Edição 129 - Aracaju, 27 de setembro a 25 de outubro de 2009
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  reportagem
Da lama ao cais
Oleiros de Maragogipinho, no Recôncavo Baiano, resistem a dificuldades e mantêm tradição

Texto e fotos: Tom Correia* 

Primeiro um ferry, depois um micro-ônibus e, por último, um mototáxi. Para sair de Salvador e chegar pela primeira vez àquele labirinto foram necessárias três conduções. Vielas e reentrâncias se apresentaram bifurcando caminhos, mas sempre oferecendo portas receptivas. As construções lembram imensas ocas cobertas de palha, cercadas por varetas de madeira. No entanto, a cor morta das fachadas contrasta com a infinidade de matizes e texturas no interior de cada olaria. Ali, o calor assume formas múltiplas: térmico, humano, ritualístico. Circula-se pelo sem-número de esculturas ouvindo-se um rádio ligado. Estações AM veiculam as notícias, unindo o lugarejo ao que restou do planeta após milênios. Quando se chega a Maragogipinho, surge a possibilidade de reinterpretar o Gênesis, o princípio de tudo, a influência mútua entre a terra e o homem que aprendeu a manipulá-la para o seu sustento material e filosófico.

O distrito pertence a Aratuípe, município de 8.500 habitantes e distante 77 km da capital baiana via ilha de Itaparica. Do alto da escadaria da igreja Nossa Senhora da Conceição, padroeira local, avista-se o manguezal ao longo do rio Maragogipinho, afluente do Jaguaripe. Segundo estudo realizado em 2008 pela mestra em Análise Regional, Chelly Souza, são 117 olarias formando um dos maiores centros de cerâmica artesanal do mundo. Caminhar no terreno sinuoso exige disposição, mas há recompensa. Em toda parte, descobre-se gente humildemente orgulhosa do que faz. As saudações são respondidas como um convite para a conversa amena e despreocupada com as regras do tempo. Encontro um trabalhador que, empunhando um machado, ensina ao bronco urbanoide parado a sua frente: para rachar a lenha com menor esforço é preciso “ler” os nós da madeira. A depender do horário da visita, flagra-se o almoço feito em silêncio por uma família de oleiros sentada no chão de piso batido. Já em outras cerâmicas, contamina-se pela descontração. O riso e as piadas de duplo sentido imprimem o ritmo do trabalho. Andando e conversando,  apreende-se a diversidade de saberes oriunda de 2.000 moradores, 80% deles, segundo o site da prefeitura de Aratuípe, vivendo direta ou indiretamente da peculiar manufatura.

O processo é demorado. Conforme o tamanho da encomenda, o serviço pode durar dez a quinze dias entre a extração das matérias-primas, modelagem, secagem, queima e despacho da mercadoria. Além disso, são necessárias 27 horas de cozimento de peças dispostas com perícia para evitar a perda da fornada. Como arremate, mulheres e meninas burnideiras dão polimento e pintam objetos ornados com tauás e tabatingas, tipos de argilas líquidas que conferem, respectivamente, as cores vermelha e branca a cada artefato. Quem chega à região condicionado pelos males urbanos se surpreende com a variedade dos elementos expostos. O barulho choroso do torno que gira, o crepitar da lenha, o forno de tijolos que produz temperaturas entre 400 e 1000 graus centígrados; os raios de sol que atravessam o telhado emoldurando a fumaça; a força física descomunal dos amassadores e empeladores, homens que se lambuzam ao preparar o barro; a coordenação motora de habilíssimos artistas que dão vida a imagens, potes, luminárias e utensílios decorativos. Eles também dão alma aos bois-bilha, miniaturas do bumba-meu-boi e símbolos da cultura local.

Segundo o pesquisador Carlos José Pereira, autor de “A cerâmica popular na Bahia”, todo esse conjunto teve origem com os jesuítas portugueses que, por volta de 1820, já produziam telhas, jarras e panelas.  Em quase dois séculos, os oleiros foram se adaptando e agregando influências negra e indígena, resultando numa rara miscigenação artística. Tanto assim que, em 2004, obras concebidas ali receberam menção honrosa do Prêmio UNESCO de Artesanato para a América Latina e Caribe. Uma façanha se considerada a concorrência de 90 peças fabricadas em 16 países. Os cíclicos períodos de crise e ressurgimento aperfeiçoaram o grau de adaptação da comunidade. Os tipos de pedidos e clientela mudaram; as formas de comercialização também. Se até o início da década de 1980, saveiros como Brotinho, Noivo da Lua e Quem me deu foi Deus  carregavam a produção pelo Recôncavo chegando até Salvador, hoje é comum ver hilux repletas saindo em direção às rodovias.

Um casal de aparência nada simpática entra na Olaria São Gregório em busca de uma namoradeira, figura que representa um costume dos tempos coloniais, quando moças e senhorinhas se postavam à janela para ver os rapazes. Um dos atendentes diz que o preço é R$ 90. Os clientes pedem desconto, querem pagar R$ 10 a menos. O dono da casa, Almerentino Macário, 74, não tira o olho da negociação até intervir. Sua voz é um cicio, um mantra de tranqüilidade que impõe respeito. Com visível má vontade, eles pagam pela peça, já devidamente polida e pintada. Revendida fora dali a escultura pode chegar facilmente aos R$ 400.

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