Webjornal - Mensal  - Edição 90 - Aracaju,  04 de junho a 09 de julho de 2006
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Viajante

No vale onde eu estive

Por Euler Araújo dos Santos *

Sempre fico pensando o que seria de mim se eu tivesse nascido na Venezuela e tivesse desembarcado aqui na Europa pra viver com os meus pais, ainda pequeno... e se eu um dia decidisse que iria estudar na Suécia, fizesse um estágio na Holanda, e começasse o meu primeiro ano de engenharia na França?

Talvez eu gostasse mais de futebol e cerveja branca, e ainda falasse inglês com alegria. Com a mesma alegria que eu dançaria uma salsa com um copo de Gato Negro na mão esquerda.

Ou seria diferente e eu seria de um branco atômico que depois de deitar na neve voltando do centro da cidade, eu ficaria invisível. E se eu tivesse um pé de bambu no meio do meu quarto com algumas fotografias preto e branco e uma placa de rua onde se pudesse ler Berlin na parede? Angels over Berlin! Eu gostaria mesmo de Anthony and the Jonhsons e ficaria apaixonado por Keren Ann, e ainda usaria óculos, mesmo se alguém dissesse que eu seria lindo sem eles.

Porque eu não saberia mesmo qual o significado disso tudo. E se eu lesse dois livros por semana guardando "L'Ombre du Vent" do Carlos Ruiz Zafón pro fim de semana? Talvez eu nunca conseguisse provar um queijo, nem responder a um SMS recebido às três horas da manha, nem fazer um jantar sem sujar toda a cozinha, e nem mesmo falar "vite!" no lugar de "bite!".

Mas eu seria mais atento e saberia sobre as coisas ao redor, saberia a suas cores, os seus nomes, e com certeza iria a um show do "Nada Surf" justo pra me apaixonar por Inara George. Mas talvez eu saísse de uma sessão onde eu vi "20 centímetros" e achasse que as legendas estavam todas erradas, trocadas. Talvez eu não o assistisse duas vezes. E é lógico que pararia no meio de uma corrida de bicicleta pra tirar fotografias de uma cegonha cinza que insistia em comer sapinhos na beira de um canal.

Eu não saberia o que significa Areia Branca, nem Aracaju, e muito menos Sergipe, e toda vez que eu pensasse numa cidade iria pensar numa Vila franca. E iria mesmo querer um dia aprender português e passar um ano inteiro fazendo pós-doutorado no Rio de Janeiro, comendo feijoada todos os dias. E acharia mesmo que o país mais rico da América Latina era o Chile e que todo mundo se apaixona por brasileiros. Talvez eu tivesse uma irmã que trabalhasse em Baden-Baden e falasse alemão. Talvez eu contasse piadas em francês e ainda soubesse produzir cimentos pra rebocar ossos.

Com certeza eu nunca iria num restaurante japonês pra conversar seriamente e comer sushi. Mas eu ficaria tão vermelho, tão vermelho, a ponto de um daltônico notar qualquer diferença e, depois de entrar no trem, falaria sobre a visão dos Pirineus e do mar mediterrâneo. Talvez eu não me chamasse Euler e tivesse sempre um vale no meio de tudo. Um vale, onde azeitonas do tamanho de caroço de feijão dão o azeito mais saboroso do mundo. Ao menos eu leria todos os jornais, e ainda aceitaria os fatos como eles são. Eu poderia mesmo correr durante uma hora numa floresta sem folhas e ainda assim ninguém conseguiria me alcançar. 

*Estudante brasileiro residente em Mulhouse, França


                                 

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