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educação Um caminho nada suave Vários fatores afastam os alunos das escolas
Por Antoninho Marmo Trevisan*
A distorção idade-série continua a ser um dos principais desafios enfrentados pelo Brasil na área da Educação. A despeito das inegáveis conquistas alcançadas nos últimos anos, por meio da universalização do ensino e do maior acesso à Universidade (segundo dados da UNESCO, 25,2% da população de 18 a 24 anos está em algum curso superior; no início dos anos 60, esse índice girava em torno de 2 a 5%), continuamos a ser um país com estudantes velhos demais para os períodos que frequentam. Hoje, praticamente 100% das crianças brasileiras estão matriculadas na escola. Mas, de acordo com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), o número de estudantes que se perde em meio ao turbilhão de repetências e desistências permanece imenso. Os conflitos domésticos, a necessidade de trabalhar cedo para ajudar em casa e, sobretudo, a sensação de que não consegue aprender são os principais fatores que afastam os alunos das escolas. Alguns desligamentos são temporários; outros, para sempre. A gravidade do quadro é perceptível quando se analisa o caso de Cubatão, em São Paulo, onde os alunos com distorção idade-série somam 11 mil. No estado do Tocantins, a defasagem afeta 13 mil meninos e meninas do 1º ao 5º ano e 23 mil do 6º ao 9º. Num momento em que o Brasil sobressai no cenário internacional pela sua solidez política e institucional, economia consistente, capacidade produtiva em constante aprimoramento e expansão etc., as distorções associadas ao ensino de má qualidade merecem nossa redobrada atenção. Será que, depois de décadas lutando pela nossa hora e vez no disputado pódio das grandes potências econômicas, estamos fadados a perder espaço por que não cuidamos do básico? É sabido, há muito tempo, que os países que mais evoluíram ao longo do tempo foram aqueles que apostaram suas fichas na Educação. Nos discursos políticos, nos seminários das empresas, nos fóruns de educadores, afirmar que a Educação deve ser a prioridade número 1 do Estado brasileiro já assumiu status de unanimidade. Mas não basta saber, é preciso agir. E, neste ponto, as dúvidas se avolumam. Em termos de investimento, por exemplo, o Brasil não está nada mal. Ainda não chegamos ao patamar recomendado pela UNICEF –em 2008, o órgão internacional estimou que o Brasil precisará investir 8% do seu PIB na Educação para corrigir as “distorções históricas” –, mas já destinamos 4,6% do nosso PIB ao setor, e o Ministério da Educação estima que, em 2010, chegaremos aos 5%. É quase o mesmo que Espanha (4,7%) e Portugal (5%). Na Coreia do Sul, nação que sobressai mundialmente pela excelência nos padrões de ensino e pela alta produtividade de suas empresas, cerca de 6% do PIB se destinam à Educação. Mais do que disponibilizar recursos, o Brasil deve trabalhar no sentido de otimizar seus investimentos. Enquanto milhares de jovens de 15 anos forem incapazes de compreender um texto de conteúdo simples, ou vestibulandos continuarem a desconhecer a Regra de Três, cada centavo destinado à Educação deverá ter aproveitamento pleno. Não podemos nos permitir o luxo de cometer desperdícios! À frente da Trevisan Escola de Negócios, constatei que o ensino voltado à prática produz excelentes resultados, pois dá ao estudante exatamente aquilo que ele almeja: condições de ingressar numa carreira profissional e, uma vez nela, alcançar o sucesso. Será que não valeria a pena levarmos um pouco desse pragmatismo para o terreno da Pedagogia? Não estaria na hora dos nossos futuros professores aprenderem não apenas a “pensar” a educação, mas também se instrumentalizarem para se tornarem transmissores competentes de conteúdos e de conhecimentos? Muito se fala da importância de colocar o mestre e o aprendiz lado a lado, para que juntos construam o conhecimento. Interpreta-se a interação aluno-professor em moldes tradicionais como um modelo autoritário, que sufoca as peculiaridades do indivíduo em nome da massificação do ensino. Creio que esses princípios construtivistas possam e devam ser trabalhados em sala de aula, mas sem prescindir de um fornecimento básico do saber, que hoje parece ter sido deixado de lado. Se as escolas de Pedagogia estão de fato fazendo uma opção preferencial pelo construtivismo, esse processo deve ocorrer de maneira sistemática e consciente, de modo que os professores construtivistas estejam de fato preparados para aplicar seus métodos em sala de aula. Milhões de brasileiros e de brasileiras, que têm um futuro a construir, não podem servir de cobaias para a experimentação pedagógica. Isso não é justo nem com o País, nem com estas crianças e jovens, que merecem um aprendizado de qualidade e chances concretas de sucesso na vida. O fato é que o terceiro milênio chegou e o Brasil tem tudo para ser a quinta economia do mundo dentro de alguns anos. Esse panorama otimista não combina com alunos de 11 anos de idade atrapalhados com o bê-a-bá. Rediscutir parâmetros e ideias, assumir os erros e envolver toda a sociedade na busca de soluções estão entre os desafios que dizem respeito a todos nós. Caso contrário, os sonhos e as aspirações coletivas estarão, cada vez mais, longe do nosso alcance. *Presidente da Trevisan Consultoria e Outsourcing, diretor da Trevisan Escola de Negócios e Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). E-mail: antoninho@trevisan.com.br Artigo originalmente publicado na Revista Plurale. |