
Webjornal - Mensal - Edição 88 - Aracaju, 26 de março
a 30 de abril de 2006
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PT x PSDB Por Rodrigo Marinheiro* O mês de março foi rico em opiniões e reflexões a respeito da próxima eleição presidencial. Parecia até um renascimento do jornalismo político. Com os principais candidatos escolhidos, adentramos a reta final e, como bom Marinheiro, vejo à proa uma eleição disputada e repleta de antigas novidades. Dentro da bipolaridade política que se forma no cenário nacional, teremos pela posição o atual presidente Luis Inácio Lula da Silva do PT e, como candidato do PSDB na oposição, o governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin. Este último será vendido à população como o "novo", o detentor de um jeito hábil, sensato e professoral que solucionará todos os nossos problemas, quem dera! Na verdade o concreto potencial do candidato tucano só poderá ser aferido com alguma precisão daqui a dois meses, lá para o final de maio. Nessa época, já haverá passado tempo suficiente para que Alckmin tenha sido testado em várias pesquisas. Seu nome também começará a freqüentar o noticiário nacional com mais assiduidade. Alckmin se apresentará como o sucessor de Mário Covas, ex-governador paulista que faleceu de câncer em 2001 e é símbolo de moralidade dentro do tucanato. A dupla formada por Covas e Alckmin se elegeu para o Palácio dos Bandeirantes em 1994, o que dará um ar de administrador experiente ao candidato tucano, além de distanciar o nome dele de Fernando Henrique Cardoso, presidente da República entre os anos de 1995 e 2002. O intuito tucano será o de encantar o eleitor que não conhece Alckmin e que hoje está atrelado em Lula. A imagem de Alckmin que será vendida é difícil de ser atacada pelos petistas, pois fácil é criticar FHC, complicado é bater em Covas. A esperança de Alckmin é estar próximo de Lula nas pesquisas quando começar o horário eleitoral gratuito, que é o momento mais importante da campanha. Em uma de minhas visões edulcoradas da triste realidade, nesse período Alckmin assumiria a liderança e venceria o pleito para presidente da República. Doce ilusão... Crescimento haitiano O PT está em destroços, unido simplesmente em torno de Lula pelo simples motivo de não ter outro nome, nem melhor, nem pior. Lula não é mais um mito e terá de fazer campanha para desvincular sua imagem de José Dirceu e de seu próprio partido que está manchado por denúncias. O atual presidente se apoiará no Santo do Pau Oco Antonio Palocci, que garantiu ao Brasil um crescimento econômico haitiano com medidas surrupiadas do governo anterior. Ano passado fomos o país que menos cresceu na América Latina (2,3%) com exceção do Haiti, que em 2004 sofreu até retrocesso em sua economia. A ex-quebrada Argentina, por exemplo, cresceu 9,2%, o Uruguai cresceu 6,6% e o Paraguai, que é o patinho mais feio do Mercosul, cresceu 2,7% em 2005. O ano passado foi o décimo consecutivo em que o Brasil registrou crescimento abaixo da média mundial. Entre 1996 e 2005, o PIB do Brasil aumentou, em média, 2,2%, contra 3,8% da média mundial. No total do período, a economia do país acumulou alta de 22,4% enquanto o mundo viu a economia ficar 45,6% maior. A China cresceu ano passado 9,9%, mais do que o Brasil durante todo governo Lula. A China, por exemplo, tem um crescimento médio de 9,6% ao ano desde 1979. Mas, e o espetáculo do crescimento prometido por Lula? Será que ele e o canônico Palocci não perceberam que tinham de abrir a economia nos engajando nas importações? Que tinham de controlar gastos públicos para baixar a carga tributária? Que era preciso investir em educação e reduzir a segmentação do mercado financeiro? A verdade é que projetos como Bolsa Escola e Bolsa Família não resolverão o problema do Brasil pelo simples motivo de que nossos problemas emblemáticos não são assistencialistas, são políticos e econômicos. Muitos dos que elegeram Lula esperavam ao menos uma inflexão na política econômica, mas tiveram apenas mais do mesmo. O governo atual tapa o Sol com a peneira, engana os menos informados com marketing e faz o povo viver, ou melhor, sobreviver no samba de uma nota só. Apesar de tudo, as chances mais reais de vitória são do petista. Por quê? Porque todo eleitor se faz as mesmas perguntas na hora de votar: "As coisas melhoraram para mim nos últimos quatro anos? Sei que o governo roubou como nunca, mas mexeram na minha carteira?". Aí a resposta é mais sensitiva do que realista. Certamente o egoísmo pessoal e o monte de caridades oficiais destinadas aos pobres, adicionadas à já periódica