas ondas é um prêmio concedido aos privilegiados que conseguem tempo livre. O silêncio, a calmaria e as imagens que a avenida Beira-Mar oferece aos passantes formam uma receita de rara combinação, válida apenas de segunda a sexta: nos fins-de-semana o refúgio é depredado por gente vinda de toda parte em busca de diversão barata. 

Fora dali Salvador ferve a 460 graus. Aniversário e atmosfera da cidade se confundem com uma mística ultrapassada. A urbe ressentida de ausências já não proporciona mais a mesma tranquilidade. O indivíduo ordeiro de tempos atrás agora pode ser uma ameaça oculta nas esquinas. O tráfico que se multiplica e se fortalece. O trânsito que asfixia. A saúde que desassiste e ignora. A população deselegante que rega becos, muros e postes com líquidos pouco nobres. O transporte público obsoleto que carrega os passageiros como fardos. O desemprego que humilha. 

A Beira-mar é uma via de escape, acesso a locais que mantêm natural ligação com o passado. Da Penha à Baixa do Bonfim, do Largo da Ribeira à Madragoa, do Banco dos Vadios à “Ponte” do Crush cada um possui seu próprio brilho.  Acolhedora, a rua plana permite testemunhar a dedicação do funcionário público que cuida do seu barco como um filho enfermo. Ali se vê o riso otimista dos vendedores das barracas ainda vazias, o carrinho de pipoca que também suspira à espera de clientes. Pelo caminho encontra-se um garoto que trata o peixe com habilidade e desenvoltura. “Aprendi olhando”, ele revela com a simplicidade dos pescadores. Mais adiante, avista-se um homem que carrega gelo sem tempo para admirar as ilhas do outro lado.  

Quem navega pela avenida e ancora em algum dos seus portos recebe o vento no corpo e dificilmente se recupera: há quem plante o pé e compre uma casa. Há quem retorne compulsivamente para revigorar a alma.

Veja abaixo o ensaio fotográfico de Tom Correia.

*Escritor e fotógrafo. Prêmio Braskem de Literatura 2002 com o livro Memorial dos medíocres (Editora Casa de Palavras). Colunista da revista eletrônica Verbo21. Edita o blog A caverna do escriba. E-mail: correia.tom@gmail.com

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Praia do Bogari, Ribeira, antigo local de veraneio da sociedade baiana

Barco com avarias, mecânico atento

Precisão e profundidade

Luz de segurança num mar de almirante

Criado em 1940, o banco dos vadios é ponto de encontro de boêmios que não ingerem bebida alcoólica

Na labuta sob o sol, o picolé que ameniza o calor

Em frente ao colégio, a pipoca aguarda os clientes mais assíduos

Otimistas, Jade e Tata esperam à sombra pela clientela

Apenas nos dias de semana a praia parece feita para poucos

Solitário no fim da feira, Cristiano trata o pescado do dia

Cristiano: "Não é fácil, mas ainda dá pra tirar algum do mar"

Arraia destrinchada com rapidez

Gelo que chega do subúrbio para abastecer pescadores

Quem nasce aqui não tem coragem de ir embora...

Sob o céu de meio-dia, trabalho e diversão convivem lado a lado