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| Comunicação, cultura e política:
tudo a ver O abismo entre os interesses da (grande) imprensa e da população José Oliveira Santos* Depois de alguns anos ouvindo e tendo ficado cansado do rádio-jornalismo produzido em Sergipe, sugeri a companheiros radialistas e jornalistas que buscassem elaborar uma pauta que não ficasse vinculada somente aos temas que as grandes redes nacionais elegeram como prioridade. Pois como sabemos, nem sempre as prioridades da Veja, Globo, SBT, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, entre outros, são de fato representativas dos interesses da maioria da população. Na verdade, estão em função dos vínculos econômicos/corporativos que ligam essas empresas de comunicação a grandes grupos nacionais e internacionais articulados com outros ramos da economia e a certos esquemas de dominação e exclusão, como é o caso de brancos racistas da África do Sul, que detêm o controle acionário da revista VEJA, conforme denúncia divulgada através da Rede Bandeirantes e em outros veículos de comunicação. Nessa mesma linha, outro aspecto importante e que me levou a afastar-me da audiência das emissoras locais, principalmente em 2006, foi a falta de respeito a uma regra básica de qualquer manual do bom jornalismo, que é sempre ouvir o outro lado. Cansei de ver o PT e o candidato a governador, Marcelo Deda, ser linchado, achincalhado ou humilhado pelas ondas do rádio e não ouvir o contraponto, a outra parte. Por isso, passei a utilizar como fonte de
informação os sites na internet e/ou a edição impressa dos seguintes
veículos:
Carta Maior,
Adital,
Caros Amigos,
Overmundo,
Centro de Mídia
Independente,
Observatório da Imprensa e
Carta
Capital. Na mesma linha dessa emissora, temos aqui em nossa província, porém na forma escrita, o jornal Cinfom que, embora muitas vezes (principalmente no ano de 2006) tenha repetido a suposta “opinião pública” da qual, Veja, Globo, SBT, Folha, Estadão, se julgam porta-vozes, através de seus editoriais, pelo menos não deixou de lado a abordagem ampliada de assuntos que muito interessam a quem mora na periferia, vive de salário mínimo, anda de ônibus, tem os filhos matriculados em escola pública, depende do “humor” dos funcionários e médicos dos postos de saúde, não tem acesso à arte e cultura de qualidade e não pode investir em serviços privados de segurança etc. São assuntos que nem sempre tem recebido o espaço, a análise profunda, o debate com especialistas, o contraditório, por parte da nossa grande imprensa, a não ser quando acontecem grandes tragédias e mesmo assim com o viés sensacionalista e supostamente “preocupado” com a maioria da população. Neste ano de 2007 voltei a ouvir programas de rádio produzidos em Sergipe, principalmente a emissora estatal Aperipê FM, que a partir da conquista do governo estadual pela aliança PT - PC do B - PSB - PMDB - PTB etc., está possibilitando a participação de uma equipe que sabe selecionar dos nossos bons e tradicionais artistas e bandas as melhores músicas, incluindo os grandes sucessos. O mesmo se sucede com os novos artistas e bandas, como DJ Dolores, Mombojó, Afroreggae, Naurêa e uma pá de gente boa, mas que são preteridas em favor tão somente do arrocha, do brega, do forró transgênico ou eletrônico, os únicos tipos de música que tocam na maioria das emissoras comerciais, o que, conseqüentemente, leva a população a achar que não existe mais nada além disso. A Aperipê FM também apresenta o programa brasileiro da Rádio França Internacional, que ouvi algumas vezes pela internet e que tem uma pauta que interessa a quem quer entender e discutir os grandes temas da atualidade e também aqueles ligados diretamente à nossa realidade, pois é comum o programa entrevistar artistas, intelectuais, ativistas sociais e políticos brasileiros que estão morando, estudando, trabalhando ou de passagem pela França. No caso da outra emissora estatal, a Aperipê AM, será necessário mudar muito mais, para que ela se torne uma emissora voltada prioritariamente para a informação plural e de qualidade, que acredito ser o papel estratégico para o qual ela parece destinada. Espero que ela se torne algo tipo uma CBN local. Será bom para nós e para o novo governo que foi eleito pelos sergipanos para colocar Sergipe em condições de dialogar e contribuir para as mudanças que o Brasil e o mundo tanto precisam. Uma boa referência para isso também são os programas jornalísticos gerados pela Radiobrás, que atende a todas as nossas expectativas: busca atingir uma gama variada de assuntos de interesse público, com seriedade e profundidade, e ouve o outro lado, mesmo quando é uma opinião contrária ao pensamento do governo federal. Não apenas em Sergipe, no plano nacional também há situações que precisam de uma atenção especial dos ativistas sociais, políticos e culturais. Recentemente li com pesar a notícia referentes as dificuldades para a manutenção das atividades da agência Carta Maior, que foi um veículo que serviu de trincheira no ano de 2006 ao enfrentamento do esquema midiático que pretendeu derrotar o bloco político vencedor das eleições de 2002 Será que o governo federal e alguns estaduais comprometidos com as transformações básicas que tanto precisamos (como a democratização da comunicação) não dispõem de dinheiro de publicidade para investir nesses veículos, não como favor, mas como obrigação, considerando que as polpudas verbas de publicidade estatal são o sustentáculo principal da maioria, quiçá de todos os veículos da iniciativa “privada”? Acho que nem é preciso lembrar aos nossos companheiros e camaradas do governo federal e dos estados que acreditam e fazem a sua parte para ajudar na construção de “outros mundos” que a ditadura militar não foi embora sem que antes se tivesse investido pesado em órgãos de comunicação como a Rede Globo, que vez por outra se lançam contra aqueles que também acreditam e desejam construir “outros mundos”. Dentre eles, podemos citar o MST, como um símbolo desse embate entre os que detêm poderosos meios de comunicação para manter o povo na indigência intelectual e ética e aqueles que querem seres humanos à altura dos ideais de solidariedade, tolerância, inteligência e beleza que tanto precisamos para não voltarmos novamente à barbárie à qual estamos chegando rapidamente a passos largos. Para terminar um SALVE !!! para aqueles que lutam para construir e manter Rádios e TV’s Comunitárias, sites e blogs. E não nos esqueçamos de que é preciso interagirmos mais e batalhar muito para que antes do término desse segundo mandato presidencial não continue sendo crime montar uma emissora de rádio para falar do que realmente nos interessa e tocar músicas sem precisar ficar “amarrado” às listas de umas emissoras que tocam músicas que promovem a “prostituição” ou de outras que tocam músicas que promovem a “alienação" e a “intolerância”. Será que não podemos conquistar o direito de ir além da infeliz dicotomia entre Deus e o Diabo nas ondas do rádio? *Diretor do Centro Cultural Gonzagão, em Aracaju. E-mail: ongacaocultural@yahoo.com.br |