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Pensata
Um outro mundo é
possível, um outro olhar é necessário
Por
José de Oliveira Santos*
O
ditado popular diz que o que
os olhos não vêem o coração não sente, embora no mundo real seja
diferente, pois quem
é negro, mora na
periferia, com pouca estudo ou que estuda em escola pública,
que ganha salário mínimo ou que está desempregado o que vê?
Falta de respeito pelos direitos humanos mais elementares, o
principal deles o direito a vida, quase sempre negado através da sujeira,
buracos, ônibus velhos e atrasados, assaltos, mortes, escolas tristes, falta de praças e de outros
espaços para a prática da cultura, do esporte e do lazer, desemprego
etc...
E
o sentimento dominante é de impotência, de acomodação, de passividade,
não adianta fazer nada, é muito difícil mudar, a única solução
é entregar tudo na mão de Deus. E assim as pessoas vão vivendo e de tão
comum os olhos e ouvidos já se
acostumaram.
E
para fugir da realidade
ou para
fazer com que
as pessoas vejam, mas não enxerguem, há gente de todo tipo.
Desde os vendedores de
milagres até os traficantes, passando pela maioria dos donos das associações de moradores, das quadrilhas juninas, dos times de
futebol, das
biroscas e muitos, mas muitos cabos eleitorais empregados nas escolas e postos de saúde.Todos
eles agindo com a cobertura de uma fabrica de idiotas, a televisão, que
como diz o Titãs “ Está sempre deixando as pessoas muito burras,
burras demais”.
Mas
há pessoas que escapam, há
aqueles que querem ver com os olhos do coração, aqueles que querem ver o essencial que na opinião do pequeno príncipe é invisível aos olhos do rosto ,
há aqueles que começam a querer ver com os olhos e os ouvidos do
espirito o qual segundo Jesus Cristo muda a forma de ver, de ouvir e as
atitudes. “Quem tiver olhos para ver, veja. Quem tiver ouvidos
para ouvir, ouça”.
São
nessas pessoas que querem ver e ouvir com o coração que reside a esperança
de um mundo melhor. E estas pessoas estão sendo formadas através de
milhares de projetos sócio-culturais espalhados pelo Brasil afora.
Os projetos
desenvolvidos na sua maioria por ONGs, Movimentos Sociais e setores
conscientes das religiões,
buscam um olhar que valorize o que se é, mas que procure ir sempre
além. Um ouvido que descubra outros sons e outros tons,
que não somente o superficial, o efêmero que se ouve em quase
todas as rádios. Um olhar
critico que considere que assim como a dança, o teatro e a musica
são criações humanas, a miséria, o desrespeito aos direitos do
cidadão, a falta de dignidade também são ,e, portanto podem ser
transformados, porque quem transforma o corpo em instrumento para
transmissão de
beleza e alegria, pode também transmitir mensagens de socorro e de
solidariedade e
intervir nos acontecimentos políticos como bons artistas que
aprenderam a lutar pela justiça, para alcançar a paz.
Conta
Eduardo Galeano, no Livro dos Abraços, que um garoto chamada Diego
não conhecia o mar, seu pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que
descobrisse o mar. Viajaram para o sul. Ele, o mar, estava do outro lado
das dunas altas, esperando.
Quando
o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de
muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a
imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando,
pediu ao pai. - Me
ajuda a olhar!
É
isto que me estimula a participar de iniciativas que buscam descortinar
através das infinitas possibilidades de beleza e criatividade que a arte
oferece um mundo de justiça e felicidade.
Penso
que seja um bom papel que a arte pode desempenhar em um pais que consegue,
sabe Deus como, conviver lado a lado com tanta beleza e com tanta feiúra.
Ajudar a olhar o que das tradições que herdamos merece ser
preservado, o
que deve ser jogado fora. Ajudar a olhar o que alimenta as nossas esperanças
e os nossos sonhos, e o que nos faz deixar de acreditar e de lutar por eles. Ajudar a olhar o que nos torna
diferentes e originais, ao contrário
daquilo que nos confunde e que nos deixa bastante parecidos com os
demais.
*Professor de história. Texto
publicado no Jornal da Cidade em 19 de maio de 2004
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