publicidade estatal, farão milagres para os petistas. Que os populistas me xinguem, mas a verdade é que infelizmente a maioria do povo brasileiro é ignorante e ainda não percebeu que Lula, o Dom Sebastião e messias dos intelectuais, mostrou-se um político cínico, um alpinista social e gênio do marketing popular. O histórico manifesto das classes baixas faz com que o povo vote na poética esquerda, mas o brasileiro não sabe de fato o que é ser de esquerda. O maior governo de esquerda pós-ditadura militar que tivemos foi o de José Sarney. Ele congelou preços, estabeleceu a moratória da dívida externa e fez o Brasil crescer no alicerce da hiperinflação. Isso porque Sarney, hoje do PMDB, governava de farda e chegou a presidir o Partido Democrático Social (PDS) - o partido de sustentação congressual dos militares - cujo Lula e tantos outros lutaram contra. Lula diz fazer parte de uma esquerda linda que foi escrita no final do século retrasado, mas esquece de dizer que hoje é um tipo de governo impraticável. Por quê o PT patrocina os juros mais altos do planeta? Por quê durante um governo de esquerda os bancos atingem ganhos recordes? Por quê um governo de esquerda paga em dia as dívidas, chegando até a quitar os débitos do Brasil com o FMI? Isso é ser de esquerda? Não... Não é a cor de uma estrela que vai fazer o partido ser esquerdista. Mas o que importa para os petistas é a retórica, até mesmo porque o povo brasileiro não sabe analisar os fatos. Populismo continental A onda de esquerda na América Latina ainda anseia esperança em alguns ideólogos estadistas. Os governantes da Argentina, Bolívia, Chile, Uruguai e Venezuela são esquerdistas, mas felizmente a abertura financeira dessas nações ao exterior pode nos poupar de um populismo de proporções continentais. Na Bolívia, Evo Morales, do partido Movimento ao Socialismo, detém mais de 70% de aprovação dos eleitores e em pouco tempo compreendeu que o período de oratória revolucionária devia cessar. Mas é visível a idéia em longo prazo do marxista Morales em nacionalizar, se não por completo, ao menos em grande parte a economia boliviana. A rigor as chances de que se repita o populismo e totalitarismo venezuelano, de Hugo Chávez, em outro país latino-americano são poucas, com exceção do Brasil. Caso Lula se reeleja, o que é bem provável, nos restará rezar para que não surja um populismo arrasador que alegre o companheiro Chávez. Poucos querem enxergar, mas o PT abandonou a ideologia que o elegeu em 2002, decaiu eticamente, se tornou o signo do infortúnio e graças ao criptodireitista (direita oculta) Lula vivemos hoje um drama bestial. Quanto ao PSDB, que deveria estar com José Serra concorrendo ao Planalto, só basta torcer pelo milagre da não reeleição presidencial e resolver as picuinhas internas. Em 2010 o governador mineiro Aécio Neves irá disputar as prévias com o, aí sim, conhecido Geraldo Alckmin. Mas, no fundo, quando amigos me perguntam "como é que ficará nossa política durante os próximos quatro anos?", respondo que não ficará, pois nada se fecha na História. Daqui a quatro anos poderemos analisar qual foi, citando Oswald de Andrade, "a contribuição milionária de todos os erros" de Lula para o nosso país. Infelizmente acredito na reeleição do atual presidente e, como escrevi na crônica A lógica é 2006 copiar 2002, publicada em dezembro do ano passado, legitimo meu pensamento com uma frase de Karl Marx: "A história acontece primeiro como tragédia e depois se repete como farsa". Ou seja, a tragédia foi o PT se eleger em 2002 e a farsa são as mentiras disparadas por este partido para se reeleger em 2006. Alguns leitores ainda me escrevem, apopléticos, após lerem minhas colunas, dizendo que sou neoliberal, burguês, sem vergonha e maluco. Nietzsche já ponderou em Ecce Homo: "Uma coisa sou eu outra são os meus escritos". O filósofo Adorno já falava: "o jornalista é um ser que freqüenta uma cobertura que não lhe pertence". É preciso respeitar a liberdade de expressão e separar o homem da obra. Impor a cronistas e veículos de comunicação o apoio ou torcida por um ou outro candidato é má-fé, ou, na melhor das suposições, a humana e desculpável tolice. A negação de uma coisa nunca foi afirmação de outra. Não sou partidário, somente analiso os fatos e raciocino dentro daquela velha máxima: "É melhor um fim trágico que uma tragédia sem fim". Por isso, e somente por isso: Fora PT, fora Lula! *Comentarista esportivo da Rede Mundial de Televisão e da Super Rede Boa Vontade de Rádio, cronista e sócio-fundador da empresa de comunicação R2O |
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