Edição 129 - Aracaju, 27 de setembro a 25 de outubro de 2009
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  reportagem
Da lama ao cais
Oleiros de Maragogipinho, no Recôncavo Baiano, resistem a dificuldades e mantêm tradição

Por Tom Correia* 

(Continuação de 2)

A cada ano, a maior feira de artesanato do estado, com trezentos anos de tradição, vem perdendo a originalidade. Produtos feitos de plástico ou couro de baixa qualidade estão subtraindo o espaço das esculturas. Além disso, o aumento do número de shows musicais de apelo popular desvirtua a essência da festa. Os artesãos ainda marcam presença devido a incentivos como transporte e hospedagem, mas ano após ano, eles se esquivam tentando evitar prejuízos. Nerivaldo Moreira, o Nelinho, desde criança desenvolve seu ofício com obstinação, mas não vê os filhos vivendo exclusivamente da olaria. “Quero que eles aprendam para preservar o que aprendi com o avô deles, mas vou fazer de tudo para que não precisem disso aqui para sobreviver”, confessa. De acordo com estimativas da Associação de Auxílio Mútuo dos Oleiros de Maragogipinho (AAMOM), a produção média mensal é de 28 mil peças. Quase a metade é composta pelos mealheiros, cofres em formas de porquinhos. Vendidos entre R$ 0,50 e R$ 0,80 podem chegar por R$ 12 ao cliente final.

As manhãs de quinta-feira exibem uma movimentação especial no cais da Feira de São Joaquim, em Salvador. Depois de navegar cerca de dez horas, o octogenário “Sombra da Lua” é um dos últimos saveiros que ainda mantém rota comercial, trazendo no bojo milhares de peças meticulosamente armazenadas. Um dia antes, a embarcação era carregada à beira do Maragogipinho: toneladas de barro molhado transformadas em peças multicores, utilitárias, divertidas, sacras, afrorreligiosas, ornamentais. Joias encontradas nas exposições de arte popular ao redor do mundo ou nas recepções de seletas pousadas de charme.

Deixo para trás o labirinto de terras cozidas, a correnteza do rio, as falas pausadas, o calor dos fornos. No retorno, em cada uma das três conduções, tento compreender o prodígio daquela gente. Capaz de transmutar um tipo de lama em pequenas obras-primas.

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*Graduando em Jornalismo, é colunista da Revista Eletrônica Verbo21. Prêmio Braskem de Literatura 2002 com o livro Memorial dos Medíocres (Casa das Palavras, Contos, 2002). E-mail: correia.tom@gmail.com