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ficção A caixa preta dos meus ciúmes Os labirintos de cinco relações amorosas
Por Tom Correia*
[Hildinha] O telefone tocou diversas vezes naquele sábado. Arranjei um pretexto e passei pela sala, tentando ouvir as conversas. Pensei escutar horários e pontos de referência. Tomei banho mais cedo do que o de costume e fui pra rua, fazer campana. Percorri quatro-cinco-seis vezes a principal rua do bairro, precisava raciocinar. Ela demorou a sair. Esquivo, comecei a segui-la a meia distância. Usava uma saia preta que subia e expunha suas coxas definidas à medida que andava. Vi quando um cara parou o carro na praça; ela entrou sorrateira, ajeitando a saia, olhando pros lados. Tive vontade de morder um pára-choque, de meter a cabeça num poste, de trombar de frente com um ônibus. Voltei pra esperar seu retorno. Peguei no sono depois de socar o espelho do banheiro. Acordei com ela deitada ao meu lado, fingindo que dormia. Massageei sua nuca pensando numa saída segura depois que eu voltasse da cozinha. Eu não podia ver sangue, mas agora isso faz parte do passado. [Zuleika] Ela passou de mãos dadas com aquele imbecil, lerdo como um boi. Liguei na mesma hora. Vinte e duas ligações recusadas era demais, aquilo não ficaria assim. Só porque ela era noiva de um otário bem estabelecido não podia me ignorar daquele jeito. Tudo bem, desde o início eu sabia de sua aliança, mas e daí? Aquele caretão não merecia uma mulher como aquela, eu ia partir pra tomar ela na marra. O prédio onde ele trabalhava ficava num bairro tacanho, protegido por uma arquitetura anti-mendigos. Utilizei as escadas para chegar ao 6º andar, quanto menos gente me visse, melhor. Eu havia decorado a minha fala, incluindo alguns palavrões para intimidar aquele gordo filho-da-puta. Todo gordo que dormisse com minha mulher só podia ser um filho-da-puta. Passei direto pela recepcionista e entrei na sala decorada com diplomas e certificados. Ele franziu a testa. A noivinha, ao me ver, levantou-se atônita. Ficamos ali, suspensos no ar, tentando encontrar um rumo, um final limpo para aquilo tudo. [Elena] Ela subiu a ladeira lentamente, como se estivesse cansada. Do alto, vi que ele sorria. Não quis acreditar naquele enlace. Fazia apenas duas semanas que a havia penetrado fundo, arrancando dela promessas roufenhas madrugada adentro. Até então tudo tava sob controle, afinal convivíamos num ambiente de trabalho. Ainda assim, eu a amassava com força na saleta apertada do almoxarifado, atrás dos arquivos, no refeitório, na biblioteca, onde fosse possível. Aquele caso dela com meu colega tinha de ser resolvido, nunca fui de disputar ninguém. Engolindo em seco, armei um flagrante instalando uma câmera num local insuspeito. Três dias depois fui conferir o resultado. Com o aparelho nas mãos, subi chorando até a administração. Enxuguei os olhos antes de entrar na sala. Nos reencontramos somente no sindicato, no dia da homologação. Soube que cada seguiu seu caminho. De tão afastados terminamos voltando ao mesmo ponto de partida. Ninguém sabe da nossa história na nova empresa. Não ainda. [Lia] Namorávamos escondido. Nos víamos antes da escola, mas tínhamos que levantar bem cedo. Seu pai era um cavalão, tão bruto que as irmãs se urinavam quando ele retornava do trabalho. Eu era um frangote, mas ela dizia que gostava de mim assim mesmo. Nosso problema começou logo depois do carnaval, quando comecei a juntar dinheiro pra comprar um ovo de páscoa mais caro, o maior disponível. Deu trabalho pra comprar, esconder e não comer aquela maravilha. Nos encontramos na praça, a mesma, às seis da manhã. Cheguei afoito, entregando logo o enorme embrulho. Ela rejeitou o presente sem explicar o motivo. Pensei que fosse por causa do pai. Insisti tanto que terminei me atrasando. Possesso, pisei, pisei, pisei o ovo com meu tênis branco, que ficou salpicado de pedaços de chocolate. Só depois descobri o motivo da rejeição: o cara do bugre, amigo do cavalão, era mais homem do que eu. Passei a persegui-la dia e noite. Até hoje sei onde ela mora. [Talita] Eu tava arrumando a gravata em frente a uma vitrine quando notei um casal se beijando escandalosamente no saguão do aeroporto. Achei aquilo normal entre pessoas saudosas umas das outras. Incomum foi reconhecê-la, depois que me aproximei. Ela tava transformada: ao invés da discrição, a lascívia; no lugar do recato, a exposição pública de línguas em bocas. Comigo nunca foi assim, ela sempre teve vergonha de ser vista ao meu lado. A visão provocou um calor que me apertou o peito. Parti em direção a eles. O sujeito era bem mais alto e isso me acovardou. Parei quando fui percebido. Ela fechou a cara e fez um gesto de desprezo com as mãos. Ele posicionou-se como se estivesse pronto para revidar. Os dois tavam de mochilas, passariam o fim-de-semana juntos. O calor aumentou. “Deixe de ser imbecil”, escutei. Idiotamente dei as costas e fui para o mirante ver as decolagens junto com pessoas de mentes suburbanas. Choramingando, me senti um urubu que sai para trabalhar num dia infeliz: sorvido e estraçalhado pelo coração de uma turbina. *Jornalista, autor de Memorial dos Medíocres (Ed. Casa de Palavras) e Sob um Céu de Gris Profundo (lançamento previsto para novembro 2010). É editor da Revista Grauçá. Blog: http://acavernadoescriba.wordpress.com. E-mail: correia.tom@gmail.com |