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Cidadania
Um jardim de talentos
Por José Oliveira Santos*
Foto Divulgação

Quem conhece os adolescentes e
jovens do Conjunto Jardim, apesar do destaque dado pela imprensa ao envolvimento
de alguns deles com assaltos e tráfico de drogas, sabe que a maioria gosta de
dançar, fazer teatro, cantar e tocar algum instrumento musical.
Infelizmente, por encontrar poucos líderes e gestores sensíveis e conscientes
da importância das ações artísticas e culturais, grande parte desiste e fica
impossibilitada de ocupar o seu tempo livre com atividades voltadas para o
próprio crescimento humano e social, comprovando o que disse o Ministro Gilberto Gil em discurso na
câmara dos deputados no ano de 2004: “(...)Há muitas iniciativas culturais
que nascem, e na maior parte das vezes morrem, nas periferias e no interior
do nosso país, sem que o Brasil possa se dar conta de quanto talento é capaz
o seu povo..”
Para evitar isso, atuando através do apoio e do estímulo às iniciativas
culturais da “galera”, foi criado em 2002 (suspenso no final de 2004 e
retomado no segundo semestre de 2006) o Projeto Ecarte (Educando com arte),
fruto da parceria da ong Ação Cultural, Igreja
Católica e Colégio Leão Magno, cujo objetivo é trazer profissionais para
melhorar a qualidade artística dos trabalhos e divulgá-los através de
mostras, festivais, vídeo-documentário, artigos e reportagens na mídia.
No ano de 2006 o projeto contou inicialmente com 70 adolescentes/jovens
inscritos nas oficinas de teatro e dança mirim e juvenil, que foram
acompanhadas respectivamente pelos instrutores Lázaro, Denisson, Welma e
Cristiane.
O motivo principal que levou esses jovens a se inscreverem nas oficinas foi a
necessidade de se quebrar a rotina, ajudar a perder o medo e a timidez, fazer
novos amigos, conhecer outras pessoas e lugares.
Em termos de dificuldades, no caso do teatro, foi percebido que a maioria
encontrou problemas em exercícios de improvisação, conforme relatou o
instrutor Denisson. Segundo ele, mesmo mostrando bom desempenho nos
exercícios dirigidos, na hora de contar histórias ou de improvisar cenas livres
muitos deles se perdiam na hora de criar, mostrando excessiva dependência de
um texto escrito ou da orientação de outro (a) para lhe dizer o que fazer.
No caso da dança, o problema são os modelos impostos através da cultura de
massa. Por esse motivo a oficina de dança juvenil teve que ser suspensa
porque não conseguiu ampliar a quantidade de inscritos devido à dificuldade
de se assimilar a proposta de dança contemporânea que se apóia na
improvisação, na consciência corporal, na dança popular, na dança de rua, na
própria dança clássica, entre outros elementos, para sua expressividade.
Mesmo assim conseguimos chegar ao final e participar da II Mostra Arte e
Cidadania, em 13 de janeiro, no Teatro Lourival Batista. A maioria dos que
foram representando o Projeto Ecarte nunca tinha ido ao teatro e, segundo os
membros do grupo Pop Dance e da Oficina de Teatro Mirim, apesar de terem
ficado nervosos com a grande quantidade de pessoas, sentiram-se como gente
famosa, como verdadeiras “flores”.
Além disso, foram bem tratados pelos organizadores e por dançarinos e atores
de outros grupos, recebendo elogios por causa de sua performance.
Como assessor pedagógico do Projeto Ecarte, constatei que os cinco meses de
retomada dos trabalhos foram insuficientes para ajudar a diminuir ou reverter
os problemas apontados pelo instrutor Denisson e pela instrutora Cristiane.
Esses problemas são bastante semelhantes aos desafios apresentados no I Fórum
Popular de Cultura, realizado em 2005 e que, entre outras sugestões, apontou a necessidade de ampliar o trabalho de
conscientização da juventude na perspectiva de valorização da arte popular e
de produzir com qualidade fortalecendo a identidade cultural de nosso povo
para atingir uma população cuja mente está massificada pela cultura de
consumo imediato (a pasteurização cultural).
Com a mudança de governo a expectativa de todos(as) que tomaram parte nas
oficinas é de que mais recursos (financeiros, materiais e humanos) possam ser
destinados para o projeto nos próximos anos, a fim de não comprometer os
avanços e possibilitar a superação dos desafios e a ampliação da quantidade
das pessoas beneficiadas.
Nessa perspectiva, propomos que as escolas da região façam um consórcio e
destinem, cada uma, certa quantia em dinheiro, para que o projeto possa ter
uma abrangência maior, e contrate profissionais da área artística bem
qualificados. Quanto ao acompanhamento pedagógico, que também é primordial,
as escolas podem liberar professores das salas de aula, de forma parcial ou
integral, para se dedicarem à proposta, desde que tenham experiências em
iniciativas artístico/culturais em escolas e/ou comunidades.
P.S.: O jornal Cinform, na edição 1198 de 27/03 a 02
de abril de 2006, publicou uma matéria intitulada "Conjunto Jardim tem violência que só perde para a Terra
Dura" e publicou um box com as seguintes informações:
População: 15.725 habitantes; Local: a 10 quilômetros da capital, pertence ao
municipio de N. Sra. do Socorro, e faz parte da Grande Aracaju. Segundo
bairro nas estatísticas de homicídios (15 em 2005). Ocorrência de muitos
roubos a ônibus, tráfico de drogas, arrombamentos a residências e homicídios.
O padre Givanildo, que é pároco e da comunidade, na mesma reportagem afirma: "Sempre há os que, por ociosidade ou falta
de esperança, partem para a criminalidade, principalmente a juventude, que
tem poucas perspectivas por aqui" (...)"Nossos jovens precisam de
projetos educativos, que tragam esporte, cultura, aprendizagem profissional e
lazer."
*Professor de História e Educador Popular.
(Artigo originalmente
publicado no site http://www.overmundo.com.br)
 
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