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entrevista Silviano Santiago A literatura como alteridade
Por
José Roberto Mendes* Com uma vida dedicada ao magistério e à literatura, Silviano Santiago nos fala sobre o seu processo de inspiração, faz uma reflexão sobre a prática da leitura e se mostra um otimista quanto ao futuro do livro
Nascido em Formiga (MG), em 1936, o romancista, ensaísta, poeta e contista Silviano Santiago passou os primeiros anos de sua formação intelectual em Belo Horizonte. No final dos anos 50, ganha uma bolsa para se especializar, no Rio de Janeiro, em literatura francesa. A seguir, recebe outra bolsa, mas do governo francês, e vai doutorar-se na Sorbonne. Em 1962, transferiu-se para os Estados Unidos, onde lecionou nas universidades de Novo México e Rutgers, e, no Canadá, na Universidade de Toronto. Retorna ao Brasil em 1974. A partir daí, passou a lançar vários trabalhos. Entre os seus livros de ficção estão: Viagem ao México, Uma história em família, Em Liberdade, Stella Manhattan, De cócoras, O falso mentiroso, Keith Jarrett no Blue Note (contos), entre outros. Como ensaísta, podemos citar: Nas Malhas da Letra, Uma Literatura nos Trópicos e Cosmopolitismo do pobre. Recebeu diversas premiações e condecorações, das quais vale lembrar os três prêmios Jabuti com que foi agraciado. *** BN - Como surge a inspiração de um autor? Além da intuição, há de ter técnica? Que outros elementos são importantes? Silviano Santiago - Esta é uma questão que tem sido analisada com o certo cuidado, que é a questão da gênese da obra de arte. Muitas vezes uma obra surge de um acontecimento totalmente banal, mas que tem repercussões enormes dentro de você, levando-o a exercitar a imaginação, e, a partir daí, a criar um drama, que vai ganhando proporções. E, de repente, surge o problema da técnica: como trabalhar esse drama? Como elaborá-lo em função de personagens? Como trabalhá-lo em função de um cenário? Em que cidade, que bairro e que rua localizá-lo? A partir daí, vão surgindo mais e mais problemas. Eu, por ser hipertenso, sou mais sensível às grandes questões. Por exemplo, eu tenho um romance, chamado “Liberdade”, que demonstra que eu estava sensível ao fato de que no Brasil nós tínhamos atravessado um período negro, da ditadura militar, e estávamos entrando em outro período, conhecido como abertura, de democratização da cultura, onde era de enorme importância, por exemplo, a questão da liberdade. Era importante recomeçarmos a nação a partir de zero, assim como fizemos em 1822, na Independência; em 1888-89, com a Abolição da Escravatura e a República; em 1945, com o fim da ditadura Vargas. Então, me fascina muito a possibilidade de escrever um livro que retrate estas questões. Mas para isso é preciso aliar as idéias que você tem em estado bruto a um refinamento muito cuidadoso, a fim de buscar uma linguagem que não seja jornalística, nem cotidiana, mas a que chamamos de uma linguagem artística. BN - Ao escrever, um autor deve pensar no leitor? Ou seja, sua escrita deve ser direcionada? S. S. - Meus livros vendem razoavelmente bem, mas eu não sou um autor de best-seller, que é aquele que escreve pensando no leitor, ou dando ao leitor aquilo que ele já tem. No meu caso, eu procuro “desautomatizar” os processos de leitura que o leitor já possui. Eu gosto muito de uma frase do Antonin Artaud, que foi um dramaturgo francês de enorme importância nos anos 20 e 30, que, perguntado o que é o público, disse: “o público é o teatro que o faz”. Eu acredito também que o público da literatura é a literatura que o faz. Ou seja, quando você, leitor, sai do livro de maneira diferente, então aquele livro é bom. Mas se você sai da leitura igual ao que você é, trata-se de um péssimo livro, porque não mexeu com emoções, nem sentimentos, nem visão de mundo. Então, pra mim, o livro “desautomatiza” o leitor dos seus hábitos tradicionais e corriqueiros de leitura. Essa é a grande função da literatura: levar um indivíduo a ter uma experiência que não é a dele, sendo solidário, de maneira a fazer sentir profundamente, na própria