Webjornal - Quinzenal  - Edição 74 - Aracaju, 13 a 27 de fevereiro de 2005
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Pensata

Um outro mundo é possível, um outro olhar é necessário

Por José de Oliveira Santos*

O ditado popular diz que o que os olhos não vêem o coração não sente, embora no mundo real seja diferente, pois  quem  é negro,  mora na periferia, com pouca estudo ou que estuda em escola pública,  que ganha salário mínimo ou que está desempregado o que vê?  Falta de respeito pelos direitos humanos mais elementares, o principal deles o direito a vida, quase sempre negado através da sujeira, buracos, ônibus velhos e atrasados, assaltos, mortes, escolas tristes, falta de praças e de outros espaços para a prática da cultura, do esporte e do lazer, desemprego etc...

E o sentimento dominante é de impotência, de acomodação, de passividade,  não adianta fazer nada, é muito difícil mudar, a única solução é entregar tudo na mão de Deus. E assim as pessoas vão vivendo e de tão comum os olhos e ouvidos já se acostumaram.

E para fugir da realidade  ou para  fazer com que  as pessoas vejam, mas não enxerguem, há gente de todo tipo. Desde os vendedores de milagres até os traficantes, passando pela maioria dos donos das associações de moradores, das quadrilhas juninas, dos times de futebol, das biroscas e muitos, mas muitos cabos eleitorais empregados nas escolas e postos de saúde.Todos eles agindo com a cobertura de uma fabrica de idiotas, a televisão, que como diz o Titãs “ Está sempre deixando as pessoas muito burras, burras demais”.

Mas há pessoas que escapam, há aqueles que querem ver com os olhos do coração, aqueles que querem ver o essencial que na opinião do pequeno príncipe é invisível aos olhos do rosto , há aqueles que começam a querer ver com os olhos e os ouvidos do espirito o qual segundo Jesus Cristo muda a forma de ver, de ouvir e as atitudes. “Quem tiver olhos para ver, veja. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça”.

São nessas pessoas que querem ver e ouvir com o coração que reside a esperança de um mundo melhor. E estas pessoas estão sendo formadas através de milhares de projetos sócio-culturais espalhados pelo Brasil afora. Os  projetos desenvolvidos na sua maioria por ONGs, Movimentos Sociais e setores conscientes das religiões,  buscam um olhar que valorize o que se é, mas que procure ir sempre além. Um ouvido que descubra outros sons e outros tons,  que não somente o superficial, o efêmero que se ouve em quase todas as rádios. Um olhar  critico que considere que assim como a dança, o teatro e a musica  são criações humanas, a miséria, o desrespeito aos direitos do cidadão, a falta de dignidade também são ,e, portanto podem ser transformados, porque quem transforma o corpo em instrumento para transmissão de  beleza e alegria, pode também transmitir mensagens de socorro e de solidariedade e  intervir nos acontecimentos políticos como bons artistas que aprenderam a lutar pela justiça, para alcançar a paz.

Conta Eduardo Galeano, no Livro dos Abraços, que um garoto chamada Diego não conhecia o mar, seu pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando,  pediu ao pai. -  Me ajuda a olhar!

É isto que me estimula a participar de iniciativas que buscam descortinar através das infinitas possibilidades de beleza e criatividade que a arte oferece um mundo de justiça e felicidade.

Penso que seja um bom papel que a arte pode desempenhar em um pais que consegue, sabe Deus como, conviver lado a lado com tanta beleza e com tanta feiúra.  Ajudar a olhar o que das tradições que herdamos merece ser preservado, o que deve ser jogado fora. Ajudar a olhar o que alimenta as nossas esperanças e os nossos sonhos, e o que nos faz deixar de acreditar e de lutar por eles. Ajudar a olhar o que nos torna diferentes e originais, ao contrário  daquilo que nos confunde e que nos deixa bastante parecidos com os demais.

*Professor de história. Texto publicado no Jornal da Cidade em 19 de maio de 2004

                               

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