Edição 121 - Aracaju, 11 de janeiro a 15 de fevereiro de 2009
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  comunicação
Jornalismo insano
A mesmice das linhas editoriais
 

Por Washington Araújo*

Não é de hoje que me pergunto sobre o jornalismo enquanto ideal de
vida. Ora, existem milhares de ofícios humanos, milhares de
profissões. Exercer a cidadania pressupõe a existência da mesma,
portanto, nem sempre factível a qualquer um. Mas é que existem
situações em que a ética deve vir antes, algo como um pré-requisito.

Penso então no fazer jornalístico. Os jornais, sejam impressos ou
não, e também não importa qual a ferramenta em que está sendo
disponibilizado, terminam por fazer eco uns aos outros. A mesma
manchete e a mesma história repercutem como plantação de cogumelos.
Já não nos identificamos com esta ou aquela linha editorial porque
tudo passou a ser sinalizado pela mesmice.

Se o assunto do dia é um crime e, ainda mais, um crime hediondo,
desses em que a filha de 13 anos mata o pai e a mãe enquanto dormem,
e, ainda, se para tal horrendo feito contou com a cumplicidade de seus
coleguinha de parcos 8 ou 9 anos de idade… Então, não precisamos
ser muito espertos para sabermos que o assunto será divulgado até nos
dar náusea por pelo menos duas ou três semanas seguintes. Essa
divulgação fará parte do que chamo de "jornalismo insano" : uns
repercutem os outros, uns querem a primazia da descoberta mais
inesperada e temperada, preferencialmente, com as cores fortes da
escandalização da violência urbana.

Todo o arsenal de criatividade, estilos e formatos jornalísticos
serão colocados a serviço da mais rápida difusão da notícia. Todos
os assuntos serão colocados na geladeira da comodidade, aqueles temas
que rendem poucos leitores serão relegados por obrigação do ofício
ao arquivo redondo: descoberta de vacinas, políticas públicas que
rendem mais que publicidade, iniciativas louváveis de indivíduos e de
instituições para elevar a qualidade de vida da sociedade e por aí
vai.

O jornalismo insano assemelha-se a uma praga de gafanhotos: ataca a
mesma plantação, e no mesmo momento. Os fatos são pisoteados da
mesma forma que as folhas são destruídas quase que instantaneamente.
A nuvem que se forma ante os sempre desavisados receptores das
notícias (leitores, ouvintes, espectadores e internautas) espessa o
suficiente para bloquear qualquer ínfima passagem de ar puro. Ocorre
que não há espaço para outro assunto. Todo esforço maior para
continuar repercutindo o hediondo e o macabro. Quando não houver
qualquer outro fato novo sobre a tragédia… Então começam os
comentários de especialistas de direito ou de especialistas criados
pela mídia, geralmente nomes de bom conceito na sociedade: juristas,
pensadores, escritores, políticos, militantes de direitos humanos,
educadores, sociólogos.

Algum antídoto para esse tipo de jornalismo? Sim. A prática de um
jornalismo cidadão. E aí temos amplo espaço para refletir sobre o
que se encaixaria nessa categoria. Mas, com certeza, seria um
jornalismo comprometido com a boa prática jornalística. E também com
uma visão mais abrangente do mundo e de seus sinais. Apreço por
iniciativas que elevem a qualidade de vida da população. Defesa das
populações vulneráveis. Espaço para a proteção do meio-ambiente e
para o progresso científico. Jornalismo cidadão tem muito a ver com a
promoção dos direitos fundamentais da pessoa humana.

*Jornalista, mestre em Comunicação pela UNB e autor de vários livros sobre direitos humanos, ética, cidadania, literatura e cinema. Escreve diariamente no blog http://www.cidadaodomundo.org E-mail: wlaraujo9@gmail.com