pele, a experiência de um outro. E que fará enriquecê-lo, porque é um somatório de vivências. Drummond tem um poema lindíssimo, que se chama Infância, em que ele fala exatamente da leitura que fez de Robinson Crusoé. Ao final, ele já não era aquele menino em Itabira, mas também a experiência extraordinária do náufrago numa ilha deserta. Isso é a leitura pra mim: a experimentação da alteridade, de você saber como é o outro, viver o outro por algumas horas, ou dias, e, finalmente, ser recompensado por essa tarefa. BN - O que você teria a dizer aos novos autores? Você acha que ousar é importante? S. S. - Eu já estou um pouco velho, portanto, tradicionalmente já teria chegado à idade da razão, e à idade dos conselhos. Mas em literatura, ou em arte, é diferente. O velho deu o seu recado, sua obra está à disposição de qualquer leitor. Se ela for boa, vai durar alguns anos; se não for, irá desaparecer. Ao mesmo tempo, ele tem que estar preparado para o fato de que as novas gerações têm que surgir para dar um novo recado, que será próprio daquela geração. Então, esses novos autores têm que tomar o já construído, pelos mais velhos, não de forma obediente, mas como base, como suporte. Na minha geração, por exemplo, foram os grandes modernistas: Carlos Drummond, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Graciliano Ramos, José Lins do Rego etc. Eu me sentia como se estivesse subindo nos ombros deles para enxergar mais longe. Não para enxergar a eles, porque isso eles já haviam feito, e certamente melhor do que eu. Então, o que eu diria é o seguinte: suba nos ombros das velhas gerações e tente levar além o horizonte da literatura, da cultura brasileira e do pensamento ocidental. BN - Diz-se que o brasileiro, em geral, lê pouco. O que você acha que é preciso fazer para mudar esse quadro? S. S. - Eu acho que há muitas coisas que podem ser feitas. Uma delas é a da biblioteca pública, pelo o que eu tenho batalhado há anos e, agora, vejo que temos alguns pequenos frutos. Com o nosso valor do salário mínimo e os preços dos livros, não há como pensar que muitos jovens, crianças, ou mesmo adultos tenham recursos para possuir a sua própria biblioteca. Então, a biblioteca pública é uma espécie de estoque, que está à disposição da curiosidade dele. E esta estocagem é função do Estado. Em cada cidade tem de haver um estoque que contemple a curiosidade intelectual e sentimental de seus moradores. O segundo ponto é a educação. Na minha época, a literatura pertencia ao currículo do ensino médio, mas, hoje, parece que não pertence mais. Isso deveria voltar. E é preciso pensar na formação do bibliotecário, ou seja, um profissional que saiba disponibilizar os livros de maneira inteligente. Da mesma forma, o professor também deve ter uma formação literária, para que possa aprimorar o gosto do leitor. E o terceiro ponto é, mais uma vez, o preço do livro no Brasil, que é um tanto ao quanto absurdo. Em outras nações existe o famoso livro de bolso, que, à medida que um autor tenha muitas edições, é possível disponibilizá-lo por um preço bem mais baixo. BN - E complementando, é importante salientar que, tanto na escola quanto em casa, não faz sentido a imposição da leitura. Não traz um bom resultado obrigar uma criança, ou um adolescente, a ler determinado livro. Talvez seja mais difícil ao orientador estimular, de fato, a leitura, mas é o que verdadeiramente produz frutos. Você não acha? S. S. - Você tocou nesse ponto de impor a leitura que é realmente ruim. Eu acho que o indispensável é preparar o indivíduo para que ele tenha uma mente crítica, ou seja, uma capacidade de distinguir o que é o joio do trigo (usando a famosa expressão). Você pode distinguir o joio do trigo em várias situações: na hora de ver uma telenovela, na hora de ir ao museu e perceber qual exposição merece mais a sua atenção, etc. Mas como você desenvolve essa capacidade crítica? Dando uma grande liberdade. Eu costumo dizer que essa liberdade do leitor, antes de ser a de dizer “sim”, é a liberdade de dizer “não, eu não gostei”. Aí você vê que aquele leitor está se tornando um indivíduo, ele está se afirmando na sala de aula, na biblioteca, ou na vida pública, como um cidadão. BN - Com a informática, os computadores, os e-books, você acha que, daqui a pouco tempo, será decretado o fim do livro-objeto? Ou isso não vai acontecer tão cedo? S. S. - Pra falar a verdade, eu, mais e mais, com a idade, estou me tornando um otimista, sem convicção. Eu acho que houve um paradoxo extraordinário com a entrada do computador e a da internet em nossa vida cotidiana. Se você relembra o século XX, constatamos que ele foi dominado pela imagem, pelo cinema, pela televisão, pela história em quadrinhos, pelas artes plásticas, muito mais do que pela arte literária. E, no entanto, no início do século XXI, quando a gente pensava que a escrita fonética iria desaparecer para sempre, ela volta a todo vapor nos monitores. Ou seja, não há possibilidade de você abrir um monitor sem ler. Então, está se desenvolvendo muito a capacidade de leitura, e também aumentou a facilidade de se mandar mensagens. Há pessoas que criticam a internet porque você não escreve mais cartas. Escreve, sim! E muito mais. Antes era mais difícil, porque precisava de envelope e de ir ao correio. Hoje, eu escrevo, por exemplo, umas 40 mensagens por dia. Eu nunca escrevi, na minha vida, 40 cartas por dia. Então, a gente está usando cada vez mais a escrita. Se estamos usando bem é outro problema, porque voltamos à questão da qualidade. Mas é importante que se use a escrita. O computador, pra mim, hoje, é um novo suporte. Assim como a jovem geração dos anos 70 não tinha dinheiro, nem editor, para publicar seus livros, publicava em mimeógrafo. Chacal, o grande poeta, mimeografava 30 exemplares, ia para porta dos teatros e vendia o livro dele, que tinha um título maravilhoso: “O preço da passagem”. Então, vendendo o livro, ele conseguia o preço da passagem para voltar pra casa. A gente começou a ver uma poesia mais descontraída, que jogava para escanteio o livro pesado, editado por uma grande editora. Agora, o novo suporte é o computador, que pode ser frágil talvez, mas que tem, a meu ver, os seus valores. E o principal deles é que está sendo muito importante no processo de desinibição da juventude. Não quero que ela fique desinibida para toda vida, mas é bom começar pela desinibição. Ela está falando com muita facilidade, coisa que a minha geração não fazia. A gente colocava problemas de sintaxe, de gramática, antes de começar a falar por escrito. Nós fomos vítimas e, ao mesmo tempo, beneficiados pela psicanálise. Mas eles têm uma facilidade muito grande de fazer um discurso subjetivo; falam de emoções, de sentimentos à flor da pele, com a maior facilidade. O que não é bom também para a literatura, mas é bom que comecem por aí. Se quiserem fazer a grande literatura é claro que terão que trabalhar estas emoções com vistas ao romance, ao poema, ao conto, e assim por diante. E, ao mesmo tempo, você repara que nós estamos dando muita importância ao roteiro de cinema, que é um texto escrito, ou a um telenoveleiro, que não faz imagens, mas escreve. Damos importância também a obras de arte, onde você percebe, num Hélio Oiticica, ou numa Rosangela Renó, que há textos. E muitas vezes uma obra de arte é um texto. Então, eu estou otimista. Sem muita convicção, mas otimista. BN - Então, nem pensar no fim do livro-objeto? S. S. - De maneira nenhuma. O livro é aquele objeto que vai levar estas pessoas que estão nesse processo de desinibição, de exposição de sentimentos, que eu me referi, à reflexão. De repente, você lê um pequeno texto no monitor de um filósofo, de Nietzsche, por exemplo, e gosta muito. Mas vai fazer o quê? Ler Nietzsche no monitor não vai dar certo. Então, você compra o livro para ler em casa, assim como nós todos fazemos, sozinho, já que a experiência da leitura é de solidão, numa cadeira, com um abajur ao lado e o livro na mão. E, aí, você passa horas ali entretido, tendo essa extraordinária experiência, que é de conhecer o pensamento de um outro, em profundidade. *Jornalista e Diretor da TV Brasil – RJ. E-mail: bob.mendes@bol.com.br |